Luiz Geraldo Mazza A hora do espanto Vivemos sob o signo das denúncias ao lado da ânsia de liberdade. Não há dia que não se registre algo de grave abrangendo as duas coisas: a denúncia, como no caso da CPI das Drogas ou no do libelo-acusatório da Nicéa Pitta, ou ações como a de sem-terra invadindo propriedades ou de manifestantes ocupando uma repartição, como se deu anteontem na secretaria de Administração, e fazendo, como se isso fosse legalmente admissível e democrático, centenas de reféns. O país está em anomia. O Brasil formal é insignificante ante o informal e ainda ontem a tevê relatava a pretensão do governo para ‘‘enquadrar’’ 16 milhões de trabalhadores do chamado mercado subterrâneo. O governo quer botar crachá nessa gente em sua volúpia tributária e burocrática, esquecendo que a informalidade não surge do acaso, mas da impossibilidade de sobreviver no cipoal tributário e regulamentador. A Itália passou por isso e superou com duas coisas inexistentes neste momento: democracia verdadeira e economia com liberdade e força para o desenvolvimento. E ela encarou dois obstáculos da pesada, tão ou mais do que a conexão entre polícia e crime organizado, na luta contra a Máfia, até hoje sustentada, e o terror das brigadas vermelhas. Anomia é algo presente em tudo: na invasão das terras e de órgãos públicos, na indiferença da autoridade, no ‘‘laissez faire’’ para o crime e a fraude, na dissimulação permanente para fingir vitalidade institucional. Da mesma forma que se tenta botar crachá no trabalhador informal acredita-se que com uma lei, a da mordaça, se ponha fim aos abusos do denuncismo e espalhafato de policiais, juízes e promotores. Ora isso tudo depende do processo civilizatório, da sedimentação de todos os acertos e exageros no esforço para deixar a vida mais transparente, e não de uma lei como se essa pudesse revogar costumes enraizados. A algaravia, que aí está, para uma sociedade autoritária e fascistóide como a nossa, tem seus efeitos secundários calamitosos, mas não deixa de ser um remédio. Do exagero chegaremos a um ponto de equilíbrio, que não deixe ninguém sem defesa e que, de outro lado, não garanta a sobrevivência da impunidade. EPIGRAMA Piadinha futebolística: o coxa teria contratado um atacante matador, argentino, ex-motorista das linhas de ônibus entre Córdoba e Camboriú. BIZARRICE Lerner defendeu Greca quando ele já estava entrando na frigideira e até começava a ‘‘corar’’. AXIOMA Uma casa de chácara na Barreirinha pegou fogo no ano passado e a perícia emitiu laudo em 13 de janeiro que o fato era de origem criminosa. Até hoje não foi aberto o respectivo inquérito. Conclusão: se a estrutura de poder é desorganizada, lenta, desidiosa, não há por que estranhar-se que o crime acabe se estruturando de forma quase perfeita. GLOSA Especulava-se ontem que Cândido Martins de Oliveira poderia retornar ao Tribunal de Contas com o que pouparia o governador da briga de foice em quarto escuro pela vaga disponível. Juristas e exegetas diziam ser possível. SPRAY O governo paranaense tem uma ficha excelente (não apenas deste período) junto a organismos financeiros internacionais. Agora começa correr riscos de máculas, a primeira já houve com o Prosan e o canal extravasor; na Sanepar há no momento grave denúncia de concessão a Itajui de uma obra de US$ 30 milhões quando tal empresa foi considerada inidônea em parecer formal de 1995. - ‘‘Dossiê Pelicano’’ do advogado Hugo Ramos de Oliveira é um complemento a suas declarações à CPI das Drogas. Metralhadora giratória, assegura que o crime organizado teria chegado ao cartório da Vara da Central de Inquéritos e não propriamente ao Ministério Público estadual, como registrei. - A peça é confusa e contundente e atribui a um escritório de advocacia façanhas rocambolescas como sequestros. Liga também os caça-níqueis ao crime organizado e em tudo fala de aliança com políticos e a polícia. - O Ministério Público aguarda a degravação do depoimento de Oliveira (processada em Brasília) e a remessa das denúncias complementares para que se tomem as providências de praxe. - Reunião do PDT, semana passada, no encerramento de cursos de doutrina, teve uma surpresa quando o militante Osvaldo Buskey, considerando que a candidatura de Eduardo Requião pode não se consumar se um dos seus irmãos for à disputa, lançou o seu nome para bate-chapa em convenção. - O partido, que já aceitava conformadamente a consumação da candidatura Eduardo Requião, tanto que a mantém nos programas eleitorais, vai ser obrigado a esse exercício de democracia, meio forçado. - Roberto Requião quer isso para o PMDB com a garantia, é lógico, da vitória do irmão Maurício que se ‘‘aqueceria’’ com uma disputa com o deputado federal Gustavo Fruet, uma vez que não teme surpresa. - Piada de mau gosto no meio do agito dos professores durante a ocupação da secretaria de Administração: a ausência do delegado Ricardo Noronha tirou de cena um dos mais hábeis profissionais para solução de sequestros. Na verdade sequestro mesmo é o do terço das férias do funcionalismo que quase deu cadeia para a secretária Maria Elisa, que já viu um revólver bem de pertinho em reunião do CRAFE e entre amigos. SILOGISMO Tudo o que se atribui agora ao Brasil achávamos perfeitamente normal que ocorressem na Colômbia, Bolívia, Paraguai, Equador. Estamos no tobogã. FOLCLORE Quando no PDT o Osvaldo Buskey lançou sua candidatura imediatamente os eduardistas lembraram que ele era um perdedor crônico de eleições. Eduardo Requião ainda não foi testado, mas o mano, Maurício, sem apoio oficial, já perdeu também. CROMO Hamlet denunciou que o odor no castelo de Elsinor rescendia a crime e traição. No Palácio Iguaçu, há meses, o cheiro é de ‘‘jasmim do cabo’’. AFORÍSTICO O PMDB faz campanha com assunto vencido: IPVA, aumento do ônibus e a dívida de Curitiba. E depois ainda indaga por que perde eleições. É que se especializou no vencido. ‘‘Voltar atrás nunca mais’’, lembram?

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