Luiz Geraldo Mazza




Sincronia atemporal
Uma situação curiosa está criada no andamento da novela ‘‘Terra Nostra’’: embora o cenário seja do final do século passado aos dois primeiros anos deste, quando se encerra a gestão de Campos Sales, percebe-se um ambiente assemelhado ao atual com a crise recessiva, o desemprego, fechamento de fábricas e de bancos, abertura ao capital estrangeiro, desaparecimento das referências do poder nacional. As aproximações são maiores do que os sinais de distância, posto que aquela fosse uma sociedade regida pelo café com leite e a política dos governadores, e a nossa mais complexa e com os contornos visíveis da ordem pós-industrial.
Essa convergência leva necessariamente ao debate do que está ocorrendo neste momento, pelo menos nos sinais sociais e econômicos do desemprego, falências e da crise-chave na cafeicultura, o fundamento maior daquele tempo e que entraria em outros ciclos de pânico até o ‘‘crack’’ da bolsa de Nova York em 29, seguido da inssurreição de 1930. Assim, portanto, sem forçar a cronologia, essas referências facilitam uma reflexão sobre os caminhos de agora, posto que a dependência hoje seja quase absoluta com o governo transformado em capataz do Fundo Monetário Internacional, o que pela escala de bilhões, está longe dos acertos com a Casa Rothschild na Inglaterra, de rolagem da dívida anterior.
Vemos hoje um governo jogando para a assistência (credores, o consenso de Washington), o que está nítido no caso do salário mínimo, no ritmo lento de ‘‘desengessamento’’ da economia, e um povo sob essas amarras. Naquele tempo ao menos havia greves, hoje muito limitadas por fatores conjunturais e técnicas dissuasórias como essa que ameaça os professores do Paraná, de pagarem multas de até R$ 100 mil por dia em casos de invasão de órgãos públicos, o mesmo arsenal que quebrou a espinha e a arrogância dos petroleiros no primeiro período de Fernando Henrique Cardoso.
Naquele tempo havia mais utopias e dentro em pouco haveria a Revolução dos Sovietes. Hoje o horizonte se afunila, não há lugar para quimeras e se a visão é de que a história se repete, mesmo sob aspecto de farsa, como proclama Marx, dá a impressão de que agora é bem pior e os espaços para o voluntarismo, normalmente regressivo, se estreitaram, radicalmente.

BIZARRICE
Hamlet, em Curitiba ou em Londrina, tanto faz, poderia dizer: ‘‘Há algo de muito podre neste reino.’’ E não seria nada teatral.

AXIOMA A família que governa unida, assim permanece quando denunciada ou perde a linha e começa a ‘‘entregação’’ como no caso da Nicéa Pitta?
GLOSA Qual a pior das dependências: a dos tóxicos, no plano individual, ou a do país diante do FMI? Não se sabe para qual delas a cura é mais fácil.
EPIGRAMA Bastou um conselheiro sugerir ao governo que tivesse mais brio para que o seu Departamento de Compras providenciasse uma tonelada de Bom-Bril.
EUFORIA Nossa polícia não está assim tão ruim quanto se sugere: na de São Paulo, por exemplo, há 1.600 denunciados; aqui não se chega nem a 10% disso.
Ou enxergamos mal ou os paulistas enxergam demais.
ANALOGIA Na hora do ‘‘pico’’ não há a menor diferença entre um biarticulado de Curitiba e um daqueles vagões de trens da Central do Rio. Só falta em nosso caso o ‘‘skatista’’ em cima do ônibus.
SLOGAN Na campanha de Lerner, tanto a primeira como a segunda, falou-se muito em ‘‘Novos Caminhos’’. A alegoria poderia referir-se ao pedágio, os únicos sinais de caminhos novos visíveis. De novos mesmo o que impressiona são os ‘‘descaminhos’’, como os revelados pela CPI das Drogas.
SPRAY Depois do prefeito de Londrina, Antonio Belinati, foi a vez de a vice-governadora ser ouvida pelo Ministério Público. As instituições funcionam, mas se dependesse do poder político (Assembléia e Câmara Municipal), nada disso estaria ocorrendo.- Como é bem possível que o maior eleitor do governo, por motivos óbvios, não dispute a Prefeitura de Londrina, o disponível no momento, sem a densidade eleitoral de Belinati, seria José Tavares, da Segurança, que se souber explorar o momento, como o Padre Roque faz na CPI das Drogas, acaba com boas chances de emplacar.- Tavares leva ainda outra vantagem: o baixinho da Kaiser, que volta com toda a força na guerra das cervejas, pode ajudá-lo pelo ‘‘merchandising’’.- O desafio é não apenas capturar o Noronha, que com suas entrevistas arma um plano de defesa, típico de advogado, mas criar um clima de contenção nos desvios de conduta e devassa dos núcleos vinculados ao crime organizado. Já seria um avanço, oxigênio.- Quem pioneiramente falou no filho de FHC, fora do casamento, foi o senador Roberto Requião, lembrando que o brasileiro será abandonado como o Tomaz, que mora com a mãe em Barcelona. Pois agora a revista ‘‘Caros Amigos’’ faz mega-reportagem sobre o tema. Um tipo de jornalismo de qualidade discutível, mas desmistificador. Todos os que enfrentaram problemas semelhantes como o nosso Álvaro Dias encararam, da mesma forma que Collor e João Goulart, a situação.- Se sair antecipação dos royalties de Itaipu, o dinheiro não irá para a ParanaPrevidência, como se sabe, pois há muito o governo não faz o repasse, e sim para pagar funcionalismo.- Pode também ter um custo pesado o próximo empréstimo: ações da Copel, na base de 20%.- Como dizia o Álvaro Dias francês ‘‘depois de mim, o dilúvio.’’-
FOLCLORE Um novo apelido está sendo dado a Maurício e Eduardo Requião, por suas disposições de enfrentar o pleito municipal, ‘‘Os Irmãos Coragem’’.
CROMO O tempo pretérito já se convencionou em semiótica em ajustá-lo ao quase dourado sépia e por que o presente se mostra assim tão marron?
AFORÍSTICO Duplas de sucesso na política Belinati e Janene, Lerner e Requião, Antonio Carlos Magalhães e Jáder Barbalho. Que saudades, aqui no Paraná, das brigas do norte pioneiro do saudoso Gabriel Manoel com seus adversários. Eram bem mais engraçadas e saudáveis.

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