Luiz Geraldo Mazza Radiografia incompleta Só isso? É o que o cidadão atilado perguntava depois das primeiras denúncias contra policiais dados como envolvidos na malha do crime organizado. E deveria perguntar mais: e o secretário de Segurança nem suspeitava de nada? E muito menos o governador, como sempre em outra galáxia. O corporativismo articulou-se e a pretexto de defender o conjunto da categoria das falas do delegado Adauto Oliveira, duas vezes deturpadas (a primeira quando tratou do comprometimento na Antitóxicos e, a mais recente, no seu depoimento à CPI, quando se referiu aos 200 processos em andamento na corregedoria), pressionou-o, o que era de seu direito, por via judicial. Agora - o que se percebe é que a sociedade tem razões de sobra para temer a Polícia, embora saiba que uma minoria de envolvidos acaba transformando a maioria, de bons profissionais ou de gente que não se envolve, mas cala e se conforma para não se incomodar, em seus reféns. Da mesma forma que a democratização na Argentina mostrou que a esmagadora maioria das Forças Armadas não estava envolvida na ‘‘guerra suja’’, o que, de certa maneira, houve também no Brasil, é possível que isso se repita na área de Segurança, o que já seria uma recompensa. As revelações da CPI, no entanto, não autorizam qualquer sinal de otimismo. É claro que precisam ser checadas a fundo e que se ofereça aos acusados o mais amplo direito de defesa. A questão sempre foi deturpada pela mediação dos políticos. Quando Lerner estava em seu terceiro ano de gestão, pressionado pelas ocorrências no campo da Segurança, convocou os jornalistas ao Palácio Iguaçu para que oferecessem sugestões. A despeito do absurdo existente no fato de estar, há tanto tempo no posto, e precisar de sugestões de escribas e carrapichos, fui até lá e, quando convidado a falar, disse claramente que a condição prévia para o governador enfrentar os problemas da área seria ‘‘recuperar prerrogativas que indevidamente delegou ao deputado Aníbal Khury’’. Citei a destituição do coronel Bortolini do Comando de Policiamento da Capital, herói da ação contra o sequestro em Marechal Cândido Rondon, como evidência dessa forma espúria de interferência. Convenhamos que a Polícia sempre foi permeável tanto à política quanto a relações pactuais com a malha da delinquência. Era uma questão de escala hoje colocada quase fora de controle. Pecados veniais como o de ‘‘morder’’ o jogo do bicho (que sempre ajudava em campanhas eleitorais) foram substituídos por formas audaciosas de comprometimento e com efeitos multiplicadores em termos de apoio e expansão do crime organizado. AXIOMA Ouvindo relatos de testemunhas na CPI das Drogas, a reação do homem sensível: ‘‘Cápsulas de carvão vegetal, urgente, que é desinteria’’ BIZARRICE FHC lamentava não ter aceito o convite de Gláuber Rocha para um filme. O Celso Pitta, prefeito paulista, disse que teve vontade de ser bailarino, Alvaro Dias foi ator de rádionovela em Londrina, Lerner faz poesia e o Requião também teve passagem pelo teatro. E nós olhamos todos eles lembrando de Moliére, também de teatro: ‘‘O riso castiga os costumes’’. Ridendo castigat mores. DICIONOVÁRIO Em passado distante, Millor Fernandes em ‘‘O Cruzeiro’’ criou a secção ‘‘Dicionovário’’ que expunha neologismos à base de trocadilhos. Com a CPI dá para criar um novo termo ‘‘testemumunha’’, testemunha da mumunha. GLOSA Um avião de rosca, tal qual os catarinenses nominam helicóptero, surge nas entranhas da CPI das Drogas e sugere-se que o aparelho teria sido usado na campanha eleitoral do situacionismo. Pelo jeito nossos governos estão marcados por esse signo: na gestão Requião o delegado Anníbal Bassan (volta e meia posto de lado, como recentemente se deu) se recusou a assinar como membro do Conselho do Fundo de Reequipamento da Polícia (Funrespol), o contrato de aquisição de helicópteros que denunciou como superfaturados. LONDRINA Vereadores e entidades engajados na luta contra a corrupção em Londrina não podem se deixar dominar pela emoção. Urge temperar o sentimento de indignação, justo e santo, com o respeito à mecânica institucional. A medida, concedida em favor de Belinati, não é final, mas de qualquer forma bem fundamentada. Rituais formalísticos na área do Direito se transformam em dados essenciais, ainda que aparentemente não o sejam. A audiência da Comissão de Constituição e Justiça é imposição ritualística e não justifica, sob hipótese alguma, qualquer manifestação de ceticismo relativamente ao Judiciário. O movimento londrinense é sério demais (se Curitiba o imitasse não estaríamos nos espantando agora com as revelações da CPI das Drogas) para dispersar-se. É preciso também ganhar a base capilar da sociedade, já que o prefeito tenta sugerir uma luta de classes entre a elite (os que denunciam) e a pobreza, que ele acredita tutelar. Só essa postura do mandatário, pelo que tem de perversa e demagógica, justificaria um esforço redobrado, de sentido civilizatório, para libertar a cidade de condicionante tão primária e fisiológica. FOLCLORE O primeiro deputado de Londrina, o médico Justiniano Clímaco da Silva, chega em Curitiba no Hotel Jonscher. Na sua chegada, num velho Ford-28, leva como motorista um louro alemão e na recepção o hoteleiro Francisco Jonscher pensa que o deputado, por ser negro, é que seria o motorista. Clímaco a tudo suporta com ‘‘fair play’’ e para desfazer a dúvida resolve falar em alemão. Médico e deputado negro e, ainda por cima, poliglota, era demais para o velho Jonscher que acabou ficando seu amigo íntimo. Não só falava alemão. Tanto que fez um discurso em latim invocando o nome de Deus no preâmbulo da Constituição. CROMO Não dá mais para brincar de polícia e bandido nos folguedos infantis: brincar de médico e doente fica mais longe do pecado. AFORÍSTICO Se houvesse decência parlamentar, seria reaberta a CPI da Sercomtel–Copel–Banco FonteCindam, o quanto antes.