Fantasmas, por onde andam?
A propaganda da energia elétrica, principalmente das estrangeiras que agora retornam ao pedaço com gula dobrada, tentava mostrar que a iluminação punha fim ao imaginário tenebroso do brasileiro como o saci pererê, o menino do pastoreio (aquele que achava as coisas perdidas, o responso), o curupira com seus pés tortos para confundir caçadores e proteger melhor as matas.
Colonizadores são muito vivos e se valem dos símbolos e ícones dos colonizados para mantê-los dependentes. Mas há algumas figuras admiráveis do nosso imaginário que eles não conseguem capturar. Quanto mais regionais esses duendes, a obra de manipulação se torna mais difícil. Por exemplo: o lendário ‘‘homem da bicicleta’’ de Curitiba, que atacava as donzelas, carregava-as para lugares ermos e ocultava-as de tal forma que jamais retornavam, talvez dominadas pelos desconhecidos sortilégios. Era um tempo ainda de pouquíssimos automóveis (fordeco bigode, ramona) e ainda de bastante tração animal (as carroças, vitórias, caleças) e a bicicleta era a modernidade. Pois a estranha figura aparecia quando se esperava e dava sumiço nas garotas. O que fazia com as mocinhas, os ciganos – dizia-se – faziam com as crianças, o que não passava certamente de um preconceito dissimulado.
Há fantasmas locais e os que pertencem ao inconsciente coletivo, alguns deles universalizados. O ‘‘homem da capa preta’’, o lobisomem, são da lista. O mundo mudou tanto que é uma raridade localizar casa mal-assombrada. Curitiba já teve algumas que, por causa dos fantasmas (na Inglaterra é fator de valorização), tinham dificuldades notórias para venda ou aluguel. Na casa em que nasci, em Paranaguá, os fantasmas eram inquilinos respeitados, olhados com normalidade: padres, seminaristas, bispos, soldados e oficiais da Guarda Nacional. A naturalidade era tanta que muitas vezes tive a impressão de que os invasores éramos nós, os que não viviam naquela dimensão ‘‘encantada’’.



FESTIVAIS
Quando Curitiba era ecológica de fato e havia abundância de espaços verdes não ocupados, o futebol de várzea era a alegria dos simples. Num dia, João Saldanha, numa entrevista na televisão, como se estivesse sobrevoado a Capital, descrevia, um a um, os campinhos usados para peladas. Alguns deles, como um que existia aqui perto da sucursal da ‘‘Folha’’, na Rua Mauá, era como um ovo. Outro com essas características, imediações do Cemitério Municipal, era o campo onde vi o Bibe, centro médio do Atlético dos anos quarenta, no meio da piasada a dar lições de marcação. Na Mauá, perto da Fábrica de Pianos Essenfelder (um familiar, o Fritz, foi quem trouxe a bola e o jogo para o nosso meio, início do século), havia um campinho sinuoso, onde vi dois craques dando lições: Alceu Zauer, o Aranha, craque do Ferroviário e o Miltinho, dos coxas, um ‘‘clown’’ que se diferenciava do Garrincha porque era malicioso e até maldoso, conduzindo a bola à cabeça por mais de cinco metros, ou nela sentando para debochar do adversário.
O ponto alto da várzea estava nos festivais. Quando ajudei junto com o João Mórmul, professor em Londrina, e o Ideni Ilione da Cruz, a montar a 3ª Divisão com suas três séries, o sistema se assentava na exploração do churrasquinho, da venda de cervejas, pelo clube mandante e havia ainda ‘‘gentilezas’’ como dedicar músicas do Vicente Celestino e do Orlando Silva às garotas, imitação da radiofonia, maior expressão da comunicação na época. O locutor enrolava a língua para empostar a voz e lançava o verbo no altofalante: ‘‘à mocinha de tranças e blusa vermelha, no gol dos fundos, é oferecida uma peça do repertório de Vicente Celestino, ‘Porta Aberta’, destaque do cancioneiro nacional.’’
Em todos os bairros havia festivais e mais as atrações corriqueiras, como pesca milagrosa, roleta e outros jogos. Isso não tem volta porque não há mais campos abertos, sem cercas ou bloqueios, em usufruto informal para o povo.
O cheiro forte do churrasco, o grito do bingo e no fundo a voz de Carlos Galhardo: ‘‘Beijando teus lindos cabelos// que a neve do tempo marcou// Eu vi nos teus olhos molhados...’’ Quem fazia 25 anos de casamento entoava essa, o que hoje seria caretice.

DOCE VIDA O fascínio pelo cinema gerou o cineclubismo, um deles funcionava na Biblioteca Pública, no qual fizemos um debate em torno do impacto provocado pelo filme de Federico Fellini, ‘‘A Doce Vida’’. Só a primeira sequência daquele helicóptero conduzindo o Jesus Trabalhador, de uns dois minutos, deu um pega em cima de significados parabólicos e metáforas de mais de uma hora. Lá estava mestre Lamartine Correa Lira, entre outros, fazendo revelações. Uma jovem, que simbolizava a pureza, ele apontou como um anjo não estético, mas teológico.
Do cinefórum, um muito bom se deu no Colégio Santa Maria em torno do filme neorealista ‘‘Umberto D’’, trajetória melancólica de um professor. Numa das cenas a câmera se concentra num canto da cozinha tomado por formigas. Logo os debatedores começam a garimpar significados metafóricos: uns se referiam ao desvanecimento espiritual, à passagem do tempo. O livreiro Aristides Vinholes, com estilo professoral e irreverente: ‘‘e que tal se partíssemos da idéia, só por hipótese, de que o diretor se referia simplesmente a formigas?’’
TEMPORÃO Tudo aqui, na Capital, chega bem depois: Clube dos Desquitados pintou aqui trinta anos depois que já encerrara seu ciclo no Rio e São Paulo; o clube das mulheres, em que rapazes de cuecas são bolinados, chegou muito depois de a novela da Globo tê-lo consagrado; um debate entre intelectuais sobre existencialismo ganhou tom de novidade quando Sartre já estava cego e Emilinha Borba, vinte anos, se referira ao existencialismo de Chiquita Bacana. Esse atraso deu a fama de ‘‘resistência’’ e o fundamento para os chamados lançamentos de marketing de inovações e produtos como praça-cobaia.
BOATO A ‘‘Boca Maldita’’ é a usina de boatos e contra-informação. Embora esteja advertido pela alocução latina ‘‘omnis definitio periculosa est’’ (toda definição é perigosa), Anfrísio Siqueira diz que o boato é o embrião da verdade quando circula muito. Uma paródia ágil de Goebbels, um gênio.

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