Amenidade necessária
De repente, como quem busca um oásis no deserto, ainda que não passe de miragem, temos necessidade de sair um pouco dessa nojeira grudenta do dia-a-dia, que é traduzida pelo exercício da política no Brasil. Você olha para os lados e observa o povo humilde, que se desespera quando não paga uma conta com um temor reverencial de perder o crédito no Seproc, enquanto os ricaços estouram suas empresas e nada lhes acontece, e aumenta o ceticismo porque essa gente é conformista, zelosa e incapaz de atos de corrupção.
Essa fé, que não é monopólio dos pentecostais, chega a comover, mas o senso de obediência revolta. Pode ser que haja aí algo dos orientais, como os vietnamitas, que lutaram anos e anos na certeza de que um dia libertariam o país e, enquanto isso não vinha, perseveravam. Aí o ceticismo volta a impor-se e já se transfigurando em cinismo: teria valido a pena essa autonomia, se o quadro de estagnação vietnamita persiste? Sim, mas como esquecer o general Giap, esse moderno Davi que venceu o Golias ocidental, primeiro a França, depois os Estados Unidos da América, que botou a correr com todo o seu poderio, exemplo para os colonizados como nós? Fernando Pessoa diz que tudo vale a pena quando a alma não é pequena.
Estou aqui no meio do Calçadão de Curitiba, outra vez mexido e maquiado pelo prefeito, a assistir ao desfile dos pelotiqueiros. Acrobatas dando saltos mortais em aros cheios de obstáculos pontiagudos, o repetitivo artista de rua que, com um objeto que simula um miado na boca, finge torturar um gato de setenta folegos num saco de aniagem (mais fôlegos temos nós, que o vemos monocórdio como um discurso do Requião ou do Alvaro Dias), o conjunto de músicas andinas, muito bom, que precisa, porém, mudar o repertório, apesar de ter Villa-Lobos, Carlos Gomes e até o Brahms; o trompetista, o pandeirista, o ceguinho da sanfona, fissurado em música religiosa, a cambista de loteria, com sua voz forte, anunciando a cobra para a extração da federal.
Ainda há pregões, posto que falte aquele afiador de facas e tesouras que extraia um som fino do rebolo, que transformava em fundo para cantar ‘‘Violetas de Espanha’’. E também, é claro, a protofonia, referida por Dalton Trevisan, das colonas de Santa Felicidade, nos anos 50, entoando o seu recado –‘‘ói o pepino, o pimentão, a abóbora!’’ – no ritmo do ranger da carroça nas pedras irregulares das ruas e, mais adiante, bruscamente mudado, como num corte epistemológico, pelo brado, dirigido ao cavalo, ao estalar do chicote, ‘‘Uia, baio!’’
BIZARRICE
Orlando Carlini, iratiense curitibanizado, sobre Curitiba: ‘‘É tão medíocre que aqui nem inimizade prospera!’’
AXIOMA O governo paranaense, para recuperar-se ante a opinião pública, deveria no mínimo renascer. Por incrível que pareça, as oportunidades sempre aparecem como no caso da CPI das Drogas, que era algo indesejado pelo sistema, e que, se for aproveitado com inteligência e um mínimo de seriedade, rende frutos.
GLOSA O empresário Jonel Chede, presidente da Associação Comercial do Paraná, costuma fazer uma ironia com a globalização, dizendo que quando casou o fogão de sua casa era Marumby, bem como parte das instalações sanitárias (da Fundição Mueller), a geladeira era Prosdócimo, o mobiliário da Cimo e assim por diante.
Agora ele pode incluir o Hotel Universo, que era da família na Praça Osório e que passou à sua administração, e que está arrendado.
EPIGRAMA Se o governador anunciar que o grupo alemão Krupp vai se instalar no Paraná, a oposição vai dizer que o que vem aí para valer é um surto de crupe, difteria, a doença que teria derrrubado o Juanito da novela ‘‘Terra Nostra’’.
REFLEXÃO Depois das expectativas que foram criadas em função da CPI das Drogas, não vai ser fácil devolver as esperanças ao público diante do pequeno saldo positivo das investigações. Até agora nenhum bacana de primeiro time apareceu nas diligências parlamentares e policiais.
TROCADILHO Aí o sujeito falava que a Patrícia Pilar ia interpretar em Nova Jerusalém, megaespetáculo da Paixão de Cristo, o papel de Nossa Senhora, enquanto o marido atual, Ciro Gomes, o presidenciável, ficaria na ‘‘fila do gargarejo’’. A reação da maioria é um redundante ‘‘Nossa Senhora!’’
REPETECO No governo Paulo Pimentel, o advogado do delegado Noronha, Luis Alberto Machado, então membro do Ministério Público, ocupou o posto que cabia recentemente ao seu cliente e montou um aparato terrível para cercar a Delegacia de Furtos de Veículos, dirigida pelo delegado Dorval Simões, com tropas da PM, cobertura de tevê, prisão do chefe e auxiliares e passado algum tempo, meses apenas, o abominado voltou ao posto e recebeu os atrasados.
Detalhe: Machado, um acusador por função, perdeu a batalha, talvez pelo mesmo risco que pode agora beneficiá-lo, nas falhas e descuidos processuais.
PENDÊNCIAS Saímos da crise do pedágio com as agressões aos caminhoneiros. E depois da dos ‘‘judiciários’’, com novos martírios (violência e prisões) veio a dos professores. Dá para perceber claramente que tais questões ficam incubadas e não se resolvem. Retornam, lá na frente, com toda a força, especialmente na campanha eleitoral, outra mesmice insuportável pelo que tem de medíocre.
FOLCLORE Quando o jornalista José Maschio, da ‘‘Folha de S.Paulo’’, conseguiu entrevistar o delegado, então foragido, João Ricardo Képes de Noronha, e provavelmente na Grande Curitiba, houve um espanto igual ao das descobertas da CPI das Drogas, roubo e desmanche de carros. Como antes, só as instituições formais não sabiam por onde andava o delegado tão obstinadamente procurado.
CROMO Olhei nos teus olhos tão de perto e não me vi neles refletido.
AFORÍSTICO Que pobreza franciscana, não a das sandálias humildes e do alimento frugal, essa das manifestações do PMDB: o mesmo grito, a mesma ausência de conteúdo. Vendo esse tipo de oposição, até o governo parece simpático.

mockup