Sob rigoroso critério democrático, a greve do professorado paranaense veio até em boa hora. Afinal, todo o funcionalismo está com um arrocho de cinco anos e mal pode se manifestar por não deter os níveis de organização do magistério. A parede coloca o problema não apenas do professorado, mas de todos os servidores, bloqueados pela imanência da Lei Camata e a de Responsabilidade Fiscal, e o cenário de um Estado quebrado pela prodigalidade dos gestores.
Sabe-se, desde logo, da escassez de espaços para negociação em função dos impedimentos de ordem legal e especialmente orçamentária. Não há grana e isso é que surpreende porque nem esse fator limitou ou impediu as fraudes e a taxa elevadíssima de corrupção. Revela até uma dimensão mágica deste governo, ou melhor, de prestidigitadores: como é que levantaram tanto dinheiro para gastar em propaganda (os R$ 500 milhões em pouco mais de quatro anos), os rombos do Banestado, a verba torrada em eleições seguidas, a negociação entre a Copel e a Sercomtel, a queima de R$ 80 milhões no vácuo dos Jogos da Natureza, a festa com os títulos públicos no Banestado e essa mais recente descoberta da brutal ‘‘lavagem’’ de dinheiro também nesse estabelecimento de crédito.
É, no entanto, raciocinando por esse ângulo perverso que os professores calculam: se aparece dinheiro pesado para coisas inócuas e para malandragens, por que não poderão os mestres acreditar num milagre? Ocorre que para essa segunda natureza (ou será a mesma em mimetismo?) sempre se dá um jeito, uma vez que acaba assumindo a dimensão de prioridade, quase de sagrado.
A greve da área chega a ser enfadonha pela escassez dos resultados que não compensam os sacrifícios e desgastes. Assim mesmo tem outra utilidade, além da já apontada: sinaliza que a empulhação do reordenamento do Estado brasileiro é puro jogo de cena e mais discurso do que práxis. Prometeu-se que o enxugamento da máquina pública, via desmontes e privatização, ampliaria o suprimento de recursos a setores típicos de Estado, como educação, saúde e segurança. Mera jogada para mostrar submissão ao FMI porque são os campos em que a iniciativa das privadas está atuando com o máximo desembaraço, enquanto o Estado atrofia.

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