Luiz Geraldo Mazza




A burrice com método
Está aí: bastou uma prensa de Álvaro Dias (a sociedade agradece) para que o governo deixasse a catatonia em que se encontrava e tomasse iniciativas no campo da ação política. Neutralizando a manobra oposicionista, criou cinco CPIs ao mesmo tempo, incluindo a das drogas, para evitar a perda de controle sobre a instituição. E passou, de imediato, a tirar sarro da oposição, que foi dormir acreditando despertar na glória, quando, no fim da noite, acabou surpreendida com a manobra oficial neutralizando a CPI e criando outras.
Tivemos cenas, ontem à tarde, de forte significado semiológico, já que o líder oposicionista Edgar Bueno distribuía cítricos para seus colegas do outro lado, sugerindo com sutileza que não passavam de ‘‘laranjas’’. Uma delas foi oferecida ao líder do governo, Valdir Rossoni, que puxou de imediato um canivete (alguns acharam que poderia ser um revide e ficaram à beira da taquicardia) e passou a afastar a casca do fruto para saboreá-lo com o prazer, quase luxúria, dos vencedores.
A despeito de toda gozação – e a política até que precisa um pouco disso –, o balanço não é favorável ao governo, que acionou um dispositivo de obstrução parlamentar desnecessário para fugir a discussões, o que apenas revelou uma espécie de paranóia, injustificável para quem desfruta de maioria confortável. Em consequência, houve desgaste interno e junto à opinião pública. Ficou patente que o governo fez os esforços mais absurdos para impedir a CPI das Drogas quando, pelo traumatismo produzido, deveria ser o maior interessado em constituí-la, tanto aí quanto nos casos do pedágio e da operação Sercomtel- Copel-Banco FonteCindam, por maiores constrangimentos que esse acontecimento gerasse até mesmo no interesse dos deputados acusados de levar propina para recuar numa CPI já instalada.
De qualquer forma, o pulso do governo ainda bate. Mostrou vitalidade. Que a empregue, daqui para a frente, em sua recuperação, pela qual todos torcem, menos a oposição, o que seria generosidade suspeita.



AFORÍSTICO
Os políticos brincavam ontem se chamando de ‘‘laranja’’. Mas, na verdade, ‘‘laranja’’ mesmo somos nós que neles burramente votamos.

BIZARRICE O placar está dois a um para Lerner diante de Álvaro Dias: este bateu nos professores, um a zero, aí aquele surrou os caminhoneiros, um a um, e depois os ‘‘judiciários’’, dois a um. Dentro em breve, sai o terceiro com a greve dos professores. Álvaro Dias sonha em ganhar para empatar o jogo, mesmo que fique de cinco a um.
A gracinha é do Rubinho Ferreira, que não sofre com a desgraça alheia.
AXIOMA Na campanha eleitoral pode haver relativa melhora quanto à densidade do material empregado: menos lama e muito pó. (E mais: muita eme)
GLOSA Paranismo, no entender de muita gente, é exaltar tudo o que nos diga respeito. Por exemplo: cultuar triunfalismo com o fato de termos uma das maiores concentrações de desmanches de carros do País.
EPIGRAMA Se o governo não está conservando os recursos da ParanaPrevidência, conforme os representantes dos servidores Cesar Santos (Sindiprol) e Norma Ferrari (Sindi-Seab), no Conselho de Administração, não dá para confiar que venha entesourar os tais ‘‘royalties’’ de Itaipu para sua capitalização. Desde julho do ano passado, conforme os denunciantes, o governo não repassa a grana para o fundo.
É um caso de caspitalização, palavra originária do cáspita da novela.
OVULAR Quando o secretário José Tavares, da Segurança, justificando o pau em cima dos caminhoneiros, usou a metáfora ovular (‘‘não se faz omelete sem quebrar ovos), abriu a temporada para novas incursões e ontem os deputados da maioria gozavam os da minoria, ‘‘por terem contado com o ovo no fim da galinha’’ com antecedência demais. Eles serão ‘‘ovocionados’’ nas eleições.
SPRAY Saíram cinco CPIs, mas não as que a oposição desejava. A dos ‘‘Jogos Mundiais da Natureza’’, com dispêndios inexplicados de R$ 85 milhões, emissão sistemática de notas fiscais frias, seria uma delas. - Agora que arrumaram dinheiro do Japão (R$ 30 milhões) voltam a falar na promoção, cujo objetivo mais abrangente, o de lançar os fundamentos de uma nova estrutura turístico-recreativa na Costa Oeste, não foi atingido, sem falar nos ‘‘canos’’ dados na hotelaria. - Oposição entra com ação popular contra o pedágio. Matemágica do governo tenta sugerir que as tarifas daqui são 24% mais baratas. Na cabala, esse número 24 tem magia diferente da do jogo do bicho. - A TV Globo começou a dar matéria de fôlego sobre os eventos de Londrina. Quem primeiro tocou no assunto na cidade foi a rádio CBN, também do sistema global, e que o colocou em rede nacional. - Anteontem, o prefeito Antonio Belinati surpreendeu os seus adversários ao prestar o depoimento quando todos apostavam na moratória do seu estado de saúde e com insinuação maliciosa. - Especulava-se na área política que existe documentação em vídeo das relações do traficante Hissan Hussein com o governo estadual. Aliás, Hussein constaria da lista oficial de financiamento à campanha. - O tempo é de listas: a de beneficiados com o caso de Londrina, a de políticos inadimplentes com o Banestado. Schindler, não o elevador, faz escola. Biblicamente muitos serão os chamados, poucos os escolhidos. - Terror eletrônico: obagual, jornalista João Meassi, já muda o nome pra Meassa. É que recebeu ameaças pela Internet e a atribui ao governo ou a algum puxa-saco, o que para ele é a mesma coisa. - Como o autor do e-mail (hotmail, conta fechada) sumiu, pediu a intervenção do delegado Mauro Marcelo de Lima e Silva, da delegacia de crimes na Internet. Que existe em São Paulo, já que aqui ainda estamos no ‘‘olhômetro’’, o que explica as omissões apuradas pela CPI.
FOLCLORE É de absoluto mau gosto falar no brilho do governo ou da oposição.
CROMO O joalheiro plagia a natureza e tenta inutilmente reproduzir a teia de aranha com orvalho congelado das manhãs de junho.

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