Luiz Geraldo Mazza
O segundo pólo automotivo
Dentre os mais recentes orgulhos paranaenses está o de sediar o segundo pólo automotivo do país. A afirmativa é contestada por analistas do setor, mas como vivemos numa autarquia, que se alimenta das notícias oficiais, vamos dá-la como boa.
Mas a Grande Curitiba não é a segundona apenas porque tudo teria começado com
a Volvo, lá na Cidade Industrial na produção de ônibus e caminhões pesados. Muito antes de tudo isso já tínhamos aqui um núcleo dos mais destacados na área, ainda que no campo da informalidade com os desmanches que a CPI das Drogas vem demonstrando estarem ligados ao narcotráfico. O estouro da unidade pertencente ao Mandeli, que apareceu em rede nacional na tevê, é um claríssimo indicador de que podemos chegar até ao primeiro lugar nessas ousadias em termos relativos.
A revista Veja, de 23 de fevereiro, publicou estudo curioso sobre o tamanho da Roubobrás, termo sacramentado por Joelmir Beting, jornalista fissurado nas questões da indústria automotiva, pois também esse lado marginal revela o magnetismo da atividade. Nesse texto da revista nacional prova-se que a Roubobrás só perde para a Volkswagen em número de veículos vendidos em 1999 e que alcançou a cifra de 368.426. A Roubobrás aparece em segundo com 350.000 veículos. O faturamento da Roubobrás é baixo porque seus preços, devido ao baixo custo de produção, não chegam a 10% dos praticados nas montadoras. Um carro popular que na montadora não sai por menos de R$ 15 mil é vendido na Roubobrás por R$ 1.200. Um motor 1.0 sai a R$ 7.000 na primeira e a R$ 500 na outra, o câmbio de R$ 2.000 por R$ 500.
Empresários do setor de autopeças, grandes prejudicados com as ações dos desmanches e outras formas de comércio clandestino, calculam que a fatia de mercado dos delinquentes chega a 20% e com aquelas vantagens comparativas da sonegação fiscal generalizada, ainda mais, como no caso paranaense, com uma visível cobertura das autoridades. Não é possível crer que as autoridades policiais, especialmente, ignorassem o que estava acontecendo. Aliás essa atividade, ainda que em escala menor do que a de hoje, precede a implantação da indústria automotiva no Paraná. A formal recebeu regalias do governo, até participação societária; a informal contou com a omissão.
AFORÍSTICO
É a vez do sindicato dos professores deixar o aviso clássico na porta: Por favor entre sem bater!
POLÊMICA O Banco do Estado do Paraná quebrou no processo de corrupção e quando a polícia e o Ministério Público chegavam perto do principal ladrão, o governador o nomeou Secretário de Estado para lhe dar foro privilegiado e lhe ajudar escapar das malhas da Justiça de primeiro grau. Trecho do discurso de Requião à carta-resposta de Lerner no Senado.
BIZARRICE A oposição de hoje, no Legislativo, não vale sequer a metade da exercida por Luis Alberto Martins de Oliveira e Airton Cordeiro no governo de José Richa. Ney Braga, em 1961, governava com minoria, impensável com Lerner.
Não se trata de idealização do passado, mas do torpor do presente.
AXIOMA Governo está pondo a mão no dinheiro das contribuições dos servidores para o ParanaPrevidência e misturando-o no bolo geral. Essa conta deveria estar sob bloqueio. Já há uma dívida de R$ 10 milhões, acumulada desde junho do ano passado. Chama-se a esse tipo de golpe apropriação indébita, igual ao das empresas em relação ao FGTS e ao INSS.
GLOSA Baixou o pau nos caminhoneiros, agora nos servidores do Judiciário. Dentro em pouco o governo Lerner recontrata os ex-agentes do Doi-Codi, SNI, Cenimar e congêneres. Desses, muitos estão babando para entrar em campo.
SPRAY Infelizmente as nossas previsões se confirmaram: o governo estadual entrou para valer no ciclo repressivo. Sai do marasmo, do imobilismo para a pancadaria. - Ontem foi com os judiciários que ganharam, há anos, uma reposição de 53,06% acatada na instância superior, cuja responsabilidade, que é do Executivo, este a transfere ao Judiciário, sob o batido fundamento de que não há dinheiro. - Dá para imaginar o que ocorrerá nas próximas refregas entre a polícia e professores ou sem-terra. A eleição vai para o saco, tal qual se deu com Álvaro Dias e nesse aspecto é um caso de justiça poética, já que Lerner explorou à exaustão o massacre do Centro Cívico na campanha que o levou, pela primeira vez, ao Palácio Iguaçu. - Lubomir Ficinski, secretário de Desenvolvimento Urbano, depois de repouso prolongado em função de cirurgia, retornou ontem ao posto. - Por falar nisso o ParanaCidade obteve mais um feito: aumentou em 40% a adesão dos prefeitos à chamada abertura de contas, um sistema praticamente de orçamento aberto. Em certo aspecto menos politizado, mas bem mais eficaz do que o tal participativo do PT. Este, aliás, lembra em parte uma consulta que Lerner fazia, quando prefeito, sobre necessidades de cada bairro no carnê do IPTU. Sem calor assembleísta, mas digital como o é o mundo moderno. - Segundo uma versão oficial, o que já é suspeita de origem, a tarifa do pedágio representa 9,5% do frete. Antes era 6,2%. Heinz Herwig, o secretário de Transportes, achava que ela não ultrapassaria os 5%. Deu quase, se é que o cálculo está correto, o dobro. - Se a alíquota de 13,64% do ICMS não fosse retirada, a coisa explodiria. As tatuagens do governo para a campanha eleitoral: a ligação com o crime organizado, a quebra do Estado, o pedágio. - Cássio Taniguchi já sentiu nas pesquisas o quanto está contaminado e isso se repetirá em outros lugares. Não em Londrina, pois ali a lama é própria e também alcança o governo em suas alianças políticas.
FOLCLORE Entre esse governo de máscara (que bate em caminhoneiro e agora em servidor público) e a Tiazinha, que também a usa, com quem você fica?
CROMO A paina flutua animada pelo vento: ora aparenta a descida suave, ora sobe. Quem a descobre e contempla monta quebra-cabeças nas nuvens.





