Num governo que viaja na maionese como rotina, estar no mundo ‘‘virtual’’ é condição existencial, impositiva. Quem pensa que esse ecossistema não rende se engana: deu R$ 106 milhões o ano passado, a maior parte investida nesse campo.
Pois agora até a Secretaria de Segurança, que ainda não explicou o atentado contra o seu titular, deu de se engajar no ‘‘faz de conta’’ das operações simuladas. Uma delas foi no dia em que a família do estudante Rafael Zanella, no legítimo exercício da cidadania, foi protestar contra a versão oficial do assassinato chapa branca. Botaram perfilados com suas roupas épicas de ninja dezenas de integrantes do grupo ‘‘Tigre’’ para uma operação neutralizadora, dissuasória, como se diz na linguagem logística. Ora, o mau uso desse símbolo e numa causa tão precária, como a de intimidar os que tinham o justo direito da indignação e da revolta, prova que falta ‘‘doutrina’’ dentro da Secretaria de Segurança, visão deontológica (ética) do processo.
No governo que finge governar, o que teremos, em breve, é exatamente a reação do contribuinte que também ‘‘fingirᒒ na hora dos compromissos tributários. Por sinal que está no ‘‘disparo’’ uma anistia fiscal que complementa o quadro de farsa em que vivemos, no qual aquele que pagou direitinho os seus impostos se achará um rematado imbecil que espatifa sorvete na testa. É o círculo perfeito da bufoneria como se não um sábio, mas o bobo da corte governasse a todos nós, enquanto, entre as ágeis cambalhotas, faz girar os seus guizos e balançar a barriga, tão falsa quanto a austeridade do poder.
O pior, no entanto, na área de segurança, ocorreu anteontem: dois policiais, a pedido da reportagem de um jornal, fizeram assaltos, simulados é claro, para mostrar a obviedade de que as estações-tubo são vulneráveis. Imaginem se um cardíaco assistisse à cena e morresse e não de mentirinha como os feitos desse governo. Quem responderia pelo folguedo bem intencionado?
Uma polícia que já tem fatores miméticos em demasia (o profissional e colaboradores delinquentes em operativa promiscuidade, como se viu na Delegacia de Furtos de Veículos e agora nos episódios da morte do Zanella e no fato de que uma das assaltantes do posto do Banestado na Assembléia também era ‘‘cooperadora’’) ainda se presta a desfrutes dessa ordem que no caso apenas dá enfase à sua própria incapacidade e fazendo, indiretamente, um ‘‘comercial’’ para que mais gente se habilite a assaltar estações-tubo. Um convite à paranóia geral.
E ainda para completar o cenário, é um dos ícones do lernerismo, a estação-tubo que o presidente de Portugal, Mário Soares, ao vê-la pensou que ela própria o levaria a um outro lugar como uma das naves de Flash Gordon. Vargas Llosa gostou de Curitiba por causa disso: aqui o ‘‘realismo fantástico’’ está diante de todos vertido no factual.
BIZARRICESe polícia se finge de ladrão, se ladrão se apresenta como polícia, se vigarista se faz passar como vigário, se oposição age como governo e governo como oposição, se empresário que fala pela livre iniciativa não larga a teta do governo, por que cargas d’água ainda fazem tanto barulho na madrugada e não me permitem sonhar que vivo numa sociedade normal?
SPRAYAmanhã, uma sessão-chave na Câmara Municipal de Curitiba, com o início da votação da LDO, Lei de Diretrizes Orçamentárias, para a qual há 134 emendas, 86 delas do Samek.- Uma delas obriga a prefeitura, na entrega da lei orçamentária de 98, a apresentar os balancetes mensais que revelem pelo menos a situação do primeiro semestre. O deste ano permanece mistério.- Já o vereador Gustavo Fruet faz um comentário de natureza jurídica e doutrinária sobre a LDO, dizendo que ela permite elevado grau de liberdade ao Executivo, sem oferecer mecanismos de verificação de impactos sobre o orçamento das decisões autorizadas.- Pretende-se com as emendas, diz Fruet, recuperar o conceito de Norberto Bobbio de conduzir a ‘atividade pública em público’, rompendo com uma tendência à não-publicidade, mantendo-se sigilo sobre certos assuntos.- O mais grave é que o Legislativo, tanto o estadual quanto o municipal, ainda não percebeu que o fundamento de sua atividade está na elaboração e fiscalização da execução do orçamento. No entanto se desliga disso e se perde no proselitismo de traço assistencial.- Ecologistas ainda não se manifestaram sobre o gasoduto, embora este, por onde passa, mexa com o ambiente como uma estrada.- Hoje a Havanosul faz um coquetel sofisticado às 19 horas no Pollo Pub Bar do Bourbon Hotel para lançar seus produtos, e uma expert em charutos cubanos, Élia Domingues Ferrer, confeccionará charutos a serem apreciados pelos convidados.- Osmar Dias mandou ofício a Lerner mostrando que, segundo informes do Banco Central, até agora não chegaram lá os documentos para a reanálise das operações solicitados à pasta da fazenda estadual. É o fim da picada esse exercício de incompetência. Alguém ou todos simultaneamente estão mentindo. Uma patuscada, como diz Collor.-
FOLCLOREJosé Maria Alkmin pergunta a um correligionário como está passando o seu pai e este responde que faleceu há tempos. Alkmin retruca: ‘‘Morreu pra você, filho ingrato, porque para mim ele vive em nosso coração.’’ E diz a frase pondo a mão no coração e com a máxima seriedade. Aliás, em Minas como em outras partes do país não são raros os defuntos que ainda votam.
AFORÍSTICOIntolerável a figura do ditador gordo e que envelhece no poder: é impossível nele desvendar algum sinal de heroísmo ou dignidade.

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