Luiz Geraldo Mazza
Jaime Lerner, rompendo seus hábitos, está no interior inaugurando obras; Requião faz diligências junto com seu colega Vilson Kleinubing na Polícia Federal: Álvaro Dias, presidente da Telepar, lança obras da rede de Fibras Ópticas em Cascavel, Foz do Iguaçu e outros municípios do Oeste. A rigor uma coisa só: todos em campanha eleitoral.
Nas pesquisas Lerner ainda leva vantagens óbvias, embora com um governo de poucas realizações visíveis. E isso é tanto verdade que o apelo publicitário mudou de linguagem: agora não é mais a transformação que a gente vê e sim a transformação que a gente faz, melhor colocada, tirando o governo da condição de agente das mudanças e transferindo a tarefa a cada um do povo. O governador, que entra numa fase mais decisiva de sua gestão, está com 35,7%, Álvaro com 25,3% e Requião com 19,9%. Neste caso percebe-se que os ganhos na CPI dos Precatórios são neutralizados pelo bloqueio dos empréstimos, no caso de Requião.
Sugeriu-se que FHC não estaria com essa bola toda para que tanto Lerner como Álvaro Dias se empenhassem em seu apoio. O último Datafolha mostra que no Paraná está com 47 de ótimo/bom e 40 de regular (em Curitiba a pontuação cai, mas ainda é alta, com 43% e 44%). Já o Plano Real é bem mais forte com 79% de bom/ótimo. Esse o dado mais relevante da pesquisa na medida em que o programa se revela mais forte do o personalismo, uma das piores patologias nacionais.
Persiste, pois, a condicionante federal sobre a estadual, embora Fernando Henrique tenha dificuldades crescentes para acomodar situações regionais em Minas, São Paulo, Rio de Janeiro, enfim os grandes colégios eleitorais. E isso pode induzir o esquema ao acerto que se pretendia com a entrada de Lerner no PSDB e a chapa acoplada com Álvaro para o Senado. Há dificuldades, pois não é pequena a ânsia de revanche e a carga de ressentimento.
Se Lerner e Álvaro correrem outra vez em faixas distintas e ambos apoiando FHC, Requião levará uma vantagem na condição de polarizador da oposição. Só que o seu partido, o PMDB, continuará mutante e tendendo a ficar até bem mais fisiológico do que o PFL. Esse cenário é repetitivo no sentido de que na outra eleição ele fez a resistência a Quércia e dela se beneficiou, mantendo-se na mídia inclusive com recursos públicos, na anticandidatura presidencial nas prévias do PMDB, como está no processo que o cassou no TRE e que em breve será apreciado no TSE.
Há um ônus pesado para Requião, ao lado das vantagens de acumular energias oposicionistas: a declaração de que revisará os contratos das montadoras e cancelar investimentos se funde à ação bloqueadora dos empréstimos e o coloca numa posição de difícil sustentação em qualquer perspectiva, ideológica, moral ou técnica. De todos os três, o mais ágil até aqui é Álvaro Dias, bafejado ainda por toda a pregação da campanha municipal de que Lerner só cuida de Curitiba e esquece o interior. As viagens do governador, agora frequentes, são uma resposta que talvez funcione, dependendo de como isso for traduzido em ações concretas.
BIZARRICE Eslogans eleitorais ou do governo são transitórios. O de Requião em 1985, quando candidato contra Lerner à prefeitura da Capital, foi Voltar atrás nunca mais. Ganhou naquele, mas perdeu em três seguidas, uma com Lerner e outras duas com Greca e Taniguchi. Hoje os três postulantes não poderiam usar o eslogam do PMDB. Nenhum deles é novidade. Pelo contrário. E caminham para a saturação, enquanto revelam nossa pobreza de quadros.
IDÉIA-FORÇA Não se pode dizer que o governo careça de uma idéia-força para a alavancagem de um projeto paranaense. A chegada das montadoras e de outros investimentos, embora sua concentração excessiva na Grande Curitiba (mais de 75%, segundo o Ipardes, no eixo que vai até Ponta Grossa), cria condições excepcionais para um novo ciclo econômico.
O apelo, ora modificado, em torno da transformação que você vê para a que você faz é, deontologicamente, mais correto, menos arrogante e divinizador do Estado e, portanto, mais interativo ao mover a subjetividade de cada um para o esforço comum. Aquele anúncio do jogo de golfe é dirigido a Requião, que fez a comparação infantil sobre a Cidade Industrial que tentou subestimar, mas é falso na idéia de que a difusão dos investimentos se dá no conjunto do território, o que não é verdadeiro.
No governo Ney Braga (que foi um divisor de águas, uma ruptura estrutural e que pode repetir-se agora em outra escala por Lerner) o apelo era Somos todos uma só força. O grafismo era primário com os bonequinhos de mãos dadas feitos à tesoura ocupando todo o espaço territorial. O de São Paulo, do governo Carvalho Pinto, era uma colmeia, também figurativa, mas de significado semiológico mais forte com a idéia de trabalho e organização das abelhas.
O Paraná não tem plano e nem estratégia no rigor técnico. O que está aí veio do passado distante, como acentuei ontem em debate sobre Plano Diretor na Câmara Municipal, mas não se pode negar que essa mudança de perfil econômico pode ser partilhada pela sociedade. Ainda não nos libertamos - e isso, claro, não é fácil - da condição de sub-pólo relativamente a São Paulo, como economia de complementariedade.





