Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
As juras do além
Aníbal, você acha que eu vou vender a maioria das ações da Copel depois de 25 anos de vida pública? Eu não faria isso nunca, preferia morrer. A sentença é de Lerner, a informação de Aníbal Khury.
Não foi em sessão espírita que seria impossível com a equipe do saudoso deputado presente, que inviabilizaria a concentração até porque mais de um assessor pretenderia fazer o orientador do depoente ou, até mesmo, tentar psicografá-lo. Está na página 312 do livro Governadores do Paraná, de Enéas Faria e Sílvio Sebastiani.
Se pretendia morrer, vai ficar em breve em débito com a história. A propósito disso, há uma história de um jornalista, há muito tempo fora do basquete e que, bastante doente, carecia de uma sinecura. Requião, prefeito de Curitiba, fez o atendimento de políticos e donos de jornais generosos. Como, porém, não perde a piada, por mais cruel que ela seja, aproximou-se daquele a quem chamava de seu único fantasma e argumentou bem no seu estilo: Quando me pediram para nomeá-lo me disseram que você estava em situação terminal. Assim, pois, você está em dívida comigo.
Segue o depoimento de Aníbal: Então eu acredito nas palavras do governador, mesmo porque, além disso, o governador é candidato natural à presidência da República. Ele tem projeção nacional. Eu costumo dizer que ele é produto de exportação. Hoje a situação do Jaime com relação à aspiração de presidente da República é muito melhor que a do Collor na ocasião...
Quem está entregando a Copel, por força das numerosas antecipações à União, é o governo estadual. Nada menos de 44,1% das ações depositadas em bolsa como garantia de empréstimos, 23% já alienados ao BNDES Participações e restam 31,1% do capital total, liberados, nas mãos do governo. Tomara que Jaime Lerner, da mesma forma que as finanças do Paraná, também ressuscite. Mas para fazê-lo é indispensável virar esse jogo de gol contra, suicida. Se tudo continuar assim, a dívida que esse governo vai deixar jamais será paga. Porque desmontar um aparato público de quase meio século, produto da poupança interna e, mais do que isso, do processo civilizatório paranaense é prodigalidade de traço doentio.
O mais grave nisso tudo é que ex-alunos de Parigot de Souza (que manteve Lerner na prefeitura da capital quando Leon Perez, que o nomeara, foi cassado) devem suas carreiras no espaço público a empresas como a Copel, e mais tarde especialmente a Codepar, e hoje fazem parte do staff que está jogando a empresa, a melhor do Brasil, no lixo da história. Não se dá magnanimidade a um carrasco que vai executar-nos. É estoicismo demais.
AFORÍSTICO
Grevistas do Judiciário vão ter descontados os dias parados, mas quando da greve dos juízes, no governo Requião, ganhos foram integrais.
BIZARRICE Alvaro Dias é tão oportunista na política quanto nas peladas com bom matador e armador de jogadas. Está com um projeto que proíbe que o Banco do Brasil, a Caixa Econômica e a Petrobras sejam privatizados. Condena também o leilão da Copel, por se tratar de empresa estratégica. O Badep, até certo ponto, também o era e ele decidiu a sua liquidação extrajudicial.
AXIOMA Há essas barbáries de corrupção em Londrina, São Paulo e, como se percebe, raramente são captadas pelos tribunais de Contas. Pergunta-se: para que organismo tão caro e reluzente e que não funciona? Para se medir a sua importância basta ver a lista de candidatos no Paraná à vaga disponível.
GLOSA O governo quase conseguiu esconder os escândalos do Banestado e agora se arrepia quando falam no desmonte da Copel e Sanepar. Luta para criar o Estado Mínimo, nanico, delírio da extrema direita neoliberal. Talvez acredite naquele ditado é dos pequenos frascos que evolam os melhores perfumes. Não sei, não, mas outro dia num elevador uma anãzinha bateu todos os recordes e era a antítese do anexim popular.
SCAPS A respeito do escândalo dos adiantamentos da Casa Civil, o governo encaminha o relatório final do processo administrativo que acentua apenas a responsabilidade dos servidores demitidos, omitindo o dado preliminar da Comissão de Sindicância (procuradores de Estado Hatsuo Fukuda e Joe Tennyson Velo e advogada Arahy Casagrande Sarrão a integravam) e que registra o fato de várias personalidades do primeiro escalão não terem feito adequada prestação de contas em saldos que não foram restituídos. Um deles se refere a Guaraci Andrade, no valor de R$ 500. Saída no dia 17 de abril de 1998 e retorno no dia 18. Despesas comprovadas nos autos no valor de R$ 191,92 com saldo a restituir de R$ 308,08. A do secretário de Estado Renato Follador é de um adiantamento de R$ 1.000, mas os comprovantes de despesa somam R$ 612,76, restando a devolver R$ 387,24. A comissão relata que o servidor ficou um dia em São Paulo, num hotel, e uma nota fiscal com o registro diárias em Campos do Jordão. Por aí se vê a complexidade e dificuldade que encontravam os servidores afastados para controlar uma demanda extrema e confusa de adiantamentos. Os pecados são veniais, mas continuam, essencialmente, pecados. Um scaps, nada mais. Isso aí perto dos feitos da Leasing e dos Jogos Mundiais da Natureza não tem importância.
FOLCLORE Os funcionários estaduais, há anos sob arrocho, gostaram da notícia de que o governo saiu do vermelho. Muitos deles, principalmente os mais humildes, que recebem até três mínimos, estavam com remorsos macbetheanos e forte sentimento de culpa de estarem quebrando o Estado.
CROMO Os milagres existem: o brasileiro foi aquele do regime militar, e o do Paraná esse agora, da reversão de expectativas. Matemática ou matemágica, em qual deles ou nos dois? Você decide!





