Luiz Geraldo Mazza




Cumplicidade exemplar
O Brasil nunca precisou tanto de cidadãos determinados como agora para melhorar o funcionamento das instituições. A luta obstinada do marido em busca do corpo da esposa desaparecido no desastre na BR-116 é um desses exemplos. Outro, o da mãe do jovem Zanella. No primeiro, uma questão a ser esclarecida e que pode desvelar a morbidez da sanha mercantil entre funerárias. No segundo, a evidência de como a polícia, como corporação, ‘‘cria’’ provas para proteger seus integrantes quando matam estupidamente um perseguido, como naquele caso.
Não se trata, portanto, de um caso atípico e isolado, tantas são as patologias observadas em abordagem policial, tanto por PMs como por civís, quando pessoas desequilibradas, investidas de autoridade, matam jovens sob as alegações mais absurdas, como se estivessem acima do bem e do mal. Há até registros de reincidência por parte de oficial PM da hierarquia intermediária.
O esforço para transformar vítimas da violência policial em criminosos é uma constante, e a cultura interna desses organismos assimila esse tipo de versão com regular facilidade. Como as vítimas normalmente são pobres e indefesas e não têm quem se movimente para ampará-las, tudo fica mais fácil.
Uma das evidências de que esse poder (brutal) interno é rotineiro está no fato de que até hoje nada se fez para apontar os responsáveis pela execução de um preso (que havia assassinado um policial no dia anterior) no interior da Delegacia de Furtos e Roubos de Veículos de Curitiba, por um grupo de extermínio de vinte encapuzados, que consumaram o serviço com extrema ousadia e facilidade. À época, o corregedor da Polícia, Anníbal Bassan, declarou que tudo indicava que os encapuzados eram policiais num ato retaliatório.
Se a polícia se sente bloqueada, inibida de agir, numa questão dessas, é de se compreender também os constrangimentos internos que dificultavam a prisão do delegado Noronha. E isso provavelmente pelo que podia fazer e pelo que podia falar. Também se lhe coubesse a metade das denúncias, que lhe atribuíram na CPI, já seria alvo de muita gente.
Promiscuidades, como a denunciada da tribuna do Legislativo, de que o falecido advogado Luis Renato Crovador doava computadores às delegacias é algo definidor do clima, evidenciado em outras questões, como por exemplo na cessão a jornalistas de carros apreendidos quando estes tinham os seus veículos roubados. Isso sem falar no uso de veículos roubados e apreendidos em diligências policiais. Essa frouxidão, afora o respaldo que vinha especialmente da classe política, a quem Lerner abdicara a prerrogativa, explica todo o clima de absurdo que estamos vivendo.
Só há uma forma de romper esse ciclo vicioso, quando as instituições estão emperradas por suas deformações: a intervenção cirúrgica da cidadania, como se deu, exemplarmente, com a família Zanella, que não esgotou ainda sua cruzada porque nem todos os envolvidos foram devidamente punidos. Se dependessemos da polícia, a versão delinquente prevaleceria com a maior tranquilidade.

AFORÍSTICO
As pessoas acreditam mais em Deus do que nos políticos, mas seguem mais esses, mesmo quando parecem notórios vilões

TURISMO Com a aproximação da Semana Santa, uma vez mais teremos oportunidade de identificar um filão do turismo cultural, aqui normalmente subestimado. De Curitiba, até agora temos apenas um evento merecedor de figurar em calendário nacional nas comemorações natalinas. Muitos aspectos estão sub aproveitados, como o da exploração de manifestações étnicas, agora na Semana Santa, como as da variedade de ritos, como os dos ucranianos e dos produtos como peçancas (artesanato rebuscado em ovos) e das krachankas (benção dos alimentos), isso sem falar nos bordados e outras expressões de arte.
EPIGRAMA O PT, que havia recuado na questão de incluir o socialismo em seu programa, voltou atrás e faz uma reflexão, com bases acadêmicas, para ver a inserção dessa linha política na modernidade com globalização. É por aí que se raciocina: fundamentalismos, como o do socialismo autoritário, e agora o da tal ‘‘economia de mercado’’globalizada são muito parecidos. Dois casos de teocracia às avessas.
GLOSA Vamos botar um breque nos exageros sobre Londrina e a corrupção de caráter institucional. Havia gente chamando a cidade de Ladraína. O que a cidade deve ter orgulho é do exercício de pressão que a capital, Curitiba, é incapaz de levar a fundo por sua conformação cartorial. O retorno do Noronha, escudado em habeas-corpus, exigirá a volta da CPI porque a sociedade não vai se empenhar em coisa alguma.
AXIOMA Fernando Henrique Cardoso é sabidamente parlamentarista, como toda a cúpula cardinalícia do PSDB. Até hoje nenhum presidente brasileiro, em certo aspecto mesmo os militares, foi tão presidencialista. É só dar uma olhada nas Medidas Provisórias.
BIZARRICE Se Fujimori, no Peru, na base do autoritarismo, sem a malemolência de Menen, chegou ao terceiro mandato, a direitona, mesmo aqui do Brasil, se assanhou. No Brasil não há bom exemplo de reeleito: até os que se saem bem como Tasso Jereissati, no Ceará, não se arriscariam a um repeteco. Lerner, nem pensar. Nem como primeiro ministro estadual, como foi imaginado para FHC no parlamentarismo, em escala nacional.
Órgãos governamentais e municipais deveriam mapear as manifestações da Páscoa em todo o Estado para identificar em que medida há aí um potencial de valor para o turismo cultural e religioso. As dramatizações, embora não possam se ombrear com a de Nova Jerusalém, no Nordeste, deveriam ser estimuladas e bem avaliadas. A do Grupo Lanteri, de Curitiba, pode figurar bem pelo razoável nível artístico das produções, que com um pouquinho de marketing, como a presença de atores conhecidos da massa, poderia obter melhor resultado.
FOLCLORE Uma pesquisa feita com investidores internacionais preferia que FHC ficasse por aqui e o Lerner até que tem boa cotação com nota superior a 7, passando por média. Também com as concessões (subsídios, cessão de áreas, entrada do Estado como sócio, quatro anos para pagar ICMS) não poderia dar outra coisa.
CROMO No monturo por entre o furo de um sapato velho nasce a flor.

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