A mais recente alegoria sobre o Paraná, no momento em que efetivamente dá um salto na sua economia com a indústria automotiva, é essa de fazer de Curitiba a capital do Mercosul. Como sempre a idéia é generosa, fortalece a unidade regional, mas esbarra em condicionantes mais fortes e que superam as aparentes razões geopolíticas que a sustentam.
É simplificador demais acreditar que a circunstância de sermos um corredor estratégico no Cone Sul e o fato de termos fronteira com Argentina e Paraguai fundamentariam essa polarização. Se é verdade que em alguns fatores logísticos isso funciona, o mesmo não se dá em relação a outros como, por exemplo, a multimodalidade de transportes, a não ser que o ‘‘brinquedo’’ eleitoral de José Carlos Martinez, a ferrovia que iria até o Chile (Antofagasta), agora também incluída nas especulações ‘‘virtuais’’ de Lerner, se concretize.
As ligações com o Oceano Pacífico mexem com o nosso imaginário: quando iniciaram a estrada de Mato Grosso, a rigor o caminho entre a rua XV e o Batel, a Praça Osório passou a designar a utopia. Tanto que se chamava Oceano Pacífico, uma forma de aproximar alegoricamente aquilo que fisicamente ainda era distante. Como se vê, alegorias é que não nos faltam, algumas seculares.
Falta-nos igualmente capacidade de iniciativa política e o desprestígio quase sistêmico do Paraná avulta em episódios que vão do bloqueio aos empréstimos ao fato de não termos federalizado uma só das universidades estaduais, embora nestes últimos 35 anos tivéssemos três paranaenses no Ministério da Educação, a saber Flávio Lacerda, Ney Braga e Euro Brandão.
O centro nevrálgico do Mercosul estará entre São Paulo-Buenos Aires, pólos mais dinâmicos sem desconsiderar Montevidéo, que está se preparando há muito tempo para um papel decisivo nesse cenário; Santiago do Chile, e Assuncion no Paraguai. O ingresso do Chile muda bruscamente o raio de influências em função dos chamados fatores logísticos.
Aliás, temos o mau vezo de olhar o Mercosul numa perspectiva do chamado Brasil meridional e isso se dá aqui e em Porto Alegre e também em Santa Catarina, que montou um centro comercial na BR-101 com alusão ao referencial da moda. E se ganhamos muito com os últimos acontecimentos, como o da vinda das montadoras, que farão da Grande Curitiba (e não do Paraná, como se alude na propaganda) o segundo pólo automotivo do País, perdemos nos fatores políticos e culturais. Uma olhadinha no ‘‘ranking’’ das universidades, embora tenhamos eregido a primeira do Brasil, nos revela bem distanciados dos centros de Porto Alegre e de Florianópolis (pelo menos três excelências em graduação e pós-gradução).
Vale, no entanto, a iniciativa como símbolo, como esforço para a coesão. Vale tanto quanto aquela que levou Paulo Pimentel, governador, a sugerir, trinta anos atrás, que seríamos o ‘‘segundo Estado do Brasil’’, condição que ainda não atingimos sequer no Sul, onde perdemos para catarinenses e gaúchos, tanto em indicadores econômicos como sociais. O importante é transformar alegorias em idéia-força para que não se prejudique o conteúdo pelo fulgor da embalagem.
BIZARRICERequião mostrou ontem, na inauguração do seu escritório, que quer uma revanche: até agora nos embates que teve com Lerner ganhou um, em 1985, quando carregado às costas por José Richa, e perdeu três sucessivos em Curitiba. Ganhou uma estadual, a sua própria eleição, e perdeu a mais recente. Foi tão contundente a sua declaração sobre a situação do Paraná que se houvesse uma pergunta de geografia elementar, a maioria responderia que vive em Maceió. Só que lá o salário do funcionalismo está atrasado há oito meses.
SPRAY‘‘Grupos de pressão e reformas constitucionais’’ é o tema da palestra do cientista político Murilo de Aragão, da Universidade de Brasília, que fala hoje às 9 da manhã no Anfiteatro 900, 9º andar, Edifício Dom Pedro II da Federal.- Junto com a palestra, o lançamento da Revista de Sociologia e Política (número 6/7) dedicada aos 50 anos da Constituição de 46.- Uma questão curiosa é perceber que naquele tempo a Universidade era melhor e também a nossa representação política: faziam parte da bancada Munhoz da Rocha, que nos devolveu o Território do Iguaçu; Munhoz de Mello, catedrático de Direito Constitucional e mais tarde desembargador; Erasto Gaertner, todos mestres da ‘‘mais antiga do Brasil’’.- Continuamos com a mentalidade autárquica: a CAE não tem em sua pauta o caso dos empréstimos do Paraná, mas por aqui o informe é no sentido de que o assunto será tratado hoje. Fundo das teles, caso dos R$ 3 bi do Banerj, fundo de aposentadorias e mais operações de crédito do Rio Grande do Sul estão na pauta. Nosso reclamo, pelo jeito, fica pra depois.- O surto de meningite em Colombo reclama, primariamente, o estabelecimento de um ‘‘cordão sanitário.’’ Relações com a área são intensas.-
FOLCLORE 1Do alto do terceiro andar do Palácio Iguaçu, o assessor anedoteiro de Lerner lançava o olhar para o escritório de Requião e dizia: ‘‘É encontro dos sem-emprego, junto aos sem-comissão e aos sem-vergonha.’’ Piada, às vezes, não passa de sinal de impotência.
FOLCLORE 2A falta de alternativas políticas é tão rígida no Brasil que até o Fernando Collor está aí se habilitando a disputar a presidência. Para uns, Lula é um sonho, para a maioria um pesadelo, sonambulismo. Tudo caminha para a reeleição de Luis XIV. Depois dele, o dilúvio em alto estilo.

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