É impossível uma nação, um partido político sem mística. Por isso mesmo temos nação e simulacros de partidos políticos, à exceção dos nanicos ideológicos e do PT. Da mesma forma que jamais se consolidou a visão ‘‘social democrata’’, autodeclarada no título, do PSD e do PDS, dificilmente tal se dará com o PSDB, cada vez mais fisiológico e mais parecido com o PMDB que é a escala, a via, para chegar no balofo PFL.
Do PT se pode dizer tudo, menos que não tenha mística. É o que lhe sobra até mesmo pelo excesso de facções internas, o que não é novidade, pois no Partido Socialista francês, hoje no poder, há centenas de tendências que vão do marxismo aos utopistas até os liberais radicais, estes bem próximos dos anarquistas e dos defensores da autogestão generalizada.
Mas e a mística do Paraná? Essa badalada nos institucionais do governo, que vão do ‘‘Todos somos uma só força’’ de Ney Braga, passando pelo ‘‘Paraná, 2º Estado do Brasil’’ de Paulo Pimentel, até chegar no ‘‘Terra de todas as gentes’’ e mais o ‘‘Brasil que está dando certo’’ do Requião a esse gongórico ‘‘Transformação que a gente v꒒ de Lerner e que lembra o oásis imaginário do deserto produzido pela ansiedade e a ilusão de ótica. Onde, conforme a anedota velha, o soldado da Legião Estrangeira no deserto abraça a camela e a chama de Brigite Bardot.
A dosagem de ufanismo tem sido extrema com o que alimentamos autoestima e perdemos capacidade crítica, resvalando para o conformismo, tal a violência com que os meios de comunicação têm se dedicado à manipulação, empenho, aliás, de todos os governos como o ‘‘Paraná Maior’’ de Lupion. Com o rebuscamento da informação, a pressão se tornou intolerável e operou na contramão da democracia que mal recuperamos com as eleições livres, ainda insuficientes para mostrar a incompatibilidade invencível entre essa deformação e a liberdade.
Houvesse um sentimento forte nessa direção nem o governo se mostraria tão frágil no desafio do bloqueio senatorial e muito menos os senadores da terra ousariam assumir a posição que adotaram, mesmo que a fundamentassem em razões não políticas. Foi, no entanto, o conformismo, subjacente a toda pregação triunfalista, o responsável por tudo isso. Um mínimo de sentimento regional seria suficiente para uma explosão de cólera que levaria os senadores ao recuo por não terem como sustentar, a longo prazo, tal controvérsia.
A decisão da CAE, relativamente ao veto aos R$ 3 bilhões do Banerj, socorre o bloqueio, mas não justifica o tratamento diferenciado para São Paulo e o Rio Grande do Sul. De qualquer modo, ela estabelece um novo parâmetro na forma de apreciar gastos públicos e que se complementaria se se exigisse, desde logo, todos os protocolos firmados com as montadoras em todas as regiões para que não perdurasse a sensação de discriminação.
BIZARRICEO senador Ivo de Aquino faz uma visita a Munhoz da Rocha no Palácio São Francisco, sede do governo. Sou escalado, como redator, para registrar o encontro em sala especial. O guarda-costas do governo, Francisco de Castro, Chico Gato, me achava subversivo e vivia me espreitando na rua e também quando pintava no palácio. Ficou lá fora, angustiado. De repente, o Miló Fogiatto vai acionar o flash e este explode. O Chico entra na sala esbaforido como se tivesse ocorrido um atentado. Chegou tarde: a lâmpada estava em cacos.
DIA DAmanhã - há pelo menos esperança nesse sentido - pode ser o dia ‘‘D’’ das reivindicações paranaenses no Senado, véspera da reunião da CAE, Comissão de Assuntos Econômicos. Pretende-se que o presidente José Serra atenda ao pleito da Comissão Executiva da Câmara Alta e inclua o feito na pauta com a urgência que o assunto reclama.
Há quem imagine (haja esperança) um ritual parecido com aquele do caso do Atlético Paranaense, cuja mobilização foi mais eficiente do que a dos coxas Jaime Lerner e Cássio Taniguchi nessa questão dos empréstimos.
ELEIÇÕESHá decisão do STF contra as eleições diretas nas escolas pelo fato de o direito do livre dispor (nomeação e exoneração) como prerrogativa do Executivo que não pode ser partilhada. Apesar disso, há farta movimentação voltada para esse objetivo e sob o fundamento de que os diretores das escolas podem pressionar nas outras eleições, as gerais.
O eleitoralismo foi uma das consequências do represamento institucional do regime militar. Bastava uma votação e ela depurava tudo. Hoje estamos vendo que eleição em escolas nada acrescenta em ganhos para a comunidade quando não existe a vinculação e o comprometimento da comunidade peri-escolar, vale dizer, Associação de Pais e Mestres.
FOLCLORESilva Té foi o maior orador universitário (da esquerda, é claro) dos anos 40. Era estudante de engenharia e acabava com os congressos da UPE com uma frase sarcástica ou uma entonação épica. Seu maior adversário, à direita, era o Paulo Ildefonso de Assunção (que foi brilhante promotor em Londrina) que apresentou proposição sugerindo que estudante pagasse meia passagem em ônibus. Surpreso com a proposta, que normalmente vinha dos populistas à esquerda, Silva Té apresentou emenda aditiva, sugerindo que estudantes pagassem a metade na hora do sepultamento. Paulo ficou louco da vida e disse que a emenda era irresponsável. E o Silva Té se explicou com seu tom nordestino: ‘‘Incrível que um defensor do primado do espírito não compreenda minha intenção. Eu, que sou agnóstico, vou mais longe do que ele que ao dar prioridade ao transporte durante a vida não cuida do transporte depois da morte!’’

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