Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Juízo Final permanente
Em distonia neurovegetativa crônica, suores nas mãos, como se estivesse saindo de um pesadelo, o governador Jaime Lerner vive aos sobressaltos e, ontem, interrompendo uma sessão do Legislativo estadual, fez-se uma convocação dramática, de última hora, para um encontro no Chapéu Pensador, aquele que tem o QI de uma tartaruga de trânsito. Daqui para a frente vai ser assim: acuado pelos acontecimentos, pressionado em sua base parlamentar (os aderentes de ocasião do PSDB estão coagidos pela cúpula para que assinem o pedido de CPI do Narcotráfico estadual), o governo se sente sob o Juízo Final, conquanto no terceiro andar do Palácio Iguaçu a ala escocesa continue achando que está tudo no melhor dos mundos, panglossianamente.
Enquanto tentavam isolar-se na casamata da reflexão, o uivo das multidões era o cenário das praças de pedágio. Como se havia previsto, a despeito da baixa manifestação das primeiras horas de anteontem, a rebelião dos caminhoneiros cresceu de forma assustadora e o cerco em Ponta Grossa, um dos mais relevantes entroncamentos rodoferroviários do Brasil meridional, levou aos inevitáveis choques diante da intervenção da Polícia Militar que se anunciava para a noite.
O governo acreditou que teria uma operação asséptica no momento da vigência dos novos valores do pedágio. Confiou que o simples fato de tudo estar lastreado em fundamentação jurídica a concessão de medidas cautelares impondo multas diárias a sindicatos que assumissem o bloqueio seria o suficiente para dissuadir manifestantes, tal como Fernando Henrique o obtivera no caso da greve dos petroleiros. Ocorre que aquela greve, a despeito do seu caráter obreiro, era repudiada pela população, especialmente pelas donas de casa que se revoltavam com a perspectiva de não poder abastecer seus fogões, hoje o bem mais universalizado do que rádio, tevê e geladeira, mesmo em casa de pobre. Já a rebeldia dos caminhoneiros conta com o apoio imediato da população que, escorchada pela cupidez fiscal do governo, não admite qualquer novo ônus e com muita razão, já que é esfolada pela antecipação do IPVA, por exemplo.
O Brasil mudou, o governo do Paraná, não. Continua o mesmo: acha que bloqueia a realidade com os apelos virtuais da propaganda, com a sistemática negativa de investigação do mais singelo dos seus atos, com a entronização da Caixa Preta; age, enfim, como se estivesse sob o regime militar, dada a facilidade com que manipula a maioria parlamentar que ontem abrigou no Chapéu Pensador. Quem criou essa novela do pedágio que a embale: primeiro cortou-a pela metade para reeleger-se e agora, como tem escassas perspectivas de se manter no poder, com a escalada negativa dos acontecimentos, aumenta a tarifa, sugerindo que a fixou em limites suportáveis.
Vai ter que assumir, de vez, a postura repressiva diante da rebeldia civil, recurso comum das sociedades liberais, menos grave do que as ações do MST, normalmente toleradas. E aí retorna à distonia, por lembrar-se que se elegeu explorando o massacre dos professores por Álvaro Dias. Este agora sorri com aquele ar indisfarçável de ator de telenovela, pois a bola da vez é outro.
GLOSA
Redundância é ver o governo Lerner usar bomba lacrimogênica quando o povo nunca chorou tanto quanto agora pelas besteiras eleitorais cometidas.
BIZARRICE O áulico do governo contestava a pesquisa que dava empate técnico entre Requião e Cássio Taniguchi, o primeiro com 30, o segundo com 31. E quando indicava o número de Cássio, a seu ver, mais de 40, foi lembrado que isso só poderia acontecer se se tratasse de febre. Termômetro, não Ibope.
AXIOMA Se a polícia, civil ou militar, pudesse revelar a mesma eficiência com as ações dissuasórias de ontem contra os caminhoneiros diante dos focos de vinculação com o crime organizado, tudo se depuraria em poucos dias.
EPIGRAMA Certa vez, antes ainda de ir para os Estados Unidos, o crítico Wilson Martins fez um minio-ensaio sobre ditos populares, aforismos, do Marquês de Maricá, devassando-lhes a vacuidade. Pois entre frases feitas e ditos aceitos como axiomáticos, há um que dançou nos últimos dias: Amor de Pitta é o amor que fica. Positivamente não é desse amor a que se refere o ditado rústico.
SPRAY Desde ontem ficou caracterizado que o governo Lerner, até aqui brando e tolerante, vai assumir uma necessária feição repressiva.- Dezenas de vezes foi testado em invasões de terras e de praças de pedágio e as enfrentou com medidas dissuasórias. A remoção do acampamento do Centro Cívico, reclamada pela esmagadora maioria da população, foi feita com muita categoria e extrema competência com um mínimo de baixas para as dimensões da operação.- Cenas de aguda violência marcaram, ontem, as ações da PM, monitoradas por seu comandante de um helicóptero, no posto Locatelli em Paranaguá.- Cai o nível de credibilidade, sobe o cassetete: isso vai ser inevitável, apesar de ontem, a marcha dos estudantes pedindo passe livre ter se dado sem bronca. Vão ter passe espírita e nada mais, porque senão a tarifa explode nas costas do trabalhador. -
FOLCLORE Censura é burrice: você corta uma nota e ela reaparece, como se rebatizada fosse, em xerox. O óbvio ganha cintilações novas na fotocópia, parece mais verdadeira, mesmo que não o seja. Lembro das burrices da censura do regime militar: comia o pau no Vale da Ribeira com as ações do Lamarca, e aparece uma notinha proibitiva do Ministério da Justiça, pedindo para que não se divulgasse a queda de uma torre de TV no entrevero guerrilheiro. E assim sabíamos do que estava acontecendo e não poderia ser divulgado.
CROMO Se a pedra pulsa, a radioatividade o demonstra, não é inerte e nem deve ser oposta à flor. Drummond repetia que havia uma delas no caminho.
AFORÍSTICO A vitória do governo em Curitiba depende da covardia da oposição. Quanto mais pusilânime for, maior a chance de o governo. Que esse tem coragem sabemos, e como isso funciona!





