Quando a oposição, frustrada por ter levado um contragolpe do governo na montagem da CPI das Drogas, chamou de ‘‘laranjas’’ as CPIs, criadas para substituí-la e saturar a pauta, tinha alguma base até porque a gestão que aí está, é, mais do que qualquer outra, mesmo as do regime militar, a da ‘‘caixa-preta’’. Há as ‘‘caixas-pretas’’ com uma certa conformação legal como as tais organizações sociais autônomas, que pretendem deixar o Estado leigo em ensino, ecologia e até mesmo, imaginem o absurdo, na previdência dos seus servidores. Há, no entanto, as outras, com tom sinistro, como as que jorram da cloaca londrinense ou dos eventos da Banestado Leasing.
Todos os governos, a pretexto de driblar amarras legais, que limitassem salários ou dificultassem a dinâmica aproximada ao modelo da iniciativa das privadas (se são tão eficientes, por que quebram ou são absorvidas por entes internacionais?) sempre se valeram do expediente, ora com estatais e, num certo momento histórico, na moda das empresas de economia mista. Foi assim até que os tribunais de Contas, o que também pouco acrescenta, como se vê no fato de episódios como os que derrubaram Collor e mexem com Pitta e Belinati, esses organismos, nem com todos os seus sensores e antenas, nada captaram, mesmo custando, como custam aos contribuintes, os olhos da cara.
Assim, pois, o biombo é a maior trincheira do governo Lerner. Mais do que isso um ‘‘bunker’’, uma casamata, daquelas inexpugnáveis. Daí porque impediu as CPIs, com a cumplicidade ritual da Assembléia Legislativa, do pedágio e a da Copel-Sercomtel, que é uma AMA-Comurb com elefantíase.
A CPI Estadual das Drogas saiu do atacado, que comprometia a cúpula de todo o aparato de segurança e envolvia a hierarquia do governo, para o varejo. A lupa voltada para a rotina das execuções, comuníssimas há mais de trinta anos na periferia da cidade, que ilustram a capa dos jornais policiais diários, tem todo o jeito de manobra diversionista, posto que essas vítimas resultem do mesmo tipo de crime. Seria como a CPI investigar os pontos de distribuição de drogas e até os poéticos vendedores de pipocas, acusados do mesmo comércio, nas imediações dos colégios.
Ora, deputados como o presidente e o relator dessa CPI, como repórteres da área há anos, sabem que o vínculo entre o crime organizado e a Polícia sempre existiu. É importante saber a extensão dessa patologia e como atinge os humildes, mas o Brasil está de olho nos chefões. E convenhamos que nem mesmo a CPI Federal, com todos os seus exageros inquisitoriais e seus feitos pedagógicos, o está conseguindo ao dar, por exemplo, a um Fernandinho Beira-Mar as dimensões de um chefe do cartel de Cali, um Pablo Escobar das areias de Copacabana.

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