Luiz Geraldo Mazza
A insistência com que tenho tratado o problema do adensamento industrial no eixo Curitiba-Ponta Grossa, preocupação que já existia no governo Canet, mas contra a qual nada se fez e nada se faz, é mais do que justificável e não pelas razões primárias da política questionadas no segundo turno da eleição em Londrina.
Um recente estudo do Ipardes sobre o perfil dos investimentos industriais do Paraná (autoria de Angela Yoshie Fusse e Sandra Esquivel) mostra que dos quase R$ 5 bilhões levantados e abrangendo o período que vai de 1995 a abril de 97 nada menos de 70,23% se dirigem para a Grande Curitiba. Dos 29,77% restantes boa parte atende outras cidades no eixo referido como os de Palmeira, Castro, Irati, Pien, Rio Negro, São Mateus do Sul etc. A Ponta Grossa se destacam o da Kaiser (130 milhões), Comander Guarani (10 milhões), Premier Antiaderentes (2,5 milhões), a mecânica Trutzchler (13 milhões), Santista (6 milhões).
Os fatores locacionais que privilegiam a região metropolitana acabarão, por esse tipo de capitalismo (a irracionalidade é sua característica congênita), reproduzindo aqui o caos observado em megalópoles como São Paulo, o que nega a suposta inventividade do nosso governador e da Sorbone do Juvevê, o IPPUC.
Não há planejamento, embora isso pareça heresia com a maré da moda, digno desse nome onde a regra é ditada pelo mercado, o deus pop dos nossos dias, pois se assim fosse à periferia não haveria esperança diante de um centro com saúde de vaca premiada.
Não se pretende invocar aqui Gunnar Myrdal ou o Keynes para restabelecer a capacidade interventora do Estado que nunca deixou de existir mesmo nos paraísos liberais como os States, a fim de impedir que os desequilíbrios intra-regionais esfacelem a unidade histórica, política e cultural de um país ou de uma província. E o que está ocorrendo no Paraná chega a ser chocante por algumas evidências como a de que quase 2/3 do ICMS ficam na Região Metropolitana.
O triunfalismo, normalmente característico do marketing oficial, mais embota do que esclarece. Dizia-se, ufanisticamente, que as montadoras gerariam 50 mil empregos, o que o Ipardes desmente, pois o modelo automotivo é singelo e de sintonia fina, razão pela qual possibilitará, no máximo, 21 mil e cem vagas. Incorre-se no mesmo erro da maximização publicitária da capacidade da Cidade Industrial que em empregos diretos não ultrapassa 40 mil, o que não impede o governador de viver falando em 250 mil ao fazer a matemágica da soma com os indiretos, muitos dos quais não gerados em território paranaense.
Sabidamente o governador de maior potencial de liderança que o Paraná já teve por ser conhecido em escala internacional, Lerner está diante de um desafio: em primeiro lugar o de agravar os desequilíbrios internos e consequentemente de colocar em risco a unidade paranaense; o de multinacionalizar o estado e torná-lo menos paranaense e menos brasileiro e ainda o de mandar às favas a decantada qualidade de vida de Curitiba, propaganda que nada mais tem a ver com a realidade. Algo como o Itabirito de que falava Drummond de Andrade: um retrato na parede e como dói.
BIZARRICE Outra piada maldosa sobre o Atlético. A Volks vai lançar, ainda este ano, o Gol Atleticano com as seguintes características: já vem rebaixado, suspensão garantida por um ano e arranca em terceira.
DARIO Pois quem ficou encantado desde ontem foi o Dario Lopes dos Santos, homem que só não trabalhou com o Mateus Leme, povoador de Curitiba, porque ainda não havia nascido. De Alexandre Beltrão para cá até Lerner, Dario assessorou a Prefeitura: como topógrafo acampanhou os lineamentos do Plano Diretor de Agache, dirigiu vários departamentos e secretarias e no governo estadual foi diretor do Detran. Desse Dario pode-se dizer que era mais do que o seu homônimo Peito de Aço : acometido de múltiplos tumores malignos encarava a sua adversidade com um espírito superior que nos chocava na medida em que mostrava como somos vis com as pequenas dores. Contava anedotas e sem sentido escapista do seu recorde de patologias. Tempos passados contei aqui uma delas: ele estava na tomografia pronto para o exame quando o médico lhe perguntou como se sentia e respondeu como um frango num forno de microondas. A melhor imagem que se pode obter quando se fala em transcendência e imortalidade da alma com a vitória sobre a morte é a que deriva desse humor permanente de bem com a vida. O flash do riso, dessa abertura que comove, permanece como estrela no firmamento, rosa na terra.
CPI RETARDADA O líder do governo, Valdir Rossoni, quer fazer quatro CPIs sobre o governo Requião. Como se percebe, dada a incapacidade de agir do governo, que tinha um dossiê terrível contra o seu antecessor e não o utilizou, dá a impressão que a faísca atrasada é um traço político e administrativo desse governo. Poderia sugerir uma CPI como um espeto corrido: a das diárias frias, do superfaturamento dos helicópteros, da morte (assassinato, segundo os sem terras) do líder Teixeirinha e, é claro, a da propaganda pessoal.
Ora se esses fatos se deram e o legislativo não se mexeu, com o mesmo condutor no comando (Aníbal Khury que já disse que não passa a CPI das montadoras), o que se percebe é que a nossa Assembléia desserve, de forma sistemática, o regime democrático e de vez em quando posa, através da minoria, de indignada. Um chuva de água benta ali iria bem.
CROMO Com o retorno do frio e da neblina, Curitiba mergulha numa atmosfera impressionista: pessoas, objetos, edifícios flutuam na madrugada.
AFORÍSTICO Será que tudo melhora quando Jaime Lerner assumir?





