Luiz Geraldo Mazza
Reforma de meia-sola
Com a saída de Cândido Martins de Oliveira da Segurança ensaia-se uma reforma de meia-sola (como tudo, aliás, que por aqui acontece) no secretariado, prova a mais da fragilidade de quadros e rigidez dos envolvimentos até de natureza afetiva que limitam as ações de Lerner para alavancar um governo, cada vez mais, com ares de moribundo. Cândido deve ter pedido para sair e talvez até por aconselhamento de advogados que preparam sua defesa e também o seu ataque contra os que lhe imputaram vinculação ao crime organizado.
Cândido fez bem de afastar-se porque se dependesse de uma decisão de Jaime Lerner isso só aconteceria depois da novelesca formação dos fundos, então capitalizados, da ParanaPrevidência. Se é que isso vai acontecer algum dia com o bloqueio dos burocratas do Banco Central às costumeiras acrobacias dos governos estaduais com antecipação de receita e de ativos, como conceitua Giovani Gionédis, no caso específico dos royalties de Itaipu.
Parece incrível que um governo que detém pelo menos quatro auxiliares em condições de ocupar ministérios (Miguel Salomão, Lubomir Ficinski, Rafael Dely e Alex Beltrão) seja tão descompensado de quadros entre os 29 integrantes do primeiro escalão. É claro que conta com outras figuras qualificadas como as do próprio secretário-chefe da Casa Civil, Tato Taborda, e do secretário de Ciência e Tecnologia, Ramiro Wahrhatfig. Um componente da equipe que iniciava um trabalho de saneamento da pasta de Esporte e Turismo, Ney Leprevost, vai se afastar e anuncia-se como seu substituto o homem da Fundepar, Segismundo Morgenstern, que desenvolvia também o projeto da Universidade do Esporte, e que teve problemas na iniciativa privada na questão polêmica das Malas Ika.
Em casa que falta pão, todos brigam e têem razão diz o ditado clássico e isso parece aplicar-se ao governo estadual por estar rigorosamente quebrado e desesperado para evitar o atraso do pagamento do funcionalismo que deixaria bem clara a situação de insolvência e com sequelas políticas em ano eleitoral de difícil neutralização. O fechamento das torneiras, impondo bloqueio à via facilitada das antecipações de receita, é um fato novo que tira das mãos do oficialismo o exercício dessa peça de prestidigitação. Álvaro Dias volta e meia trata do assunto, mas não conta com moral para fazê-lo, já que em sua gestão recorreu, por três anos, à antecipação de receita, deixando de adotar essa postura no último ano para anunciar uma fantasiosa superação do déficit, trombeteada pela TV (Joelmir Beting) e transformada em peça eleitoral.
AFORÍSTICO
Será que o governo paranaense até aqui não fez como o Atlético no campeonato estadual ao botar para jogar o time de reservas?
BIZARRICE O ministro Rafael Greca, do Esporte e Turismo, saiu-se bem, ontem, numa entrevista na CBN. Maioria dos ouvintes em ligações o defendeu. Mas o homem das quadrinhas, Jota Carlos, que por mais de uma vez mostrou irritação com os Faróis do Saber versejou: Ministro que sois tão culto/ espalhai pela Nação/ imagens de um outro vulto:/ símbolos fálicos, não!/
AXIOMA O PMDB está se dividindo em tudo: o point dos mais simples é o bar do Ligeirinho, esquina da Carlos de Carvalho com Voluntários da Pátria, e dos mais bacanas o bar da Brahma, sofisticado, e da família Leprevost.
Por falar nisso, alguns comemoraram ontem a saideira do Candinho.
GLOSA Se o pedágio tiver mesmo 116% de aumento para carros de passeio Lerner vai ter uma idéia do que lhe aconteceria se não tivesse cortado a alta em 50% na busca da reeleição. Vai conhecer o golpe do bumerangue, talvez homenagem simbólica aos australianos e aos Jogos Olímpicos.
EPIGRAMA Homens públicos, em regra, são fiéis às esposas ou, em maioria, correm o risco da síndrome de Nicéa Pitta? Se as paredes de uma boate-mansão de Colombo falassem ia dar uma zoeira dos diabos.
SPRAY As páginas amarelas da Veja desta semana com a entrevista de David Landes, historiador ianque, restabeleceram a polêmica em torno da divisão entre norte e sul. - Acabou, embora fundado em razões acadêmicas, dizendo que o sul do país (claro que aí inclui o sudeste se não o nível de desenvolvimento mal passaria da Costa Rica, já que sem São Paulo as coisas minimalizam), se separado do norte, chegaria próximo dos países desenvolvidos. - Nazistóides, que se ligam no movimento O sul é o meu país, vão usar os argumentos para a defesa do racha, embora ligados mais em etnofobia, especialmente dirigida aos nossos irmãos nordestinos, do que em outras fundamentações. - O Claus Germer, petista engajadíssimo, ex-secretário de Agricultura do governo Richa, sofreu o diabo em cima de uma reflexão, descontextualizada por motivações ideológicas para incompatibilizá-lo. Isso foi usado por Fernando Collor nas agressões a Lula, o que fez, obviamente, Germer sofrer ainda mais com a vil exploração. - Vejamos se isso tem fundamento: unindo o sul e o sudeste (Minas, Rio, São Paulo, Espírito Santo) teríamos cerca de 80% da renda e do resultado das exportações. - A Alemanha, ao assumir o ônus da unificação, sofreu muito para incorporar o setor oriental, cujo parque industrial descurava-se de normas de proteção ambiental e detinha relativo atraso tecnológico. Taxas de desemprego ficaram em nível elevado. Raciocínio equivalente pode ser feito em relação ao Brasil. - O ritmo de ajuste do nordeste à modernidade é menor por motivação de ordem cultural (patriarcalismo) e econômica, tanto que capitais do sul para lá se deslocam (indústria calçadista e até a automobilística) pelas vantagens do salário mais baixo.
FOLCLORE No Paraná eram comuns movimentos seccionistas: ao norte a criação do Estado do Paranapanema oposto ao sul, chamado de Paranapamonha. Por aí se vê o nível de irracionalidade da colocação. Tal se repete com o Estado do Iguaçu que aventureiros defendiam no oeste e sudoeste.
CROMO Em que ponto do Rio Tibagi dorme seu sono de cristal o diamante? Tão difícil quanto saber em que ventre da ostra a pérola se oculta.





