Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Contra o poder descendente
Uma das lições magistrais de Norberto Bobbio sobre a democracia é a que recomenda o emprego do poder ascendente, aquele que vem de baixo, para deter ou neutralizar o poder descendente, aquele que vem do alto da pirâmide para a sua base. Empenhado, missionariamente, em somar o liberalismo que se rege pela liberdade ao socialismo que busca a igualdade coloca os dois pólos do espectro político, direita e esquerda, na procura de uma sincronia. Socialismo não é oposto ao liberalismo, como fascistas ditos de esquerda proclamam, e sim a essa deformação tumoral denominada neoliberalismo, o laissez faire da sociedade agrária de Quesnay, fisiocrática, transposto para a pós-industrial.
O horror ao liberalismo era uma constante, aqui no Brasil, no discurso radical dos integralistas. Plínio Salgado e Mairynk Veiga não esqueciam do tema em quase todas as intervenções. Diziam-se ainda contra a burguesia, alvo também do catecismo primário da esquerda, incapaz de decodificar o mais singelo texto de Karl Marx. Aliás, no Manifesto Comunista há um relato em que a previsão de Marx em torno da concentração de capitais tem alguns pontos de contato com a badalada globalização e a supressão dos valores nacionais.
Numa sociedade com raízes muito fortes no patriarcado e no mundo colonial, já evidente na demora para o advento da abolição dos escravos e visível no seu reacionarismo interno (não apenas no patronato, resistente à reforma agrária, mas no próprio MST, com a sua utopia retrô), não é fácil chegar a formas partilhadas de poder.
Aqui no Paraná, mesmo antes das vitórias de oposição, o poder da Arena e do PDS já se referia à participação. Praticava-a, porém, no consulado conveniente. Richa partiu para a ofensiva e foi o que mais avançou nesse particular, ao dar um novo conteúdo ao Pram da situação anterior, e que mereceu o timbre do Banco Mundial, pela prática da consulta popular na escolha das obras financiadas. Mas o próprio governador teve que dar um necessário recuo face às distorções do assembleísmo basista, agressivo e inócuo.
Modernamente avançamos bastante, não o suficiente até porque a exigência de canais institucionais para essa participação é castradora. Já existem ONGs, movimentos cívicos e culturais (ambientalismo, feminismo, consumerismo etc) desempenhando razoavelmente esse papel. O pior é que dos movimentos informais, o mais articulado é o do crime organizado e que chegou ao poder, como se vê no Rio e aqui no Paraná. É a deturpação radical do movimento ascendente.
BIZARRICE
Assembléia Legislativa, que vota historicamente com o governo, é a laranjice extrema. A criação das cinco CPIs é apenas uma redundância
GLOSA Apesar de alguns quadros excelentes (Ficinski, Salomão, Dely, Beltrão entre outros), o desempenho do governo Lerner é o mais medíocre da nossa história desde os anos 50. Nunca se viu tanta ausência de pegada, tanto desprezo da União e tanta falta de inteligência e criatividade.
AXIOMA Se a Patrícia Pilar vai ser a Virgem Maria em Nova Jerusalém, o Caco, Antonio Carlos Lacerda, jornalista, sugere que o Ciro Gomes, companheiro atual, que vai estar por lá, faça o papel de José, o carpinteiro do partidão com filtro.
Assegura-se, porém, que os efeitos do novo perfil da economia aparecerão dentro de cinco a dez anos. Como dizia Lord Keynes, que entendia do riscado, a longo prazo todos estaremos mais ou menos mortos. Os primeiros da fila serão as empresas regionais, como já está ocorrendo em alta escala.
SERCOMTEL Se não bastassem as razões de fundo moral que obrigam à recriação da CPI da Sercomtel-Copel-Banco FonteCindam, há um depoimento do controvertido Eduardo Alonso de Oliveira, feito em Curitiba (11 de novembro de 1999) na Promotoria de Investigações Criminais, com pedido de proteção da Lei Federal 9.807/99 em que afirma que antes da venda das ações da Sercomtel não havia na Comurb irregularidades como as que aconteceram depois. Por que será o temor reverencial por essa investigação, ainda mais agora quando as apurações de Londrina botam as vísceras desse corpo necrosado a céu aberto?
SPRAY Uma das mais contundentes armas da campanha eleitoral em Curitiba e que se bem explorada pode abalar o favoritismo do prefeito Cassio Taniguchi será a questão do IPTU de 2001 que, segundo especialistas, será na base de 3% do valor venal. Haja venalidade. - Apesar de as pesquisas indicarem que os temas locais serão os predominantes (o IPTU é carcateristicamente um deles), a questão do vínculo da polícia com o crime organizado, especialmente o narcotráfico, mais o desgaste do governo na repressão a movimentos sociais e seu imobilismo para resolver a crise financeira que ele próprio criou vão ser decisivos. - Há algo, porém, que favorece Cassio: o vigor de sua administração, inovações como a Linhão do Emprego (boa parte dos empregos é na informalidade, pois de outro jeito se inviabiliza), ampliação da estrutura social (educação, saúde, lazer) e ousadia como o Plano 1000, de pavimentação. - Há uma dúvida, apesar da imagem ainda forte de Lerner: o governador ajuda ou atrapalha e contamina? Mais ajuda, na verdade, mas não está com aquela bola toda de quando se elegeu em 94.
FOLCLORE Se o governo demorar o mesmo tempo que levou para tirar os sem-terra do Centro Cívico na captura do delegado Noronha, vai ser uma novela bem mais longa do que a reforma do seu secretariado, no qual os sectários detêm as preferências. O habeas-corpus de Noronha saiu antes do Corpus Christi.
CROMO Ouço a pulsação do solo como se equipado com estetoscópio e invejo a acuidade dos índios que pressentiam as aproximações a pé e a cavalo.
AFORÍSTICO Há maior prova de incompetência e oportunismo do que o governo não ter um só senador aliado na bancada paranaense? Isso nunca havia ocorrido antes. Para a democracia até que é bom e compensa as formas de tutela que ainda persistem tanto na comunicação social, como na relação com o Legislativo estadual.





