Luiz Geraldo Mazza
O convívio promíscuo de políticos e empresários com marginais do crime é uma constante brasileira. Conferida a capilaridade nacional a uma CPI como a do Narcotráfico e ter-se-ia uma anatomia do país ingovernável que é o Brasil. O que se dava no Acre, e que chocou tanta gente com as ações de um deputado federal e ex-oficial PM, o celebérrimo Hildebrando, poderia, como os fatos estão evidenciando, se dar no Paraná como ocorre em São Paulo, Rio, Piauí, Alagoas, Espírito Santo etc.
Quando sai uma foto como a de domingo desta Folha, imagem antes divulgada no Jornal Nacional da Globo, em que o falecido Aníbal Khury, figura maior dos últimos quarenta anos da política paranaense (o Poder, como o designava Jaime Canet Júnior) aparece ao lado de um pistoleiro armado, o Zóio, tem-se noção de como são criativos os ecossistemas da atividade partidária. Em passado distante, as relações com o jogo dio bicho, que ajudou a eleger até Ney Braga, eram toleráveis porque a esse tempo a escala do delito não tinha alcançado a expressão de agora. Ademais, a contravenção não se vinculava, como ocorria no Rio e São Paulo, ao tráfico de drogas, como a juíza Denise Frossard provou ao enquadrar os chefes no crime de formação de quadrilha.
Por sinal que vários chefes da contravenção estiveram no Paraná no governo Requião, entre os quais o Miro, que chegou a montar um cassino em Foz do Iguaçu, fechado posteriormente pelo delegado Aprígio Cardoso, e o Capitão Guimarães, torturador de 64, interessados em globalizar a atividade no Estado em detrimento dos donos de bancas locais.
Já com o traço industrial e de progressão geométrica, alcançado por várias formas de crime organizado (roubo de cargas, de carros, de blindados que transportam valores, tudo vinculado à malha do narcotráfico), as coisas passaram a ter dimensões ciclópicas. Se o governador Jaime Lerner, como todos sabem, transferiu prerrogativas indelegáveis à classe política, no que diz respeito à Segurança Pública, tanto ele como aqueles a quem foi atribuída a função lançaram o sistema numa espécie de anomia porque nem o governante muito menos a autoridade deferida poderiam controlar o que faziam aqueles que agiam em seu nome. Só isso pode explicar os níveis de comprometimento da autoridade verificados no andamento da CPI do Narcotráfico e ainda não apurados em sua extensão e profundidade devidos.
Claro que para nós os casos dos vínculos entre o crime organizado e a polícia eram uma especialidade de grandes centros como Rio e São Paulo, embora houvesse suspeita da liberdade operacional nos roubos de veículos e de cargas e na ação desembaraçada dos desmanches. Revelações da CPI foram um impacto muito forte porque confirmavam aquilo que era apenas uma presunção no convívio entre políticos e marginais como se uns e outros dependessem para sobreviver de formas tão sofisticadas do parasitismo.





