LUIZ GERALDO MAZZA
O senador Alvaro Dias vai perder certamente a batalha do impedimento à venda de ações da Petrobras. Hélio Duque, com histórico de nacionalista melhor do que o dele, a da sua equipe, já o alertou sobre a inocuidade dos temores de que se esteja dissimulando a privatização da estatal. Afinal, a Petrobras é a jóia da coroa e ainda por cima bem magnetizada pela reverência religiosa que lhe é devida em função de fatos históricos sobejamente conhecidos. A Copel, aqui no Paraná, é mais ou menos isso em escala apropriada e me parece que o senador pegaria uma causa concreta se adotasse providências legais para impor o plebiscito na venda ou leilão de qualquer das nossas estatais, incluindo as de caráter regional.
O governo estadual tenta esconder o quanto a sua prodigalidade comprometeu essa empresa, da qual queimou, em ações, perto de R$ 500 milhões, exatamente o que gastou em propaganda em menos de cinco anos. E a Copel tem uma imagem muito próxima, em poder e eficiência, da desfrutada pela estatal de petróleo, razão pela qual seria de esperar-se que parta do Senado, lá onde a oposição, pelo menos a regional, é absoluta, a resistência ao desatino. Ou, pelo menos, se isso não for possível, mostrar como se fez tamanho desmanche público numa terra em que desmanches de automóveis eram, segundo indícios da CPI das Drogas, protegidos como se chapas brancas fossem.
Como já são nacionais os informes de que a Copel deve passar para a União, há a aberta desconfiança de que isso está ligado à antecipação dos royalties de Itaipu. Teria sido sinalizado esse interesse como fator para fechar o acordo. Ocorre que as antecipações de receita, como foram procedidas, ferem uma resolução do Senado, a de número 78, que proíbe captar recursos via transferências originárias de entidades por eles (Estados) controladas, ainda que a título de antecipação de pagamento ou recolhimento de tributos.
Dizia uma publicação nacional que em 1996 o Paraná detinha 86% do capital e hoje, ainda que lhe conserve o controle, tem só 31% da Copel. É claro que o governo nega tudo isso, pois gosta de antecipar receitas futuras, mas não verdades.
Estas, como se frutas fossem, só aparecem quando sazonadas na direção dos interesses e conveniências do poder. Talvez seja por isso que há tantas frutas apodrecidas e por isso jamais colhidas.
BIZARRICE
O cacique Raoni, quem diria, estaria em Paris acertando com uma ONG a montagem de uma taba high tec em seus domínios. Num país em que o índio que fez o discurso contra o massacre das nações desde o Descobrimento se chama Jerri Adriani, tudo é possível
AXIOMA José Tavares, secretário de Segurança, perdeu as estribeiras no programa do Ratinho e até na Rádio Exclusiva, ao ser entrevistado por Luciana Pombo. Naquele não deixava o sem-terra falar, o que quase o transformou num sem-fala. No da Exclusiva, ao reafirmar que agirá da mesma forma contra novas incursões do MST, entrou em parafuso quando a entrevistadora perguntou se isso se faria à custa de novas perdas humanas.
GLOSA Governo federal dividiu os caminhoneiros sem garantir o fim da greve que, embora parcial, vai atazanar especialmente o Paraná porque aqui a colher de chá prometida de suspensão de cobrança e introdução do vale pedágio não vai prevalecer. Aqui, como sempre, a entrega é radical: Banestado, Sanepar, Copel, estradas, escolas etc.
EPIGRAMA Ótima iniciativa do deputado Ribas Carli, já aprovada, determinado que o Executivo custeie despesas de DNA em processos de investigação de paternidade que alcança pessoas que comprovarem renda igual ou inferior a quatro mínimos.
Os políticos não são beneficiados porque nenhum deles se encaixa nessa limitação salarial e normalmente aparecem mais como investigados, tanto nestes como nos demais casos.
MÁXIMAS O pior para um agitador social é descobrir que ele é quase um só na multidão e não lhe estão dando a mínima bola.
Há algumas greves, como a das universidades federais, que apenas conseguem transmitir o contrário do que pretendem: imobilismo e inércia e ainda, por cima, o discurso da impotência.
No 1º de Maio, o agito da CUT, em São Paulo, por ser doutrinador e chato, repetitivo e que não abre perspectiva, reuniu dezenas de milhares de pessoas no ABC; o da Força Sindical, como tinha sorteio e show, concentrou quase um milhão de pessoas. MST com trio elétrico e mulatas do Sargenteli é o fino.
A mania do engajado de querer substituir o povo e agir e pensar como se o fizesse por ele cria um ritual de sessão espírita, como se o orador fosse um médium com a propriedade complementar de ocupar o corpo alheio. Visto a distância é ridículo. A atitude, aparentemente feita em nome do solidário, é de um devastador autoritarismo e de um presunção sem tamanho.
SPRAY Governo gerou um kit oposição nada desprezível no embate com o MST: afora a nódoa do crime organizado e da corrupção, a violência. - Há imagens riquíssimas do conflito mil vezes superiores às de 88, quando do massacre dos professores pelo governo Alvaro Dias. - Há ainda a entrega da Copel e mais as questões localizadas como o IPTU milionário do ano que vem, com pagamento de até 3% do valor venal dos domicílios e ainda o inexplicável reajuste de 150% nas tarifas dos coletivos durante o Plano Real. - Quem tem munição pesada em cima do tema, e porque o conhece por dentro, é o João Simões, ex-secretário do cartel de Curitiba.
FOLCLORE O senador Suplicy, do PT, foi a um velório virtual do senador Caxias na novela O Rei do Gado e até fez uma pontinha. Agora esteve até nas operações de necropsia do sem-terra morto. No virtual e no real, virtuoso.
CROMO E a brisa chamou-me, suave,/ e tocou-me as mãos/ e correu comigo pela campina/ depois volteou/ e foi para longe a rir-se,/ deixando-me as mãos// molhadas de azul. Do Cântico das Horas, novo livro do médico-poeta Mário Farah Rafka, no poemeto Lúdico.
AFORÍSTICO Quanto mais o governo se explica, mais se complica.





