Ontem quase tivemos uma cena do regime militar no Ipardes: pela manhã, a direção daquele organismo, em momento de má inspiração, havia decidido vetar o número 89 da Revista Paranaense de Desenvolvimento, publicação da casa com receptividade nos meios técnicos e acadêmicos. A razão arguida por Paulo Mello Garcias, o dirigente, era a de que um dos artigos de Igor Carneiro Leão fugia ao rigor técnico-científico e extrapolava para o campo da política no exame crítico do andamento do Plano Real.
A resistência dos técnicos do Ipardes foi imediata e o presidente acabou se convencendo que o lançamento da publicação poderia ser feito normalmente, como de fato aconteceu, no início da tarde no auditório 2, Ipardes/ Centro de Treinamento para o Desenvolvimento. É claro que mediadores vão aparecer para negar o episódio, mas obtive as informações, ainda pela manhã, do lamentável veto.
O Ipardes não pode ser um organismo confessional, ainda que vinculado ao governo, até para manter a tradição de respeito acadêmico que sabemos que só se mantém e se cultiva na luta e não na espera de que os depositários desse histórico, os ocupantes da direção, a encarnem e interpretem. Um dos campos mais importantes do embate democrático é o que se dá nos bastidores de órgãos que fazem ‘‘massa crítica’’ porque é um front distante do parlamento e muito próximo do governo.
Basta lembrar algo do passado: a corporação Copel, por seu gigantismo, era mais do que a menina dos olhos do governo (dos seus quadros saiam muitos dos secretários e pessoal do escalão de outras áreas) para ser a própria ‘‘cabeça’’. Tanto que ela assumiu, em lugar do órgão próprio, Ipardes, o comando das operações estatísticas e que viciaram severamente a previsão do Censo de 1980 para o qual se apontava 10 milhões de habitantes, o que não temos ainda e nem o teremos tão proximamente, no Paraná quando o resultado apontou pouco mais de 7 milhões e meio. Pois a previsão do Ipardes quase deu na ‘‘pinta’’, embora o governo preferisse a da mega-estatal.
Conflito interno no governo, nesse padrão, é uma necessidade, razão pela qual se deve aplaudir o recuo do Ipardes na questão do veto ensaiado e especialmente daqueles que reagiram em nome dos valores permanentes do sistema a que servem e onde a autocrítica e a crítica são componentes indispensáveis.
Num dos boletins recentes da Análise Conjuntural, que deu margem ao meu artigo de ontem e também à manchete do jornal, há indicadores e observações que se auto-explicam como críticas como a de que mais de 70% dos investimentos no Paraná se dirigem à Grande Curitiba e aquela em que dá pouco mais de 20 mil empregos, entre diretos e indiretos, com a vinda das montadoras, o que está muito distante do número de Lerner que chegava nos 50 mil. Esquiar na maionese não é apenas um vício do nosso governador, pois seus antecessores incidiam no mesmo equívoco triunfalista de superestimar o ganho e subestimar perdas.
BIZARRICE O governo paranaense não tem mística. O Atlético tem. Tanto que sua causa foi melhor recebida nos meios políticos do que a queixa sobre o bloqueio dos empréstimos no Senado. A camisa paranaense não se veste por amor?
OPOSIÇÃO A pobreza de imaginação dos oposicionistas do Paraná é proverbial. Agora resolveu importar gaúchos e catarinenses, estes representados pelo Vilson Kleinubing, senador, que disse que seríamos a Meca da lavagem de grana na questão dos precatórios. Dos gaúchos veio a contribuição de um deputado do PT (Flávio Koutzi) que falou sobre as concessões à General Motors que supõe serem semelhantes às feitas no Paraná. Vejam o absurdo: o Paraná tem dívida imobiliária de R$ 403 milhões, uma bagatela se comparada com os R$ 1,5 bilhão que os catarinas devem e R$ 6,7 bilhões da gauchada. Quem fez a dívida de Santa Catarina? Os dois senadores, Kleinubing e Espiridião Amin, e que deitam e rolam na CPI dos Precatórios.
O Paraná perde a autoestima seguidamente e a oposição incompetente faz o jogo dos que nos prejudicam. Exportam burrice e importam leviandade.
SPRAY Situação financeira da Prefeitura de Curitiba, herdada de Greca, é grave e está explicada na ARO (Antecipação de Receita Orçamentária) de R$ 50 milhões feita em março. Reina, aliás, mistério, pois não se sabe com que banco e em que condições foi feita (taxa e prazo).- Câmara deve tomar cautela com relação à liberação para que se autorize créditos de até 15% da Lei de Meios na Lei de Diretrizes Orçamentárias. Num orçamento de um bilhão e 200 milhões já é forte, imagine-se no do exercício de 98 que deve passar de um bi e 300.- O IPMC está parecido com o IPE, isso é na UTI. Prefeitura, como se dá no governo estadual, não fez os repasses de 95 e 96 (tempos das filigranas) e não há como acertar uma conta de R$ 23 milhões. Se o Rafael pegasse uma parada dessas quando assumiu o governo ficaria quieto com esse silêncio de ninja do Taniguchi?.- Por falar em importação política, o PT paranaense preferiu o pessoal de Brasília para o seu curso de formação. É melhor de qualquer jeito do que fazer a linha auxiliar de Requião, aliás adotada não apenas para consumo interno.-
FOLCLORE Oposição fez um farol ontem em cima do Judiciário como se fosse de seu estilo prestigiá-lo quando apoiou a carga de Requião durante toda a sua gestão em cima dos magistrados para constrangê-los ao mostrar supostas preocupações com o contrato da Renault. É o roto rindo do remendado. Quanto à CPI do Rossoni para investigar o passado, sugere-se que no caso do negócio das ovelhas se ouça o depoimento do ‘chupa-cabras’ de Campina Grande do Sul.

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