Luiz Geraldo Mazza
A ceia maldita
Há a Santa Ceia, aquela em que Judas Iscariotes entregou Jesus. Agora consta que teria havido uma ceia maldita na casa do ex-delegado João Ricardo Képes Noronha na Região Metropolitana, a qual estaria presente o então secretário Cândido Martins de Oliveira. Não era bem uma ceia como a sagrada, na qual não se pode imaginar, nem por excesso de abstração, um Mateus comendo uma picanha, Pedro às voltas com maminha, Marcos trinchando um leitão pururuca, Lucas traçando uma ponta de costela com a mesma gula do Sicupira. Afinal, olhe-se qualquer quadro da cena, seja um clássico europeu ou nosso Portinari, que a enfocou com o fundo da baia de Guanabara, e perceber-se-á o traço marcante de frugalidade, talvez para preservar a santidade, ainda que se diga à boca pequena que tanto Santo Agostinho quanto São Tomaz de Aquino eram comilões, quase no padrão do falecido Aníbal Khury.
O fato é que um deputado da oposição, Nereu Moura, assumiu a denúncia feita por alguém que deseja manter-se, obviamente, no anonimato para não virar, de uma hora para outra, em presunto, segundo seus receios. Como, porém, o denunciante não aparece nem encapuzado dá-se um desconto maior do que aquele da Ana Paula Arósio, sugerindo que se faça um 21. Essa a fragilidade das matérias de prova da CPI, a qual se juntará esse suposto encontro numa chácara de Campo Magro que depois do churrasco virou Campo Gordo que, se verdadeiro fosse, enquadraria a todos os presentes com mais delitos, entre eles o de obstrução da justiça, mais prevaricação etc.
Para compensar essa precariedade, tivemos o testemunho da Shirley de que a voz da fita que nega o seu depoimento à CPI não é dela, pois confirma tudo o que disse e que não teria negociado diminuição de pena com deputados. Como se vê só falta o Inspetor Clouseau para dar finesse ao espetáculo.
Fazer ironia ou gracinha é o possível quando tudo conduz ao ceticismo. Como o bravo Leônidas deve ter agido, no vale das Termópilas, quando os inimigos lhe disseram que suas setas eram tantas que encobririam a luz do sol: melhor, combateremos à sombra! É o que se está fazendo neste momento no Paraná: tudo se dá envolto nas sombras, o traço forte deste governo Caixa Preta. Sombras, quando muito espessas, são fantasmas. Os reais superam os da ficção.
FOLCLORE
Papelão, aliás apropriado ao legislativo estadual, o do deputado que assinou e depois riscou em cima o pedido da CPI das Drogas. Chico Noroeste pode alegar que a jurisprudência do caso Sercomtel-Copel o absolve.
Como lecionava aquele mestre de Teologia, Ética para quem gagueja é-ti-ti-ca, mais um caso de metalinguagem.
BIZARRICE Entre representações do PFL que deram solidariedade (tardia) a Greca aparecem o PFL Jovem, PFL Mulher, PFL Trabalhista. Como diz Ricardo Prefeito são contradições em termos. Apesar da Roseana Sarney, o que marca o partido é o tom patriarcal de ACM, Bornhausen, Marco Maciel. Da mesma forma imaginar jovens pefelistas e trabalhistas, em que pese o Luis Antonio Medeiros, é simulacro demais. Logo teremos a ala cutista do PFL.
FÁBULA Acionado o fax da revista Paraná em Páginas. Candinho Gomes Chagas atende e de outro lado avisam que é um release. Candinho, com a fleugma de inglês que o caracteriza, adverte: Release, não; anúncio, sim!
Já com o governo aos veículos seria impossível boicotar o release. Não poucos jornais sairiam em branco. E esse como aquele outro nem sempre compensa com anúncio.
AXIOMA Por causa de uma diferença de R$ 99,72 houve um pedido de intervenção em Paranacity. O TJ julgou improcedente o pedido. Anos passados houve pedidos semelhantes por dívidas de R$ 50 e R$ 135. É o cúmulo do burocratismo.
GLOSA Desespero do governo para impedir a CPI das Drogas estadual, depois da 17ª assinatura, estava visível na presença de secretários no legislativo. Renato Aragão está condenado a viver no analista por estar com um terrível complexo de inferioridade. Basta lhe dar uma notícia do Paraná e é a crise.
SPRAY Quem esperava que o Cândido Martins de Oliveira fosse para o banco dos réus quase acertou: vai para o BRDE, uma espécie de estaleiro de políticos que saem do primeiro escalão. - Teria havido a oferta de outras secretarias como as de Justiça, Administração e Educação, segundo fontes que lhe são fiéis.- Já foi secretário-chefe da Casa Civil, da Educação e da Fundepar. - O BRDE é uma espécie de válvula de escape tradicional: Aldo Almeida saiu do Banestado e foi para lá. Carlos Araújo, da secretaria da Fazenda municipal, também acabou por lá. - Jocelito Canto é o próximo obstáculo de Lerner. Já lançou outdoors com a enigmática expressão Governador: queremos agradecer.... É um recado do prefeito de Ponta Grossa que terá a segunda fase. Se não forem dados os R$ 2,3 milhões do Paraná Urbano vem coisa fina no ventilador e em cima da campanha eleitoral. A ética de hoje é assim e por ela o grande responsável é o governo. - Como se não bastasse a bronca dos aposentados pelas taxações agora tem ainda a demora do ParanaPrevidência em atender os pedidos de inatividade. Milhares deles de 13 de dezembro estão até agora com embargo de gaveta. - Um esforço para reduzir o impacto negativo no caso das tabelas do pedágio está sendo estudado com cuidado. Os 116% dos carros de passeio perderão uns decimais, ocorrendo o mesmo com os 76% dos caminhões. Acoplado ao IPVA mais a quebra do governo, a mancha da corrupção, isso tudo dá bode eleitoral.
CROMO No caleidoscópio o jogo das formas e das cores se mostra mais lúdico do que aquelas geradas pelo ácido lisérgico. Como há lógica no discurso do louco também existe algo de cartesiano e sortilégio no lúdico.
AFORÍSTICO Nelson Justus, presidente da Assembléia, acha um absurdo o esqueleto do Fórum, mas não enxerga atrás de si o placar eletrônico, que custou os olhos da cara e não funciona.





