O silvo da panela
Em 1995, segundo os integrantes da Promotoria de Investigações Criminais, houve o silvo da panela de pressão relativamente ao envolvimento da Polícia com a malha do crime organizado. Isso se deu praticamente no início do governo Lerner e, portanto, detinha raízes em gestões anteriores. O que tira a Requião e seus antecessores força moral para sugerir que em suas administrações isso não existia. Ao contrário, estava mais oculto, até por uma questão de escala, do que agora, quando as coisas se ajustam a um clima kafkiano ou de Yonesco, tal o absurdo da subversão engendrada.
O procurador de Justiça, Gilberto Giacóia, confirmou a entrega do dossiê ao então secretário Rubens Tanure, oriundo da Polícia Federal. Ora, se Cândido Martins de Oliveira, que foi deputado, não pode impedir a influência externa na área, dá para imaginar as dificuldades que teria uma pessoa, diplomática no tato, mas com a cobertura direta do campo legislativo (especialmente de Aníbal Khury, que participava da designação de postos na hierarquia civil e militar e até na movimentação de comandos) e com notórias dificuldades de ação em terreno de domínio dos políticos.
Estranha-se o seguinte: se o assunto era tão grave e as reincidências bem evidentes ao Ministério Público, que empreendera as investigações, caberia a insistência em ratificar as suas denúncias, já que o assunto comprometia, de forma clara, a estrutura institucional do poder. Essa vigilância é uma natural decorrência dos ganhos de atribuição do Ministério Público na Carta de 1988.
Pior, no entanto, foi o silêncio do governo ante a gravidade da denúncia e a sua natural e pastosa acomodação. Lerner sempre se distanciou da área, tanto a civil quanto a militar, e nem sempre ouviu os mais credenciados. Visível no fato de que os escândalos atingem os dois setores e a autoridade deu uma de Pilatos, como se nada tivesse a ver com essa a coisa tão prosaica, que é a segurança, para a qual deu aquela lamentável contribuição dos tótens, inútil e pernóstica, com o estilo marcante da griffe, que opera no virtual, como se virtuoso fosse.
O Paraná está desmoralizado com as apurações da CPI das Drogas. Não há como dissimulá-lo. Mostra ausência de governo e excesso de polícia, que lhe caberia controlar, como delegada de suas prerrogativas.
BIZARRICE
O Carnaval do Paraná tem a expressão dos seus políticos. Dá para percebê-lo no desfile de escolas de samba e dos seus homens públicos. Não chega a atingir a linha da mediocridade
AXIOMA Um Estado que tem 29 secretários não pode se mostrar apalermado diante do fato de que perdeu inteiramente o controle das coisas.
GLOSA Desgraça alheia é refresco para os gozadores. Quando o Noronha foi aconselhado por seu advogado, Luis Alberto Machado, a se mandar, inventaram a história de que seria substituído pelo Sugiro Quifuja.
CONEXÕES A assessoria do governador Jaime Lerner diz que afora as declarações de Eduardo Alonso, nada existe sobre possível drenagem de recursos para a sua campanha nas apurações de Londrina e que já fez a interpelação judicial para que o depoente confirme as informações atribuídas a ele. Até agora, além do que falou o Alonso, e ainda dos que assinaram recibos, há o caso da Bellefone Empresa de Comunicações, que fez os trabalhos de telemarketing para as campanhas de Lerner e dos deputados Belinati e Canziani, conforme declarações ao Ministério Público.
Segundo o ‘‘staff’’ do governador, todas as doações recebidas e despesas realizadas na campanha pela reeleição foram registradas na Justiça Eleitoral. ‘‘Fora disso,’’ – esclarece – ‘‘não houve arrecadação ou gasto autorizado pelo então candidato ou pela coordenação de sua campanha.’’
SPRAY Gustavo Fruet vai ser lançado candidato a prefeito de Curitiba pelo PMDB por um grupo de apoio, dia 20 deste mês. É a prova de que o Requião original não disputa. - Com a ‘‘Campanha da Fraternidade’’ voltou o discurso da pobreza: se Curitiba tem 16% de excluídos, registra-se que quase 84% estariam incluídos. - Uma ocasião José Arthur Gianotti, o homem do Cebrap, veio a Curitiba, e eu lhe perguntei se o fato de apenas 30% da população serem consumidores não era um fato chocante. Resposta: 30% de tantas centenas de milhões configuravam um mercado relevante. Acadêmico raciocina assim. - Na verdade, também os pobres, e portanto a faixa aumenta, são ‘‘sujeitos de consumo’’. Dá para percebê-lo na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE, em que se percebe que mesmo num barraco (habitação rústica, de acordo com a taxonomia técnica) há um verdadeiro universo de bens de consumo como fogão a gás, televisor, rádio, utensílios domésticos, artigos de higiene e tudo o mais. - Levantamentos de Curitiba mostram que segmentos de renda inferior a um salário mínimo detêm domicílio próprio em mais de 70% dos casos. Um erro da esquerda primitiva é o de subestimar tais indicadores e esquecer que a ideologia dominante, neste hedonismo (culto do prazer) em que vivemos, é a do consumismo. - Curitiba tem o segundo salário médio do Brasil, a segunda frota de carros importados e isso soa como um desfile carnavalesco para os pobres que também sabem desejar.- Gritar contra a globalização é ingênuo e quixotesco: lutar, porém, por um reordenamento de valores éticos é imperioso, mas significa remar contra a correnteza. A própria Igreja não é um exemplo de desprendimento com o luxo e a suntuosidade dos seus tesouros quando tanto prega repartir o pão. - Aliás, um pouquinho de racionalidade na questão do controle familiar colocaria a Igreja em sintonia com a realidade do mundo moderno, sem que isso significasse reduzir o número de convivas para o banquete comum, como a oratória sugere. É que justamente os excluídos são as maiores vítimas desse processo.
FOLCLORE Domenico de Masi, sociólogo da moda, refletia durante o Carnaval: que resultado obteria o Brasil se puzesse essa criatividade em seu processo de desenvolvimento? Aqui a criatividade do narcotráfico também dá resposta.
CROMO A pintora na ciclovia me dá um botão de rosa no dia da mulher. Em que ponto se cruza o masculino-feminino?
AFORÍSTICO Que fazer? perguntava Lênin. Que dizer? reflete Lerner.

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