Desqualificação testemunhal
Um dos argumentos dos policiais apanhados na rede de vinculação com o crime organizado é o de que os que testemunharam contra eram traficantes presos. Por acaso um cursilhista saberia melhor do assunto do que um traficante, afinal um engajado na atividade?
Tenta-se também nos episódios sórdidos de Londrina um jogo parecido: Belinati lança sobre os que participam das comissões a acusação de que não estão moralmente aptos a esse papel por estarem comprometidos, ora porque detém gravações em que estão enrolados até o pescoço, ora porque o teriam procurado para cobrar vantagens devidas ou indevidas. Se havia clima para pedir grana em troca de um silêncio é porque o proponente presumia, por uma série de fatores, que tinha condições para fazê-lo.
Há um fato mais abrangente – e em torno do qual o governo fez um esforço fora do comum para impedir que as coisas andassem – e que condiciona o que está acontecendo no segundo maior pólo urbano do Paraná: a reversão executada para impedir o funcionamento da CPI da Sercomtel-Copel-Banco FonteCindam. Suspeita de nova remessa de recursos, para apagar o novo foco de incêndio, já foi levantada e mesmo assim os deputados da base aliada nada fizeram, ainda que colocados sob esse constrangimento, para restabelecer aquela CPI na hora em que criaram cinco para neutralizar iniciativas da oposição.
Falou-se numa nova injeção de milhões de recursos para reverter o processo e nem o peso da suspeição foi suficiente para levar os parlamentares, até pelo empenho em salvar a própria imagem e da instituição, a um recuo. E ficam ainda com a pose olímpica, agora no comando das CPIs alaranjadas, de que estão acima de qualquer suspeita.
A CPI da Sercomtel-Copel mostraria mais do que a cloaca de Londrina. Revelaria o lado mais predatório deste ciclo que estamos vivendo agora contra empresas públicas de boa conformação original como a Copel, a maior de todas, e a Sercomtel, organização enxutíssima e que na sua escala teria até, em eficiência, superado a Telepar que antes da passagem de Alvaro Dias, que fez a transição para a via privada, era a mais redonda de todas as teles estaduais.
Meios de comunicação represavam as notícias sobre Londrina. A primeira a romper o cerco foi a Rádio CBN, que colocava os feitos em rede nacional e agora, nesta fase já irreversível, tudo está devidamente divulgado, como se vê nos jornais e na televisão. Já sobre o assunto sigiloso, das relações da mídia com o poder, é a TV Senado, através do senador Roberto Requião, que conhece bem o assunto porque teve ótimas e proveitosas, para o seu currículo, ligações com todos os meios de comunicação, que lhe permitiram inclusive, em rede estadual, ‘‘vender’’ o peixe dos seus feitos municipais – transporte e alimentação, tidos como os mais baratos do País, escola e saúde para todos, facilidades para urbanizar invasões – que lastrearam a sua candidatura a governador. E que alavancaram, em razões diferentes das de Lerner, migrações em busca do ‘‘paraíso’’. Lerner vendia a discutível qualidade de vida, Requião a também discutível baixa de custos de comida e transporte. O pior é que poucos eram, num caso e no outro, os que se aventuravam a questionar tais feitos em vista do pacto governo-mídia, que precisa ser rompido para o bem da democracia.
Nem por isso Requião está impedido de denunciar e testemunhar. E faz um enorme bem ao pronunciar-se, mesmo que exagere e distorça, como sempre.

BIZARRICE
Botar os pataxó de sunga da cor da pele só podia ser coisa do Rafael Greca. É preciso que o tecido seja colante, senão os índios vão lembrar o Gigante Nu da Praça 19 de Dezembro de Curitiba, que parece emasculado

FOLCLORE Hoje é dia de malhar Judas, tradição popular. Os políticos são os maiores visados nessas manifestações, embora às vezes atinjam figuras de arrabalde, clubes e personagens do futebol. É fácil perceber que tanto Londrina como Curitiba vão ser cenários assemelhados com figuras dos escândalos, comuns às duas cidades, e também da CPI das Drogas. Num desses bonecos, a advertência: ‘‘Depois do massacre, voltarás ao pó.’’
JUDICIÁRIO Há desconforto, neste momento, no Poder Judiciário relativamente aos acontecimentos de Londrina e às viagens proporcionadas a alguns magistrados a Modena (Itália) e Tóquio (Japão). A maioria dos desembargadores nada tem a ver com os fatos e hoje é a maior interessada em que tudo seja esclarecido. O advogado Ronaldo Gomes Neves, que obteve recentemente um agravo em ação cautelar, que visa impedir que o Sercomtel venda, aliene ou caucione suas ações, ao referir-se a essas viagens, lembrou o fato de desembargadores cariocas até hoje não poderem explicar como receberam convites da CBF para a Copa da França, quando há feitos de interesse daquela entidade tramitando naquele tribunal. Observação minimamente pertinente. A argumentação levou o desembargador Valeixo e encaminhar os fatos ao presidente do TJ, Sidney Zappa, e ao Ministério Público, precisamente pelo tom de gravidade.
GLOSA Sobre o uso sacana do paranismo, Dalton Trevisan diz que se trata do último refúgio dos medíocres, glosa da frase de Samuel Johnson sobre o patriotismo, como ‘‘último refúgio dos canalhas’’, à qual Millor Fernandes aduziu tratar-se do ‘‘primeiro refúgio dos canalhas’’.
AXIOMA Só falta agora, quando apurarem tudo de Londrina e já envolvendo o governo estadual, o time da terra apelar ao paranismo na hipótese de a matéria ser feita pelo ‘‘Estadão’’ ou a ‘‘Folha de S.Paulo’’. Aí tentarão sugerir que é um repique por causa da guerra fiscal. A canalhice sem talento inexiste.
A propósito de Judas, numa dramatização do Colégio Santa Maria, o jovem Tato Taborda era figurante como um dos apóstolos e não tinha ‘‘fala’’. Mas na hora em que um de seus colegas apupava o traidor com palavras duras, não perdeu a deixa e chamou-o de contrabandista.
CROMO Sonâmbulo, leio o aviso da missa do 7º dia de mim mesmo. Alguns mortos, outros vivos, riem do meu embaraço: a notícia na lousa do café.
AFORÍSTICO A mega polenta de Santa Felicidade de hoje pode ser a maior do mundo, mas perde em dimensão do que se dá em Londrina e atinge Curitiba.

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