E agora, José?
Situações-limite seriam o cenário ideal para que se declamasse ao fundo o poema de Carlos Drummond de Andrade ‘‘E agora, José?’. Mais ou menos cabível no momento paranaense, seja nas revelações tormentosas da CPI das Drogas ou nos desdobramentos da crise de Londrina, ora alcançando a espinha dorsal do sistema de comunicação social, com as denúncias do senador Roberto Requião a cada discurso mais veementes e vulcânicas.
Qual o ganho de tudo isso, tanto nas devassas de Londrina como numa possível da mídia em suas relações com o poder? Apenas a reafirmação dialética de que num país com instituições fossilizadas, só o conflito clareia: da bronca de Pedro Collor contra o irmão presidente e o tesoureiro chuncheiro, ao estrilo de Nicéa contra o prefeito de São Paulo, em tudo se percebe isso.
Esse tipo de choque derruba qualquer monolitismo, a regra do viver cotidiano da mídia paranaense de um modo geral, e que precisa, para o bem da maioria, afinal que sustenta esse aparato, a opinião pública, desses abalos para rever, quem sabe até, os seus fundamentos.
O fato de que Requião se beneficiou como governante dessas praxes não lhe retira o direito de fazer denúncias, até porque, embora jamais tenha trabalhado na área, é formado em jornalismo e, acima de tudo isso, é senador, ‘‘pai da pátria’’, um ‘‘pater conscripti’’, como gostaria de dizer por seu apego ao latim. Alega estar sendo boicotado, o que não passa de meia verdade, pois o seu próprio estilo de atuação, haja vista para o desempenho na CPI dos Precatórios, obriga os meios de comunicação ao registro dos seus atos, embora não de tudo, uma vez que o direito de fazer triagem, selecionar informações, desde que não conflite com o acesso do público a notícias relevantes, deve também ser preservado.
Há coisas como por exemplo o filho de FHC fora do casamento, que a imprensa pode achar vetável, sem que mereça maior censura por isso. Outras, bem mais constrangedoras, como a da participação do Bradesco no escândalo dos precatórios, podem ser suprimidas por motivações subjetivas e econômicas. Isso se dá aqui e em todo mundo, mas melhoramos. A TV Senado, por exemplo, é recente; o uso da Internet é outro. Daí se enganarem os que pensam ser viável manipular tudo. Agora, isso não exclui o processo contraditório, em que os acusados precisam ser ouvidos. O ex-governador fala com detalhes de relações que teria estabelecido com a mídia e por ter delas se valido e aproveitado isso não o desqualifica no testemunho.
E agora, José? A festa acabou, a luz apagou.
EPIGRAMA
Depois de tudo isso – os episódios de Londrina, os discursos de Requião (ele está apenas no terceiro) – será que as coisas melhoram e arrumamos também as nossas cabeças ou fingimos mudar para ficarmos na mesma, como na trama de Lampedusa da saga de Garibaldi?

BIZARRICE Carlos Moisés Pimenta me manda um e-mail interessantíssimo e que revela bom humor: ‘‘Acho que andam polemizando desnecessariamente sobre o tal cemitério de motores em Rio Branco do Sul. Veja só: o Paraná é um Estado reconhecidamente com vocação agrícola, e, quando do lançamento do plano de industrialização automotiva pelo governo Lerner, nada mais natural que associar nossa vocação agrícola aos planos governamentais, realizando uma experiência inédita, e, quiçá, de sucesso, de fazer a primeira plantação de motores do mundo. Excelente idéia! Certamente iremos ao Guinness Book por tal iniciativa e há ainda quem queira atribuir a malfeitores esse feito!!’
AXIOMA Se houve o tal acordo branco, oportunista, aliás, entre Alvaro Dias e o governo Lerner, pelo jeito ele está ‘‘sub-judice’’. Ontem, na Rádio Exclusiva, o senador voltou a pichar o governo.
GLOSA Quando fizerem uma avaliação mais aprofundada sobre o governo estadual, será que o caso de Londrina não ficará como ‘‘aperitivo’’?
EPIGRAMA Testemunha que denunciou policiais de Cascavel ligados ao crime organizado sumiu há 43 dias. Os pais de Ewerton, o menino desaparecido desde 1988, tiveram a casa invadida e documentos roubados. Até hoje nada se fez para descobrir como e quais foram os vinte integrantes de esquadrão de extermínio que invadiram, na capital, a Delegacia de Furtos e Roubos de Veículos, e executaram um preso que lá se encontrava.
Diante dessas coisas, à gestão Lerner não resta outra coisa senão saturar os jornais com notícias positivas e o ‘‘milagre’’ da recuperação financeira. Uma forma de escapismo engenhosa, não se pode duvidar.
SPRAYUm banco, devidamente credenciado, atende os credores do Estado com a prova das respectivas faturas com os juros de 4% ao mês. Melhor isso do que, por exemplo, acorrentar-se numa repartição pública para sensibilizar. - TJ vai investigar a tal ‘‘farra’’ de Modena e Tóquio por magistrados, favorecidos em Londrina, denunciada pelo advogado Ronaldo Gomes Neves. - Araucária vai ter uma das campanhas mais retaliatórias do Paraná. Jogo pesado, com vídeo editado, sedução, o escambau. - Amanhã uma polenta gigante, que vai para o Livro dos Recordes, em Santa Felicidade. Urge criar mais coisas – dramatização da Paixão, variação de ritos religiosos, torneios do Graciosa Country Club – para explorar a Semana Santa. O Natal é o maior evento de Curitiba e o único merecedor de figurar em calendário nacional. O Norte começou bem antes a festa de luz das casas e praças. Arapongas foi uma das pioneiras. - Aliás, as pousadas tanto da Região Metropolitana, quanto do interior estão lotadas para esses dias de repouso. Uma delas, o Hotel-Fazenda Vinhas de Bocaiúva, que passa a apostar mais nisso do que no Restaurante Sabores do Campo.
FOLCLORE Um prefeito, de corte populista do Norte Pioneiro, tinha o hábito de adquirir galinhas velhas das granjas para cedê-las a custo zero ao povão. Os adversários diziam que o senso mínimo de economia doméstica ensinava que levar à cozinha aquela iguaria era prejuízo certo só para amolecer a carne rija.
CROMO E esse vergão no horizonte – que os antigos chamavam rosicler, forma poética de rosa-claro – a troco de que à tarde e não na aurora?

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