A montanha e o rato
Não se deve criar expectativas na população em torno de hipóteses pouco viáveis em acontecimentos políticos de envergadura. A ânsia de aparecer, de promover-se, é um dos riscos de trajetória de todas as CPI e é isso que mina e deteriora o funcionamento dessa instituição parlamentar.
Para cada episódio como o do impeachment de Collor, seguido exemplarmente pelo caso dos ‘‘anões do orçamento’’, que atingiu uma das vestais que operou na acusação promotorial com a postura de um senador da Roma clássica, Ibsen Pinheiro, flagrado com a mão no pote, temos centenas de outros, bloqueados e arquivados. A propósito dessa CPI das Drogas já houve uma anterior e que deu em nada, mas na de agora não se pode negar a existência de frutos. Mesmo com esse ônus a que já me referi dos ‘‘papagaios de pirata’’, da compulsão para ficar exposto à claridade do spotlight. Afinal, parodiando Fernando Pessoa, pode-se dizer que ‘‘tudo vale a pena quando a lama não é pequena.’’
De um modo geral, o primeiro dia da CPI em Curitiba apenas aqueceu, botou um vulcão em erupção, mas as expectativas eram mais fortes do que os fatos. A demora da instalação foi um dos fatores de aguçamento, em que as versões que eram ouvidas nos bastidores do Legislativo eram fulminantes para o governo e a área de segurança. Esta, por mais de uma vez, subestimou a investigação sob o fundamento de que aqui não existe crime organizado como se o ocorrido na manhã de anteontem, em Florestópolis, no assalto ao carro-forte com ajuda até de um avião fosse coisa de menor importância. Roubo de cargas, de caminhões, de automóveis está vinculado quase sempre ao narcotráfico, o que é uma constante nas apurações dos parlamentares.
Espera-se que a montanha não venha parir um rato, como se sugere no ditado, mas que exponha pelo menos parcialmente o que há de conexões no Paraná com o crime organizado, conforme se dá em nível nacional. Que a instituição policial está infiltrada por essas malhas ninguém ignora. O medo é o instrumento de bloqueio, de paralisia, principalmente naqueles setores em que a tolerância com o delito, grande ou pequeno, se tornou sistêmica. Ao lado dele, duas formas de cumplicidade: a dos indiferentes e conformistas, que não se envolvem, mas que calam, e aquela minoritária dos que entram de corpo e alma nessa forma de conspiração nada sutil contra a paz social. Esperemos que ao final de tudo isso seja pequeno o tecido necrosado da nossa instituição, de quem tanto dependemos para recuperar o já perdido sentimento de segurança.



AXIOMA
A CPI vai encontrar aqui, como em outros pontos do País, a droga mais constante: o mau governo

BIZARRICE Jota Carlos, repentista de quadrinhas, fez versos sobre a saída para evitar a greve da magistratura, via casuísmo do ‘‘auxílio-moradia’’, que está provocando demanda de Engov nas farmácias: ‘‘In limine saturada/ com uma greve chinfrim/ a Themis aliviada/ piscou o olho pro Jobin’’. A ceguinha piscando o olho é boa.
GLOSA O mais eficiente antipó não é a polícia, mas o Cassio Taniguchi com o tão balado Plano 1.000. Por falar em pó não dá pra esquecer aquele deputado que criticava o prefeito de Rolândia: ‘‘De dia a poeira insuportável e a noite a intolerável latitude dos cães!’’
EPIGRAMA Com seu canto estridente, um casal de ‘‘joão-de-barro’’ interferiu ontem na programação de estúdio da CBN. Como o noticiário tratara da notícia de que FHC se comparara a um ator, dizendo que em 68 Glauber Rochar quis filmá-lo, o Jota Carlos juntou a notícia com o incidente lírico: ‘‘Se Fernando – o desbragado/ quer travestir-se de ator/ por que não ser entronado/ João de Barro, o locutor?’’
FÁBULA O Judiciário, a despeito da CPI para julgá-lo, jamais se expôs tanto quanto nessa aceitação absurda do ‘‘auxílio-moradia’’ para contornar a crise salarial da magistratura. O pior foi ouvir aberrações como pronunciamentos de magistrados defendendo, sem qualquer base de sustentação doutrinária, o direito de a categoria fazer greve e, na sequência, ao aceitar a emergência casuística do ‘‘auxílio-moradia’’, já considerado antijurídico por decisão anterior do próprio Supremo.
Nem os exageros das invectivas de Antonio Carlos Magalhães, presidente do Senado, atingiram tão profundamente a instituição, submetida a um desgaste que ela, própria, provocou.
SPRAY O semanário ‘‘Hora H’’, mais uma vez, vai ter influência na área jurídico-policial: as duas entrevistas da viúva do criminalista Luis Renato Crovador, Vera Lúcia, convocada pela CPI das Drogas, mostram o absurdo das conexões de policiais, advogados com desmanches de carros roubados. - No caso das bruxas de Guaratuba a publicação, além de ganhar o Prêmio Esso, teve destacada influência da absolvição das Abagge, Celina e Beatriz, no júri. - Pelo que Vera Lúcia disse – e que não foi pouco, ao apontar, por exemplo, um dos donos desses desmanches como uma das pessoas que a inquiriu, como se delegado fosse – deve saber muito mais dessas ligações perigosas. - A presença de pessoas não integrantes, formalmente, em delegacias e ações policiais, já criou situações de muito desgaste como se deu com o assassinato do estudante Zanella, quando a primeira versão de polícia era de incriminar a vítima como portadora de droga, o que era uma grosseira ‘‘armação’’, desmascarada porque a mãe do jovem foi fundo na pressão para que a verdade aflorasse.
FOLCLORE O governador vai fazer uma palestra em Los Angeles sobre o sistema de transportes urbanos de Curitiba que se pretende levar como modelo, na escala devida, àquela cidade norte-americana. Lerner deveria ficar nessa: a de prefeito. Nisso é bom. Como urbanista, a Europa o plagia há séculos.
CROMO ‘‘Aqui estou diante/ não da página branca de Mallarme/ mas da tela escura do computador/ para mandar uma mensagem/ a Lucy, minha mulher/ É que não pega bem pra mim/ o recado de giz no asfalto/ como os jovens fazem/ no aniversário das suas namoradas/ Que ela encare como se assim fosse.’’
AFORÍSTICO Até o Carnaval muitos se sentirão culpados, antes da acusação.