Luiz Geraldo Mazza




O sonho da poliarquia
O governo de muitos é o sonho extremo da democracia radical, da cidadania ativa. É a poliarquia, que de certa forma foi admitida na Constituição de 88 com a admissibilidade da democracia direta, matéria obviamente não regulada, mas que se atinge na evolução do processo político e cultural.
Antes foi Londrina e ontem Curitiba. No Norte, o fervor da cidadania levou à devassa nas transas das autarquias. No Sul, a pressão da sociedade, através da OAB, da Igreja, MST, Ongs, mostrou, ontem, aos deputados, que se as CPIs ‘‘laranja’’ não derem caldo bom, tudo vai azedar.
Aparentemente, a democracia formal se diz também ou age como o governo de muitos, o que não é verdadeiro, como se vê até pelo grau de corrupção institucional, o que tem a ver com os poderes formais e não o povo. Órgãos como o Tribunal de Contas e a Comissão de Tomada de Contas da Câmara dos Vereadores seriam suficientes para o caso de Londrina? Não. É preciso uma sociedade atuante para que o seu ‘‘ombudsman’’, o Ministério Público, funcione para valer.
Londrina, sociedade fechada politicamente para o conflito pela forma como o burgomestre e sua aliança a dominam, reproduz em plano menor o que se dá no Paraná. A mobilização de dezenas de entidades foi facilitada exatamente por causa dessa proximidade entre o eleitor e o poder, o que em Curitiba e no Paraná, de um modo geral, é mais complexo.
O poder mais oculta do que revela: o caso londrinense e o das drogas o demonstram. Partilhar esse poder na marra, valendo-se inclusive da resistência civil (o pedágio é um desses desafios), é imposição civilizatória.

AFORÍSTICO
Falta de esperança é você chegar à conclusão de que mudar o governo pela oposição seria mil vezes pior.

AXIOMA Nós, os eleitores, somos mais ‘‘laranjas’’ do que os deputados. Os que esbravejam na oposição porque levaram um golpe, um contramuquim da situação, com a história das CPIs, faziam a mesma coisa quando governo. Portanto, os dois lados merecem repúdio igual.
A propósito: até hoje alguma CPI estadual funcionou? Claro que não e essas vão ser instaladas justamente para não funcionar.
GLOSA O curioso é que todos os calhordas brasileiros, que se empolgaram com a tal da globalização (privatização, desnacionalização), só perceberam a fria quando seu espaço começou a estreitar. Há quem preveja para muito cedo o fim das bolsas de valores nacionais e aqueles que se empurram, agitados, no leilão vão se sacudir, como todos nós, na fila do desemprego.
Quem acha uma inutilidade o mercado nacional de ações é o Peter Wall, chefe de estudos para mercados emergentes do Banco Mundial. Ele afirmou que nem todos os países precisam disso. Internet destruiu as bolsas de Nova Zelândia, Cingapura e Austrália. Nesta, só não acabaram com a bolsa dos cangurus.
BIZARRICE Por que Lula, ao aparecer no Jô Soares, foi de gravata e no júri do José Rainha estava desprovido do ornamento? Tanto num como noutro caso ganhou com a exposição. Só que no que apareceu menos (no júri), se saiu bem melhor até porque estava ao lado do aiatolá Stédile, o que conta pontos no radicalismo. Já na Globo, o público-alvo é mais sofisticado porque dorme tarde.
FOLCLORE Um deputado da situação, ao ser chamado de ‘‘laranja’’, chiou, dizendo que ele estava mais para grape-fruit e laranja baiana, daquelas de umbigo, do que para poncã ou mimosa. Era, enfim, um Senhor laranja.
INCIDENTE Caiu em minhas mãos, para identificar os figurantes, uma foto de sessão do Conselho de Justiça Militar no processo dos jornalistas nos anos de chumbo. Cícero Catani, que um dia foi chamado à atenção pelo auditor porque cortava as unhas enquanto ele falava, aparece, em primeiríssimo plano, dando uma tragada federal e soltando fumaça pelo nariz, o cigarro na mão direita. Todos de gravatinha (eu não apareço na foto), mas o Cícero fumando é folga demais para um tribunal de milicos.
SUCATA Milhares de automóveis degradados são postos em leilão pelo Detran e a revista ‘‘Paraná em Páginas’’ alerta para a inutilidade do procedimento, que acaba favorecendo os desmanches na ‘‘reprodução’’ de peças e meios de esquentar documentação.
A observação vem a propósito de um comentário do secretário de Segurança de que as safanagens passam pelo Detran, o que parece óbvio demais, e com apoio em servidores públicos.
Dentro em pouco será mais difícil descobrir o que no setor público não está envolvido em maroteiras. A sociedade está doente e cataplasma não resolve.
SPRAY Os ‘‘judiciários’’ foram tolerantes demais com a reposição ganha há cinco anos e empurrada pela barriga, mais pelo governo do que pelo Judiciário. Só que a esse cabe o ato de determinar a implantação em folha dos 53,06%. - O Executivo pressiona o TJ alegando a inexistência de recursos e a esse cabe a tarefa de ‘‘disciplinador’’ para punir a greve, sob o fundamento de que tal direito, consagrado na Constituição Federal, não é auto-aplicável e depende de lei complementar, razão pela qual a ‘‘parede’’ é ilegal. - À época em que a reposição foi ganha, o Executivo pagou uma vantagem obtida pelos juízes com a maior presteza. Como agiria rapidamente em favor de deputados e de conselheiros do Tribunal de Contas. - O nó impossível de desatar (o górdio era brincadeira em relação a esse) é o financeiro. O Estado ‘‘quebrou’’ e não sabe como pagar o funcionalismo em abril. Essa busca dos ‘‘royalties’’ não tem nada a ver com a capitalização do ParanaPrevidência, já que o governo não está repassando os descontos para esse fim, mas colocando tais recursos no ‘‘bolo’’ geral, ainda mais agora que está proibido de antecipar receitas, para atender pelo menos à folha. - O desequilíbrio, que levou ao parcelamento das férias, veio em função do 13º. Se não dá para pagar a folha, imaginem ela ampliada com aumento aos professores (os que mais receberam até agora) e ainda o atendimento desse ganho judicial dos servidores do Judiciário. - Greves, por mais bem-feitas, não terão resultados concretos, e quanto mais demoradas pior será. A do Banestado foi atendida porque o estabelecimento é um cadáver insepulto à espera de um taxidermista para justificar o leilão.
CROMO Que bom seria que sigilo de governo fosse puro como segredo de criança.

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