Luiz Geraldo Mazza




Um alertamento singelo
Criada a expectativa de que o delegado João Ricardo Képes Noronha era o ‘‘inimigo público número um’’, embora a matéria de prova levantada tivesse pouca materialidade, já que se fundava em testemunhas, foi estabelecido um clima na sociedade de que ele, o indiciado, além de tudo fugitivo, era culpado e de forma inquestionável. A concessão do ‘‘habeas corpus’’, pelo Tribunal de Alçada, a um réu que estava sob ‘‘prisão temporária’’, só poderia provocar espanto e revolta, dado o cenário criado, mas que, observadas as tecnicalidades do Direito, se justifica plenamente. A polícia e o Ministério Público, o primeiro para capturar o foragido, e os dois para juntar novas provas de maior consistência, tiveram tempo de sobra. Afora aquela referência no desmanche do ‘‘Caboclinho’’ ao ex-diretor da Polícia, nada ‘‘pintou’’.
Alertamentos têm sido feitos por juristas (outro dia o advogado Saulo Ramos mostrou a improcedência das ações da CPI do Narcotráfico e que geraria, por certo, nulidades essenciais na hora em que o material chegasse ao Judiciário) quanto à excessiva subordinação à sociedade do espetáculo de vários atores dessa novela tenebrosa e ao faturamento político e psicossocial. O Judiciário acaba assumindo o ônus de toda uma situação gerada por procedimentos muito mal feitos. Já foi alvo até de um leviano ataque do ex-secretário de Segurança Cândido Martins de Oliveira, respondido com firmeza pelo desembargador Sydney Zappa, que o acusou no mínimo de conivente com a acefalia aparente do sistema.
A roda dentada da mídia é furiosa. Hoje a CPI está em São Paulo e obviamente novas e fortes evidências do concubinato polícia-crime organizado ficarão bem expostas. Se sobre o deputado Hildebrando, aquele da motosserra, não fossem levantadas provas duras, a sociedade, a essas horas, já teria dele esquecido, porque outras figuras da ‘‘banda podre’’ estariam sob os refletores. Amanhã ela retorna ao Paraná e pode até encontrar o delegado Noronha já no exercício de alguma função, posto que haja um inquérito administrativo que possa ainda inculpá-lo, o que permitiria ao depoente um testemunho sem constrangimento e o temor, bastante calculado, de sair da CPI algemado.
O Ministério Público é hoje o guardião zeloso de uma sociedade que pratica pouco a cidadania e, por isso, precisa de um ‘‘ombudsman’’ institucional, entronizado nessa condição de quarto poder pela Carta Magna de 1988. Uma certa preocupação em dar primeiro à sociedade, via meios de comunicação, a prova da eficiência dos seus atos gera esperanças na população, nem sempre atendidas na hora em que os processos caminham no Judiciário, e acaba, também, provocando sortidas mal inspiradas, como a da lei da mordaça. Essa questão – a de juízes e procuradores de Justiça não se manifestarem sobre matéria em andamento – é mais do campo deontológico, ético, do que da malha legisferante. Esse senso cada um deve ter e isso abrange, também, os meios de comunicação social.

BIZARRICE
O governo estadual é ‘‘Coxa’’ e o Coritiba, obviamente, também. Como são assemelhados em gestão financeira: um não explica o débito de milhões (mais de 20), outro foge desses (80 milhas dos Jogos da Natureza, 500 milhas de dispêndio com propaganda, a quebra do Banestado) assuntos mal cheirosos.

AXIOMA Uma coisa as lideranças populares, entidades de moradores, perceberam, ao carregar nas costas, em manifestação no Parque dos Tropeiros, o prefeito Cassio Taniguchi. Quando era Lerner ou Rafael Greca tinham que chamar os halterofilistas. A observação vem de Guaratuba e é do Rubinho Ferreira.
Um detalhe nostálgico: que pena não estar entre nós um que era sempre escalado para carregar Lerner, o Cabeleira, Rodalém dos Santos, e quem sabe lhe desse sorte, como ocorria enquanto prefeito da cidade.
GLOSA Deputados situacionistas criticaram a oposição por ter feito um bolo de um ano às espera da CPI do Pedágio. E os situacionistas que dão ‘‘bolos’’ sistemáticos na população, tapando os olhos para tudo e recuando de forma imoral da montagem da CPI do Sercomtel-Copel, não faltam com o decoro?
SPRAY A pobreza da oposição é visível. O encontro do PMDB foi farto nesse aspecto: além da mesmice de quadros, de gestos e estilos, tentaram cooptar entidades de moradores e o governo saiu à frente e encurralou-as, dando mais um olé nos apalermados oposicionistas. - Um golpe na área que era de domínio do PMDB e que hoje já não está com essa bola toda, portanto, na ação alternativa, o charme anterior é apenas a continuidade do outro, aquele da saturação das CPIs, no ‘‘front’’ parlamentar. - A vice-governadora Emília Belinati teve um dia tenso ontem: a publicação de que entre as contas da ‘‘caixinha’’ em Londrina haveria uma referência a uma lipoescultura dos seios deixou-a traumatizada. Depois do choque, mandou interpelar o jornal que divulgou o informe, tido como do material apreendido sob guarda de Carlos Júnior. Emília nega ter feito a tal cirurgia, mas vai sofrer muito até o esclarecimento do assunto por atingir-lhe a intimidade e que se transforma em exploração caricatural no meio político. - Como poderemos ter praia boa se o hoteleiro mór de Guaratuba, Joel Malucelli, fecha o ‘‘Vila Real’’ na entressafra? Deveria partir para o arrendamento, como fez em São Francisco do Sul.
FOLCLORE O oportunismo é a norma política: assim foi com a jogada de Alvaro Dias, tanto no ‘‘acordo branco’’ quanto na prensa para que os deputados estaduais do PSDB assinassem a CPI das Drogas. PTB, PPB e outros partidos da base aliada estão de olho na vice de Cassio ou na de Requião, quando jogam com o PMDB. Engov urgente. Aliás, o que é ‘‘genérico’’ e ‘‘fantasia’’ em política?
CROMO Como pode essa geometria radical dos cristais e da rosa unir tanto a racionalidade à poesia?
AFORÍSTICO Fujimori vai ganhar a eleição no Peru. Isso é a prova radical de que nosso tempo é, por natureza, anti-heróico: apenas na ficção o Silvana e o Pinguim levam a pior diante do Capitão Marvel e do Batman.

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