Estamos fechando o Século 20 com algumas obras que tentaram sintetizá-lo: a de John Kenneth Galbraith, ‘‘A era da incerteza’’, e a de Hobsbawn, ‘‘A era dos extremos’’, trouxeram visões diferenciadas, a de um liberal radical e a de um marxista que fez revisões da profecia para não fugir da ciência. Se houvesse um painel para descrever essa fase que o Paraná atravessa e especialmente quanto à trajetória de Jaime Lerner, poderíamos cunhar a obra de ‘‘A era do infortúnio’’, que assentaria melhor do que ‘‘tempo’’ ou ‘‘momento’’, uma vez que estamos diante de um ciclo, uma quase dinastia.
Dos últimos impactos, que vão da CPI das Drogas aos eventos de Londrina, o que levou o Palácio Iguaçu à perplexidade foi o do afastamento por 120 dias do prefeito Antonio Belinati. É um Exocet na única liderança disponível para o PFL (aliás, já abandonado pela cúpula nacional e pelos escalões intermediários) no segundo maior colégio eleitoral, o que afeta profundamente a logística oficial, que dependeu basicamente de Curitiba e Londrina para derrotar Roberto Requião na reeleição, não muito segura, de Jaime Lerner.
Teme-se também que Cassio Taniguchi, até aqui absoluto nas pesquisas, acabe se ‘‘contaminando’’ com os sedimentos da relação pactual entre o sistema de segurança e o crime e com os eventos do Norte, ainda mais se provarem que o chunchão maior – a transa tenebrosa, que todo o mundo quer esconder, entre Copel e Sercomtel – fique com os intestinos à mostra e acabe envolvendo o poder político-empresarial que dá suporte ao grupo dominante.
Foi fácil reverter – e permaneceu a acusação de partilha de grana a deputados – a CPI, já instalada, da venda de ações da Sercomtel à Copel e que botou na mão da prefeitura londrinense mais de R$ 180 milhões. Mais fácil certamente do que o procedimento na Justiça, que preliminarmente afastou Belinati e determinou a quebra do sigilo fiscal e telefônico de todos os indiciados, e cujos efeitos políticos, mediatos e imediatos, são devastadores. Apenas uma hipótese poderia beneficiar Lerner e seus aliados: a remotíssima, que desse ‘‘pizza’’ em todo o processo e aí, como vítima, ainda sangrando, o Belinati iria anatematizar a elite e os granfos, seus inimigos, e ser carregado às costas pela plebe, que o adora como um pai amantíssimo. Nada como uma luta de classes em tom picaresco para o ulular da patuléia e a catarse dos primatas da política.
FOLCLORE
Uma empresa no listão dos feitos de Londrina chama a atenção com seu nome sugestivo ‘‘Archyvo X’’, que nos remete ao seriado de TV em que federais perseguem ETs. Observação do anarquista Elísio Marques. E como há ETs na heróica Londrina, inclusive aquele que apagou a luz do estádio
BIZARRICE Carvalhinho, da Fiep, dizia, ontem, que o Brasil está bem, que os sinais de reaquecimento gradual da economia são inegáveis e que o pessimismo está nos jornais. O pessimismo, deformação bem brasileira, é a forma radical encontrada para opor-se aos exageros do otimismo.
Temos de um lado o Pangloss, de Voltaire, para quem tudo está no melhor dos mundos, e de outro um hemorroidário que insiste em ver males do Brasil antes de cuidar do mal que tanto o deprime e angustia.
AXIOMA Se a TV a cabo for obrigada a transmitir as sessões do Senado e da Câmara Federal, conforme o projeto já aprovado do senador Requião, a emissora estará impedida de anunciar xarope. É que até para formas requintadas de redundância é preciso limites.
GLOSA Para muitos, a reforma fascistóide do Centro Cívico transformou o local num autêntico gueto de Varsóvia. Não esquecer que muitos heróis, inclusive, crianças do país ocupado, revelaram-se em páginas épicas usando nada mais nada menos do que bombas Molotov, o que pode acontecer, a qualquer momento, naquele local diante da impassibilidade da autoridade.
EPIGRAMA O senador Alvaro Dias se diz indignado com o narcotráfico e desmanche de automóveis, o que existia em seu governo e jamais foi combatido. Mostra-se alarmado com a corrupção, mas a diretoria do Banestado de sua gestão está sendo enquadrada pelo Ministério Público Federal no crime do colarinho branco.
SPRAY O famoso Canal Extravasor, que indenizou propriedades a sete por um de alguns e pouquíssimo para os demais, e que até hoje não funcionou, está na pauta do Tribunal de Contas. - O canal foi feito sem audiência daqueles que têm a memória da bacia hidrográfica do Iguaçu: o pessoal que entendia do riscado e respondia pelas intervenções do Departamento Nacional de Obras e Saneamento, que retificou a quase totalidade dos rios de Curitiba. - Engenheiros do DNOS, como Expedito Dacheux Pereira, haviam feito várias recomendações no projeto que hoje está parado a meio caminho, despertando suspeitas não apenas do Tribunal de Contas, mas ainda dos proprietários confinantes que receberam menos do que alguns privilegiados ligados ao poder. - Reunificação dos partidos comunistas foi aprovada no XII Congresso do PCB, o Partidão. Separados, cabem num Romi-Izeta; juntos dão uma van. Mas o Ricardo Gomyde acha que desta vez se elege vereador em Curitiba pelo PC do B, ainda que sem o auxílio da Dona Marlene Pereira. - Osvaldo Buskey, do PDT, acusa o partido de só aprovar candidatos à vereança que reafirmem apoio a Eduardo Requião. Mesmo assim, quer bater chapa como candidato a prefeito. - A ParanaPrevidência vai ter que eleger um novo representante dos funcionários no Conselho Fiscal com a morte do professor Eleutério Vaselai. Foram os dois representantes que denunciaram o fato de a entidade estar tomando grana dos servidores e não os repassando à instituição. - A agência do Itaú, caixa automático, da Boca Maldita de Curitiba, pegou uma parada burra com os frequentadores do local ao colocar um gradil, de péssimo gosto, um verdadeiro galinheiro, para impedir o hábito do pessoal de sentar na escadaria. Arrumaram um depósito de lixo com isso. - Denúncias à CPI das Drogas, a estadual, podem ser enviadas ao e-mail [email protected], inaugurado ontem do deputado Ribas Carli.
CROMO O cricri do grilo, à noite, dá mais paranóia do que o apito do trem, dependendo do grau de sensibilidade. Para os iluminados, até o galo metálico em cima da torre é insuportável.
AFORÍSTICO Se até agora está assim, imaginaram este governo lá pelo Natal?

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