Um trauma pedagógico
Tudo bem. A denúncia de Requião, com os exageros de sempre, sobre a linha comportamental dos meios de comunicação do Paraná, foi repetida três vezes.
Pode chegar a sete, que é conta de mentiroso, mas três para o temperamento do senador é pouco.
Se a mídia jamais soube esconder, mesmo empregando recursos sofisticados de dissimulação, que assim é esse triste ritual, o público nunca o ignorou. E tem sido condicionado a aceitar essa relação pactual, agora felizmente sob risco de profunda revisão, um bem para todos.
Costuma-se brincar com o surgimento do primeiro jornal paranaense lá pelos idos de 1854, meses depois da autonomia. Chamava-se ‘‘O Dezenove de Dezembro’’ para acentuar a mística da nova unidade federativa e surgia precisamente no 1º de abril, dia da mentira e ‘‘chapa branca’’ porque fazia também as vezes de Diário Oficial. Dir-se-ia estarmos sob um mal congênito.
Curiosamente foi sob o melhor governo que o Paraná teve nesses últimos cinquenta anos, com Ney Braga, que se consolidou essa relação. Basta lembrar que para apoiar o governo Munhoz da Rocha, eleito em 1950, o grupo que o apoiava lançou dois jornais para dar-lhe cobertura: ‘‘O Estado do Paranᒒ dirigido por parentes, entre os quais o cunhado Fernando Camargo, e o ‘‘Diário do Paranᒒ, da rede associada e tocado por seu correligionário Adherbal Stresser. Foi o último tempo de contraste aberto, já que Lupion detinha dois jornais, ‘‘Gazeta do Povo’’, do qual detinha apreciável percentagem de ações, e ‘‘O Dia’’ bem como a Rádio Guairacá. Havia, então, conflito, embora ficasse claro que a administração financiaria os veículos favoráveis e, se houvesse, os restos do banquete para os da oposição por publicarem notícias oficiais.
A sociedade paranaense se urbanizou, tornou-se complexa, sem mexer nessa velha distorção. Com as sequelas do caso de Londrina e as explorações, daí decorrentes, abre-se nova esperança, como a tivemos quando se elegeu o primeiro governo de oposição, o de Richa, e que nada mudou.
BIZARRICE Entrou bem e saiu melhor: Carlos Frederico Marés na Funai. Entrou, remando contra a correnteza, ao detectar irregularidade numa acumulação de ganhos do Vilas Boas, um ícone nacional, e saiu em solidariedade aos índios que apanharam da polícia. No primeiro caso estava coberto de razão e poucos, no entanto, reconheceram a obviedade. No segundo, o aplauso é geral.
AXIOMA A Copel é corretora e presta serviços burocráticos? Não? Então por que se prestou ao papel de pagar os bancos credores da Sercomtel, descontando isso depois dos 45% de ações que adquiriu? O governo Lerner é especialista em desvalorizar por coisas estranhas, e até atos de corrupção, os ativos que pretende privatizar. Foi assim claramente com o Banestado e agora ficam as cenas suspeitas do evento Sercomtel-Copel-Banco FonteCindam.
GLOSA Ao presenciar as cenas da festa dos 500 anos na Bahia, o trovador Jota Carlos mandou brasa: ‘‘Tinha que ser na Bahia// com Malvadeza e Fernando// Fazer a festa do dia// com negro e índio apanhando.//’’
CHARGE Espetacular a charge da ‘‘Gazeta do Povo’’ em que o navegante luso olha para o continente com o binóculo e grita ‘‘Sem terra à vista!’’. Ficaram muito mais sem terra, com o passar do tempo, os índios, que até hoje lutam pela demarcação de suas glebas.
TERCEIRIZAÇÃO O ciclo da terceirização precedeu o da privatização. Ninguém criou tantas organizações sociais autônomas como Lerner e já se investiga como operam antes de o Tribunal de Contas ganhar o direito de fiscalizá-las. Estudo sério sobre tudo isso está com a oposição e que vai questionar também a tal de Fundação Araucária, uma espécie de órgão alternativo.
SPRAY Anunciava-se ontem um novo discurso do senador Roberto Requião sobre o Paraná, mas isso não aconteceu, uma vez que cuidou de criticar o general Alberto Cardoso, de quem tirou sarro até da condição de espírita. - Álvaro Dias deixou escapar em Foz do Iguaçu, nas termas do Mabu, junto a um dos homens dos consórcios de estradas, que a solução do caso Rafael Greca se daria por Alcides Tápias, ministro do Desenvolvimento, que pleitearia o turismo para a sua pasta, puxando o tapete do ex-prefeito de Curitiba. - Em Araucária pode acabar a polarização entre Rízio Wachovicz e o deputado Albanor com a entrada em cena de um candidato do PMDB, o vice-prefeito Hino Dirlei. - Governo está com a ‘‘bufunfa’’ mesmo. Tanto que pagou três meses do que deixou de repassar ao Fundo de Previdência. Meses pagos: junho, julho, agosto. Falta o resto que será honrado em prestações como o terço de férias do funcionalismo. - Lerner, cada vez mais pragmático, diante dos ventos do neoliberalismo, nada faz para apoiar as ações do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (CREA), no que diz respeito aos abusos de estrangeiros que trabalham por aqui na onda da globalização e privatização. A situação desse pessoal é ilegal e para disfarçar, eles entram no País com visto de turistas. O CREA intensifica a fiscalização. - A maioria desse pessoal investigado é da Audi, Renault, Global Telecom, Telepar Celular e Chrysler. Profissionais dessas empresas é que fizeram as denúncias, agora apuradas. Lerner tem obrigação dupla de olhar isso com a maior seriedade: por ser governador, o que imporia ao cuidado de defender a nossa mão-de-obra estratégica, e a de profissional da área, quer como arquiteto ou engenheiro civil.
FOLCLORE Uma ala do PMDB metropolitano está numa campanha com sentido meio farmacológico: ‘‘Não aceite genéricos, exija o Requião verdadeiro!’’
CROMO Meu neto Luizinho, que conversa com gnomos no jardim, jura que viu as pegadas do ‘‘coelhinho’’ que lhe levou os chocolates. No ano que vem, não vai ver essa passagem porque a maturidade dos sete anos anula a ilusão.
AFORÍSTICO Vários ‘‘Judas’’, que estavam expostos nos bairros desde a madrugada de sexta-feira, foram sequestrados. Como havia gente do governo, ou nele representado, que acertava com o tráfico não há porque espantar-se com esses sequestradores menos perigosos, embora áulicos até a medula.

mockup