Luiz Geraldo Mazza




A escala dos escândalos
Diante do que está acontecendo em Londrina muitos se aventuram em fazer uma espécie de estudo analógico dos escândalos paranaenses. Um dos erros comuns das pessoas é subestimar a questão da escala, isto é, o ajuste das ocorrências à visão da economia, da população, dos meios de comunicação. No passado a vida tinha um outro ritmo e não se poderia pensar em derramas como as do governo Lerner no Banestado, nos gastos com propaganda e nos Jogos da Natureza.
Acredita-se (e essa pelo menos é uma das versões constantes) que o dinheiro da venda das ações do Sercomtel à Copel (R$ 186 milhões) teria sido queimado em abusivas jogadas. Os bancos FonteCindan, Brascan e Sudameris tinham emprestado R$ 22 milhões e receberam R$ 47 milhões. Não se tem idéia ao certo a quanto chega o abuso da Banestado Leasing em operações fraudulentas e emissão de debêntures. Da mesma forma, não se sabe quantas centenas de milhões saíram pelo ralo na picaretagem dos títulos estaduais da Corretora Banestado. Fala-se que nos Jogos Mundiais da Natureza dissiparam-se R$ 85 milhões e em propaganda, nada menos de R$ 500 milhões em pouco mais de quatro anos.
Fica ridículo num contexto desses dar destaque aos desvios da Central de Adiantamentos da Casa Civil, ou mesmo do aparato das ‘‘diárias frias’’ do governo Requião e que sustentavam a emissão de correspondência a adversários reais ou imaginários. Eu mesmo fui ‘‘premiado’’ com uma dessas molecagens com a emissão de correspondência aos jornalistas com o meu contracheque de procurador aposentado para colocar-me como ‘‘marajᒒ. Obtive solidariedade integral da Câmara de Vereadores de Curitiba e da maioria esmagadora dos deputados, ainda que tais mensagens partissem do Palácio Iguaçu num dos redutos da Casa Civil, por vezes uma casa servil.
Tenho lembrado que uma das peças levantadas pelo governo Ney Braga contra o seu antecessor, Moysés Lupion, anos sessenta, era uma questão mínima de juros porque uma verba da campanha contra a hanseníase ficara por dois dias na conta do procurador do governo no Rio, Libino Pacheco, num banco. Fez-se escândalo com o assunto para mexer com o lado mais chocante de uma doença em torno da qual, aquela época, ainda havia uma atmosfera de terror que vinha dos tempos bíblicos. Só para comparação: Lupion quando entrou na política era um dos homens mais ricos do Brasil e quando saiu estava arruinado e, ainda por cima, com bens confiscados. Hoje figuras do segundo escalão, e isso não é de agora, obtêm ascensões patrimoniais de fazer inveja. Claro que há os remediados e também os pobres. Como também uma minoria com dinheiro em paraísos fiscais.
Se o sinal exterior de riqueza, em confronto com os ganhos, fosse uma forma de prova decisiva para enquadrar aproveitadores nem o Maracanã seria suficiente para guardar tanta gente.
O mais curioso é observar que o pior se dá com moeda estável como se taxa de corrupção, a essa altura, fosse um monstro maior do que a inflação.



QUADRA
Discutia-se na Rádio CBN, em função dos quinhentos anos, qual a cara do Brasil como definidora do perfil médio nacional. São Paulo e Rio levavam a maioria dos votos, mas havia referências à Bahia, Pernambuco e até a Paranaguá e Antonina. O versejador Jota Carlos, que cultua resistência a FHC, mandou a quadra: ‘‘Enquanto estiver tronado// o Fernandinho infeliz// Brasil caricaturado// Ou é Miami ou Paris.//’’

PNEU O ex-governador José Richa é amigo dos amigos e às vezes até chamado de lobista por defender interesses de alguns deles como o Francisco Simeão, o Chico Rico, na atividade de importar pneus usados para reaproveitamento e isso num momento em que o Paraná, numa tacada só, atrai duas fábricas. Simeão está encontrando dificuldades para o projeto e é claro que conta com a reação dos maiores fabricantes como Firestone, Good Year e Pirelli.
Como perdemos a maior loja de departamentos do País, a HM, que tinha um setor fortíssimo de pneus, poderia mudar ‘‘o pneu carecou// HM trocou’’ por outro ‘‘se o pneu carecou// Chico Rico salvou!’’
Bobagem. Os políticos, inclusive alguns dos mais importantes do Paraná, estão preocupados com outra prioridade: a careca própria, que derrapa no vídeo.
MÁXIMA ‘‘Ou haja moralidade’’á – dizia o fino humorista brasileiro – ‘‘ou afinal locupletemo-nos todos’’.
Piadas como a escala da corrupção mudam no tempo e no espaço. Uma das clássicas, que o Plano Real, notadamente nos seus primeiros tempos, acabou, de certa forma, desatualizando foi a do Barão do Itararé segundo a qual ‘‘pobre, quando come galinha, um dos dois está doente’’.
ITARARÉ Já me referi a isso e volto a fazê-lo. Num ônibus apertado com gente de todo o Brasil, que participava de um congresso de jornalistas em Friburgo, a figura incrível do Aparício Torelly, com sua barba branca enorme, ao ver os congressistas se batendo no veículo superlotado, berrou: ‘‘Fazei o que o Mestre aconselhava e sentai-vos uns aos outros!’’
Eu e o Sílvio Back, mais o João Féder, fomos também fazer platéia para um guru do jornalismo irreverente daqueles tempos, o Barão do Itararé.
ANÚNCIO Uma das cenas mais interessantes que assisti, anos cinquenta, foi a da impressão do primeiro anúncio colorido e perfumado em nossa imprensa. Tratava-se do produto ‘‘Dana’’: os homens chegaram com alvíssimo guarda-pó, mais ar de cientista e alquimista do que de técnicos em química, para fazer a mistura do perfume com a tinta e no parâmetro correto. Lá estavam Nereu Toniatti, diretor comercial, Felipe Engler, o mais completo vendedor de anúncios, jornalistas, enfim um auê. Só que o perfume se impregnou em todas as dependências do jornal ‘‘Diário do Paranᒒ e se no anúncio não era lá essas coisas no ambiente ficou pior ainda e provocava dor de cabeça. Nessas horas sempre aparece alguém disposto à gozação para afastar o baixo-astral e fez a gracinha ‘‘Se é Dana, danou-se’’. Danamo-nos durante vários dias. O anúncio era ‘‘merchandising’’ indireto de ácido-acetil-salicílico, Aspirina e Melhoral.

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