Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
E o contraponto?
Não há como negar o feito do repórter José Maschio, da Folha de S.Paulo, com a entrevista com o delegado foragido, o Képes de Noronha. Fui um dos privilegiados a saber, em plena Boca Maldita, anteontem, por intermédio do próprio jornalista, desse furo e, pela maneira como relatou o encontro, fiz a sugestão para que botasse um contraponto na matéria para evitar o risco de que pudesse acabar na exaltação do anti-herói.
Não houve contraponto, faltou contraste e a versão do entrevistado, escudada no vitimalismo, é de tal ordem que assume contornos conspiratórios atingindo justamente um oficial PM, o major Neves, da P-2, como um suposto interessado em sua morte, quando se trata de alguém que conhece tanto quanto o delegado a anatomia do crime organizado aqui no Paraná.
O grave é o seguinte: a reportagem foi feita na Grande Curitiba a indicação jamais foi feita pelo repórter, mas inferida por todos nós da área e vê-se aí um indicador de que a polícia teme a prisão de Noronha pelo que pode falar, dado o conhecimento que tem das entranhas do sistema, e pelo que também pode fazer, já que se trata de uma pessoa determinada e corajosa, capaz, portanto, de inibir os eventuais adversários. Como a maioria é silenciosa, aí também conformista, não se dispõe a entrar em choque com alguém que detém liderança na corporação ao ponto de ser eleito presidente da Associação da categoria.
Jornalismo exige contraste. Espera-se que nas sequências das matérias, que se seguirão à bem elaborada entrevista, haja o exercício do contraditório. Pode-se fazer isso sem a deseducação do debate entre os senadores Antonio Carlos Magalhães e Jader Barbalho, a desmoralização levada à sublimidade.
AFORÍSTICO
O governo não sabia de nada sobre o crime organizado e também nada sabe sobre o Noronha. A omissão neste governo é missionária.
LIÇÃO Radicais do MST não queriam o julgamento favorável a José Rainha para justificar mais uma insanidade. É claro que muitos dos que prometeram uma retaliação, se o júri o condenasse, o faziam com a intenção de beneficiar o companheiro, ainda que com o emprego da intimidação.
Rainha é de uma das alas mais equilibradas do MST, num pólo bem distanciado do aiatolá Stédile que faz um esforço incomum para restabelecer a aplicação da Lei de Segurança Nacional, o que, no fundo, ninguém deseja. Sua área de atuação, o Pontal do Paranapanema, é a de terras devolutas, velho corsarismo que o Paraná conhece muito bem e do qual até hoje padece, apesar de esgotadas praticamente as nossas fronteiras agrícolas.
Lado pedagógico: confiança, apesar de tudo, na Justiça; relevância do júri para que não se trate com apatia as invasões, como ocorreu no Paraná, como um sinal dissuasório para os radicalismos. O MST tinha apoio da opinião pública e que caiu no Ibope por causa dos abusos, em níveis desalentadores.
Quanto ao júri, pela matéria de prova (factual, testemunhal), não havia como condenar o líder, apesar da contagem apertada da decisão, o que também reforça o sentido das observações anteriores. Os escravistas, e nós os temos muitos, obviamente não gostaram. Também não deixam de aprender algo com o ocorrido.
BIZARRICE Se os juízes aqui do Paraná já fizeram greve e não foram, sequer, advertidos e se recentemente tinham outra no disparo como podem julgar agora, sem alegar suspeição, a parede dos funcionários, alegando, ainda por cima, inconstitucionalidade?
AXIOMA O PDT de Curitiba está diante de um problema: Oswaldo Buskey, que vive buscando, lançou sua candidatura a prefeito para aquecer a vida interna do partido e tirar a impressão de que é uma estrutura fechada, caudilhesca. Eduardo Requião, para provar que nada tem do estilo do senador, acha que o bate-chapa é saudável.
GLOSA Quando prenderem o Noronha, o governador, enfim, toma posse?
EPIGRAMA Depois das cenas de anteontem entre os senadores ACM e Barbalho dava para modificar a arquitetura do edifício da Câmara Alta e atribuir-lhe uma forma de vaso sanitário.
SPRAY O despreparo do deputado Valdir Rossoni para a ação parlamentar ficou evidenciado ao dizer que o pessoal da Pastoral da Terra deveria se eleger deputado para pretender fiscalizar a CPI das Drogas.- Os parlamentares da base do governo não têm moral para criticar o movimento social e deter o monopólio da representação popular. Basta lembrar o escândalo da reversão no caso da CPI do Sercomtel-Copel-Banco FonteCindam.- Quanto ao direito de a sociedade organizada vigiar os poderes de Estado é uma exigência da democracia moderna, poliárquica, com vários centros decisórios.- A Constituição Federal, ao contrário da estadual, firma o princípio da democracia direta. Nunca o Brasil precisou tanto dela como na lixeira em que a classe política e os gestores públicos, lobistas no meio, transformaram este país.- Ontem foi a vez de os judiciários levarem borrachadas, hoje será a dos professores. Autoridade, do jeito que as coisas andam, terá dificuldade em andar solta pela rua. Pelo menos da vaia não escapa.- Da polícia, que só dá notícia ruim (entrevista do Noronha foi uma delas), finalmente uma boa: o delegado Silvan Rodnei Pereira, de Umuarama, inaugura hoje, às 17h30, as reformas da delegacia (7ª SDP).-
FOLCLORE No passado, primeiras décadas do século, os movimentos operários eram chamados de maximalistas. Vejam como as coisas se mantém: para salários minimalistas só se pode imaginar ações maximalistas.
Como dizia o Arapuã sobre o salário mínimo: os empregados acham pouco, os patrões acham muito e o governo, como sempre, acha graça.
CROMO No elevador o ascensorista empertigado como se fosse um astronauta não se entedia no comando da nave mais perigosa.





