Anos 50, a massa cerca o Colégio Iguaçu (grafado com dois ésses) da família Parodi, em Curitiba, por causa do aumento das taxas escolares. A Polícia Civil se ocupava da defesa das instalações e o delegado Arlindo Godoy, que atendia as operações, comete um erro de cálculo ao enfrentar a multidão com um revólver à mão. Num primeiro instante, a multidão recuou. Como, porém, alguns manifestantes se lançassem em direção ao policial, este deu dois tiros para cima. Foi como um sinal para a brigada da carga ligeira: portas e janelas do colégio foram postas abaixo.
O tiro para o ar, ao invés de intimidar, revigora. Uma vez, na Boca Maldita, um carioca, drogado, deu um safanão num mudinho, figura popular do local. Como os frequentadores chiassem, o cidadão foi até o hotel e de lá retornou com um revólver na mão e berrando: ‘‘Com Renatinho ninguém tira sarro, não!’’. Também depois de sua passagem todos o viram virar na Praça Osório. Vendo-se seguido, cometeu erro idêntico ao do policial atirando para o ar. Cercâmo-lo, como dizia aquele radialista, encurralâmo-lo e surrâmo-lo e ainda, por cima, entregâmo-lo a uma delegacia de polícia por tentativa de homicídio. Nós, que o perseguimos, estivemos muito mais perto do tal delito.
Gustave Lebon foi quem se ocupou de estudar a psicologia orgânica da massa, da multidão nos momentos de ‘‘estouro da boiada’’: um gesto, uma palavra de ordem, e tudo explode. Na Guerra do Pente, de 1959, um rádio-repórter da Rádio Cultura, do Abílio Holzmann, gritava ao microfone naquele dia tenso: ‘‘Segundo informações que acabamos de receber, uma criança de presumivelmente 3 anos teria sido morta a patadas de um cavalo da Polícia Militar. A notícia ainda não foi confirmada (pausa), mas caso o seja o furo é nosso!’’.
O vitimalismo é uma compulsão brasileira. João Pessoa, assassinado por causa de uma questão passional, teve o seu drama ‘‘politizado’’ e transformado em carro-chefe da Revolução de 30. Virou avenida em Curitiba e em vários pontos do País e capital da Paraíba. Havia um hino que dizia assim: ‘‘João Pessoa, João Pessoa, caro filho do Brasil’’ e lá adiante, já no refrão, ‘‘a tua Pátria espera um dia// a tua ressurreição!’’. O tiro em Edson Luís, no Calabouço, Rio de Janeiro, deu margem à Marcha dos 100 mil, importantíssima para marcar uma posição contra o regime militar. A direita, tentando reduzir-lhe a relevância, insiste que o homem da CIA, Vernon Walters, estava no meio do agito. Guerra é guerra, mito contra mito e aí o boato tem virtudes sagradas.

mockup