Luiz Geraldo Mazza
Já se disse e repito-o: se Cortazar, Llosa, Gabriel Garcia Marques, Icaza vivessem no Brasil, jamais precisariam recorrer ao imaginário para produzir romances e contos porque lhes bastaria narrar o factual, fazer jornalismo, para obter os mesmos efeitos do chamado realismo fantástico. Se tudo o que for registrado na CPI das Drogas vier a ser comprovado, ficará demonstrado que o poder, especialmente o de polícia, praticamente comandava as ações mais fortes e rentáveis do crime organizado e, de certa forma, conduzia-o.
O esforço para desqualificar as testemunhas, quando estas eram sentenciadas e tinham sido presas pelos que agora acusavam, é adotado em todo o País. Busca-se argumentar que pessoas de bem não poderiam ficar sujeitas ao juízo de condenados como se fosse possível um cursilhista, por exemplo, saber de ações criminosas melhor do que um delinquente. Há uma interatividade entre polícia e crime até na linguagem. Tanto que o jargão de cáftens, traficantes, ladrões de cargas, bandidos de uma forma geral, é comum aos policiais. Uma gíria, com força dialetal, aí circula como expressão de ecossistema simultâneo de convívio e conflito.
Relatos são de tal forma surpreendentes quando, por exemplo, tratam do pagamento de dízimos e royalties a políticos por determinadas delegacias e áreas policiais. Há também cobranças de taxas e pedágios de doleiros em Foz do Iguaçu, racha de tóxico apreendido e posterior venda por gente da polícia, assassinatos, enfim cenas apropriadas a um filme de terror dos mais surpreendentes e sofisticados.
Nada disso surgiu agora. É uma sedimentação, como a do limo que acentua a passagem do tempo nos fundos de rio e nas rochas, de uma cultura, de um clima de tolerância, agora não voltada apenas para o delito menor, a contravenção do jogo do bicho, por exemplo, mas para a criminalidade de alta escala e rentabilidade. Podem ainda aparecer vídeos, como aquele do delegado Mário Ramos junto com o Paulo Mandelli, um dos reis dos desmanches, abrangendo um raio maior de convívio com autoridades de outros poderes, o que por certo acentuará o espanto e a convicção de que estamos emergindo de um pesadelo e tateamos o cenário real (seria mesmo?) com passos incertos e como sonâmbulos.





