Luiz Geraldo Mazza A reversão difícil O governo tenta, pelas artes do marketing, retomar a ofensiva política. No momento a peça de resistência é a possibilidade de Los Angeles decalcar o nosso sistema de transporte urbano, desde que observada a respectiva escala. Se isso acontecesse, Jaime Lerner, e por extensão Cássio Taniguchi, ficariam na crista da onda por um feito que não poderia ser subestimado. Várias vezes anunciaram propostas equivalentes, como o havido em Nova York com as estações-tubo do ‘‘ligeirinho’’, e se a iniciativa não deu ‘‘xabu’’ pelo menos até agora não implementada, ainda que referida por cientistas americanos. Mas se há esse crédito, a listagem dos débitos não cessa de aumentar. Ontem o secretário da Fazenda, Giovani Gionédis, não muito qualificado, sob o aspecto doutrinário, para essas missões, teve que se explicar no Banco Central sobre as antecipações de receita obtidas junto à Petrobrás, interpretada por setores mais radicais como uma quebra, indiretamente pelo menos, dos termos da renegociação das dívidas estaduais com o governo federal. Aí novamente o mais qualificado seria Miguel Salomão, oriundo do Banco Central e, além disso, consultor do FMI, tanto que instituía esse órgão de controle em Angola quando Lerner o convidou para assumir a pasta fazendária. É verdade que o governo mostra vitalidade ao apresentar a sua defesa no pleito de São Paulo junto ao STF que acusa o Paraná de se valer da guerra fiscal para atrair empresas. Inegável, no entanto, que a gestão atual quebrou o Estado e detonou um modelo de gestão financeira (claro que assentado na inflação e na correção do fluxo de caixa que ela possibilitava) que garantia o equilíbrio orçamentário. Nesse aspecto o governo atual é uma lástima face ao acúmulo de déficits que vem registrando ano e ano, o que não tem sido forte o suficiente para controlar a desbragada prodigalidade, delinquente até, para o quadro de dificuldades que estamos vivendo. Não bastasse esse front há ainda o da corrupção institucionalizada tanto nas denúncias da CPI das Drogas como nos desdobramentos da cloaca de Londrina, que vaza e empesta o ambiente com os seus miasmas intoleráveis. E como se tudo isso não bastasse ainda temos o cerco do noticiário nacional sobre as façanhas do nosso ministro do Esporte e Turismo, Rafael Greca. A impressão que se tem é que o Paraná está doente e para cada notícia positiva (a briga por um perfil diferenciado de sua economia, a disposição de manter uma queda de braços com São Paulo, a iniciativa de criar o ParanaPrevidência, a exportação dos nossos modelos urbanísticos como o do transporte urbano para Los Angeles) há pelo menos vinte no disparo, cada uma bem mais dilacerante que a outra. BIZARRICE Na casa do Celso, a Nicéa pita. AXIOMA O Brasil é uma Lagoa Rodrigo de Freitas gigante, a cloaca máxima? GLOSA Três anos depois da CPI dos Precatórios, só agora vai se completar o julgamento de Celso Pitta, prefeito de São Paulo. Desregramentos do governo Álvaro Dias no Banestado só agora são examinados no Ministério Público. Os de Requião e de Lerner demorarão décadas. EM FAMÍLIA A delegada adjunta de União da Vitória, Maria de Fátima Crovador, irmã da viúva (Vera Lúcia) do advogado assassinado Luis Renato Crovador acusa o delegado Clóvis Galvão de haver mentido em juízo, o que ele nega. Mas são desdobramentos de fatos não aprofundados na CPI das Drogas, uma vez que houve a denúncia de que Luis Renato Crovador sabia que seria assassinado, o que confessou ao advogado Hugo Ramos de Oliveira que tem escritório à frente do ocupado pelo criminalista assassinado. Maria de Fátima diz, ainda, que tanto o delegado Fauze Salmen, da Homicídios, como Mário Ramos e Clóvis Galvão negaram que Vera Lúcia estivesse no Cope, em que foi mantida presa. Crovador trabalhava para donos de desmanches e essa conexão é constantemente ressaltada nos depoimentos na CPI. Os delegados acusados sugeriram a Mária de Fátima que não ficava bem para ela, sob o ponto de vista funcional, a permanência no Cope pela circunstância de a irmã estar sendo incriminada. EPIGRAMA A posição atual do ministro Rafael Greca é como a de goleiro na hora do pênalty ou na de um defensor na barreira, de frente para o atacante, numa cobrança do Roberto Carlos? SPRAY Tanto São Paulo na defesa de Pitta, quanto Londrina na de Belinati, se valem de um argumento pesado: maioria legislativa como dique para conter a ressaca de indignação.- Também, no Paraná, a maioria do legislativo estadual busca dar cobertura a tudo o que o governo pretende. Tanto que recuou na CPI do complexo Sercomtel-Copel-Banco FonteCindam, embora correndo o risco das insinuações, colocadas em juízo, de que isso implicou em distribuição de mais de R$ 3 milhões pelo mesmo esquema de obras não realizadas.- Há quem esteja lembrando do Paes Mendonça, o homem de Mombaça, quando vê o tom festeiro que o deputado Nelson Justus, presidente do Legislativo, dá às suas incursões ao interior. Andar em trio elétrico em Guaratuba, no Carnaval, tudo bem; mas usar batedores no interior é exagero.- Deputados estaduais estão querendo ter parte (ponderável) na reforma secretarial. Normalmente estão mais para sectários do que para secretários.- O PMDB tenta a ressurreição com a fase negra do governo e os dez diretórios zonais pediram a queda do Candinho. A ‘‘zona’’, no entanto, não é assim tão hostil ao governo.- FOLCLORE Requião anda cobrando mais firmeza dos meios de comunicação e querendo pautá-los para entrevistar Lerner sobre o envolvimento da polícia com o narcotráfico. Curioso, o senador, pois ajudou a manter essa cumplicidade da comunicação, quando governador, ao ponto de escrever artigos em quase todos os jornais e fazer programas duas vezes por semana nas rádios e tevês. Não está em condições de cobrar, pois nesse aspecto foi mais longe do que Lerner que ao menos nos poupa de estar fazendo narcisismo jornalístico. CROMO O Rio Belém não nasce no Palácio Iguaçu, mas parece dele derivar. AFORÍSTICO Se desse a Greca a solidariedade que oferece a Cândido, haveria justiça distributiva, em apoio político, no governo paranaense.

mockup