Luiz Geraldo Mazza




Sempre o espetáculo
Guy Debord, um renovador do pensamento-ação marxista, nos anos 60, publicou ‘‘A Sociedade Espetáculo’’ em que fazia a apreciação do processo político e cultural como a perspectiva da cena teatral. Mais tarde, Roger-Gerard Schwatzemberg tentou ampliar o foco da análise com ‘‘O Estado Espetáculo’’, neste uma redução à política.
Cenas recentes da vida brasileira mostram o quanto somos subordinados à visão do espetáculo: estão aí os debates, educadíssimos, dignos do Parlamento inglês, entre os senadores Antonio Carlos Magalhães e Jader Barbalho; aqui no Paraná, as cenas da oposição, depois de tomar dribles situacionistas, levando laranjas para o plenário, sugerindo que as CPIs do governo eram muito cítricas e nada críticas, ou um bolo de um ano do pedido da CPI do Pedágio – também se inserem nesse panorama de vassalagem ao dado teatral.
Quando o homem chegou à lua ninguém me convence do contrário: o astronauta Neil Armstrong já estava com o ‘‘script’’ decorado ao afirmar que seu passo no solo selenita era singelo para ele e imenso para a humanidade. Como apresentador da Globo que não fala sem o tele-pronter, lá veio a frase. Será que César fez a travessia do Rubicão, quase tão estreito quanto o Ipiranga, em cujas margens D. Pedro deu o brado, com tanto engenho por causa da referência logística? E teria ele dito ao ser apunhalado por Brutus ‘‘tu quoque mi fili’’, que, traduzido para o catarinês é ‘‘até tudo, a quem considerava meu filho?’’
O jogador Petras, da Tchecoslováquia, de um país então comunista, fazendo o sinal da cruz ao marcar o primeiro gol contra o Brasil; o papa João Paulo se ajoelhando, até quando podia fazê-lo, para beijar o solo das terras que visitava; Jaime Lerner, imitando os piás que fazem rabiscos em papel na Rua das Flores, desenhando aquele mapinha do Paraná para justificar os ‘‘Anéis de Integração’’, que vão levar os dedos de todos os paranaenses. Tudo isso é espetáculo, como o é o dos policiais acusados de conexão com o crime organizado pretextando inocência e os deputados da CPI fazendo os justiceiros. Como não deixa de ser espetáculo a cena curta do institucional desta Folha, em que apareço severo demais como quem não dá as costas para os acontecimentos.
Como ator, sou, tranquilamente, bem pior do que o FHC.
Prestamos vassalagem a esses rituais e às vezes pagamos pelos excessos. Não esqueço de Ney Braga, no aceso das passeatas que precederam o golpe, jogando um livro ao solo, lá do alto do Palácio Iguaçu, combatendo a idéia da obra didática única, jamais pensada por Jango Goulart, facilmente inventada pelos conspiradores. Não esqueço dos tiques de Plínio Salgado, contrações no rosto, e que usava para cadenciar seu discurso com aquela fala de paulista do interior, acaipirado, o que lhe amainava o tom autoritário. De Jânio, com seu histrionismo. De Juscelino, com seu otimismo enlouquecido.
Não há como separar o espetáculo da cena política. É também uma interação como de forma e conteúdo, e o sonho de todo o político é chegar à essência da pinga ‘‘Velho Barreiro’’, no qual até a garrafa é coisa fina, forma oblíqua de reafirmar o valor superior da substância, assunto mais para filosófos do que para um singelo publicitário, pouco ligado em ontologia.

QUADRINHAS
Tempo de eleição, época de talentosos do jornalismo e da propaganda, bem como da poesia (repentistas, pessoal das quadrinhas), oferecerem serviços. Na Rádio CBN, quase diariamente, um colaborador, Jota Carlos, manda quadras sobre os temas em debate. Ao saber da Medida Provisória de FHC, contra quem cultiva uma permanente indisposição, que libera a prática dos juros compostos que a Justiça vinha combatendo, mandou brasa: ‘‘Ouça em tom forte esse grito// que ecoa por todas as grotas// Fernando Henrique maldito// protetor dos agiotas!//’’ O populírico Liberalino Estevam fez um contra Ney Braga e Paulo Pimentel, na eleição de 1965: ‘‘Não assopre contra o vento// que o vento não tem lei// seja Bento cem por cento// Mil por cento contra o Ney//’’

CAFAJESTICES Um dos hábitos de nosso tempo de adolescente, que parecia antecipar os ‘‘punks’’, era a de quebrar a formalidade dos ambientes. No lançamento de um filme argentino baseado em Érico Veríssimo, ‘‘Olhai os Lírios do Campo’’, entregavam uma corbelha à atriz Silvana Roth, à porta do Cine América, na Voluntários da Pátria de Curitiba, quando um moleque arrojado passou a mão no traseiro da estrela e fugiu com a destreza de um azougue, fruto de uma aposta e que era transformada, vejam o paradoxo, em questão de honra.
Isso era o mínimo: o inferno era no ‘‘poleiro’’ do Cine Palácio, do qual lançavam sujidades no pessoal das frisas e da assistência lá embaixo, a plebe na luta de classes contra os mais abonados.
Outra sacanagem, em Paranaguá, no Cine Santa Helena, era cuspir do ‘‘poleiro’’ no jato de luz que saía da projeção e que acabava alcançando as pessoas que ficavam no salão. Molecagem parecida com a dos bárbaros que lançam urina ou água suja do alto dos prédios centrais em Curitiba.
O CLIMA Curitiba mudou muito em termos climáticos. Um aumento médio de 10 graus nas temperaturas explicam o acerto – inclusive nos anos 70 – das mesinhas no Calçadão. Quando eu estava no Ginásio Paranaense até 1948, ia-se à aula da ginástica no Parque Barcarola, onde estava o Estádio do Britânia, no Juvevê, pisando em gelo, às vezes até outubro ou novembro. E a piasada olhava de esguelha para um dos professores de Educação Física, só porque o Herédia Navarro era um poeta.
SEXO A oralidade no sexo chegou tarde e seus raros praticantes, olhados como ‘‘aliens’’ por seu pioneirismo. Duas francesas, casadas, que andavam com seus cachorrinhos nas ruas centrais, eram as que davam curso de mestrado na área. Um dos épicos da novidade chegou ao extremo de uma exibição pública na Boite Elite, na Praça Zacarias, em cima de uma mesa e com uma das frequentadoras. Para muitos, era façanha maior do que uma briga do Carlinhos ou um discurso contra o governador, do jornalista Dicesar Plaisant.

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