Uma euforia virtual
De repente o Paraná, como se tomado pela síndrome do Atlético, o time de futebol, saiu da fossa para a euforia: sua despesa com funcionários caiu para 60% e consequentemente já pode receber o certificado ISO 9000 de Dona Anita Camata; a arrecadação do ICMS teria crescido 18,41% de 98 para 99, apesar da endêmica sonegação; os investimentos teriam atingido R$ 1,275 bilhão. Quer dizer: o Paraná subverteu até o ritual da Semana Santa e obteve a ressurreição antes de haver a morte do outrora moribundo e que respirava por aparelhos.
Salpicado pelos respingos de Londrina, pois aquele dinheiro, segundo todas as investigações sugerem, veio justamente daquela negociação com a Copel em cima dos 45% de ações do Sercomtel, e mais ainda pelo clamor da aliança entre áreas da polícia e o crime organizado, o governo estadual vivia um momento de fossa, de baixo astral.
Apesar de ter ‘‘quebrado’’ o Banestado com audaciosas manobras na Leasing e Corretora (esta com o desastre dos títulos estaduais) e comprometido o patrimônio das maiores estatais, seus ativos mais relevantes, a Copel e a Sanepar, tenta sugerir que salvou o Paraná com as declarações de ontem. Não conta a que nível chegou o comprometimento especialmente da Copel que logo no início do governo foi usada para a obtenção de dinheiro do BNDES e com a epígrafe alertadora ‘‘de antecipação de recursos para fins de privatização’’.
Voltamos, ontem, à anestesia do triunfalismo, velha deformação histórica e que sempre respondeu pela ausência de espírito cívico e crítico. Em alguns momentos, apesar dos exageros, como o de Paulo Pimentel com aquela estória de fazer do Paraná o ‘‘segundo Estado do Brasil’’ (ele continua nesta posição no sul e em certos indicadores, ao ser confrontado com Santa Catarina, vai para terceiro), isso lá pelos idos de 1966, a idéia-força até que ajudou a manter a autoestima e o empenho de todos num ciclo criativo que fora aberto por Ney Braga, o mais revolucionário dos governos que tivemos.
Hoje com o alastramento da corrupção, acoplado à prodigalidade dos gestores (a farra dos R$ 80 milhões com os Jogos Mundiais da Natureza e o festim dos R$ 500 milhões com propaganda, alvo de interpelação do presidente do Sindicato dos Jornais e Revistas, jornalista Abdo Aref Kudri, até hoje não respondido) não há clima para a aceitação passiva de informes, desmentidos pelo drama mensal de um governo que não pode fechar suas contas, as mais elementares, obrigado a mendigar um acerto com o terço das férias dos funcionários.
Pergunta-se: é verdade que teriam vendido mais 20% das ações da Copel, conforme alertamento do jornalista Fábio Campana, e teria sido, porventura, este o estimulante da ‘‘garra’’ virtual ora assumida? Só falta agora a perda de comando da nossa principal empresa pública com entrega a administradores designados pela equipe econômica do governo FHC. Algo que sentimos como se o Paraná estivesse sendo invadido e por culpa dos que deveriam defendê-lo.
AFORÍSTICO
Londrina, o juízo afinal: Curitiba, o juízo final?
BIZARRICE Quando os professores, que se preparam para a sua milionésima greve, ouviram o relato sobre as finanças desconfiaram: ‘‘Vão nos enrolar de novo com promessas de um próximo reajuste, já que há dinheiro em caixa’’.
AXIOMA A mania do adiantamento marca o governo atual: é busca de grana com antecipação de receita (o que agora está proibido) tanto da Petrobrás e BNDES como de grandes contribuintes. Aí acabaram descobrindo um chuncho com gastos na rubrica de ‘‘adiantamentos’’ no Palácio Iguaçu, prática que ia de bagrinhos a cardeais da administração. Era uma rotina parecida com aquela do esquema do Requião, o das ‘‘diárias frias’’, tudo com aparência de legalidade.
GLOSA Adiantamentos de R$ 500 eram colocados à disposição de servidores da hierarquia intermediária e da cúpula: uns e outros recebiam a grana e mostravam as notas de despesas, mas não devolviam o saldo.
Se o Coritiba tivesse tal ‘‘know how’’ em seus zagueiros para adiantar-se aos atacantes não teria tomado os dois gols de anteontem do Paraná.
EPIGRAMA O roto ri do remendado: Lerner tirou sarro de Requião por causa da prática das ‘‘diárias frias’’ e acabou vendo a sua equipe entrar quase no mesmo caminho. Essas diárias frias, tanto num caso como no outro, podem acabar provocando ‘‘diarréias quentes’’.
SPRAY Um rumoroso processo de Londrina de inconformados com a venda de ações do Sercomtel vai ter desdobramentos inesperados. - Concedendo um agravo em favor de Ademar Soto Clavisso e uma dezenas de pessoas físicas e jurídicas que pretendiam impedir a empresa municipal de novas vendas e outras formas de alienação (que bom se fizessem o mesmo com a Copel), o desembargador Octávio Valeixo, além de comunicar ao juízo da 10ª Vara Cível e intimar os agravados, deteve-se numa alegação desabonadora a membros do Judiciário na petição inicial e encaminhou ofício ao presidente do TJ e ao procurador-geral de Justiça. - O advogado Ronaldo Gomes Neves colocou em epígrafe no Agravo de Instrumento o seguinte: ‘‘O Poder Judiciário do Paraná, que participou das farras de Modena e Tóquio, haverá de ser responsabilizado pela Nova Babilônia que se transformou Londrina.’’ - Diante da gravidade da afirmação, feita com enorme destaque, o julgador fez questão de repassá-la formalmente à direção do Poder Judiciário. - No mesmo tom candente, o advogado falou sobre os R$ 186 milhões da venda de 45% das ações: ‘‘Esse dinheiro possibilitou a que uma verdadeira quadrilha desviasse criminosamente essa quantia praticamente inteira, no que é objeto, hoje, de dezenas de procedimentos investigatórios.’’ - Mais adiante, a referência ao Poder Judiciário na afirmação de que vários dos seus membros ‘‘foram agraciados com viagens a Modena (Itália) e Tóquio (Japão), gerando razoáveis suspeitas aos jurisdicionados.’’ - Esse episódio dá uma idéia de outros desdobramentos, além daqueles que interessam à política, dos problemas de Londrina que vão muito além da rebatida do prefeito Antonio Belinati de que teria sofrido extorsão por parte de vereadores. Pelo jeito, essa novela vai mais longe do que a ‘‘Terra Nostra’’ e estaria, a despeito do tempo decorrido, ainda em seu prólogo.
FOLCLORE Londrina, séria na resistência; Curitiba, forte na complascência.
CROMO Amante louco e ingênuo é o que diz pretende jogar bolinha de gude com os olhos da amada.

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