O governador ausente
Neste momento há áulicos do governo, recorrendo a especialistas em filologia e semântica, para dar a interpretação conveniente a uma passagem do discurso do comandante da PM, coronel Guaraci Moraes de Barros, ontem, em que se refere ao fato de o governador estar um tanto quanto ausente da corporação. A observação passaria como sutileza sem maior sentido não fosse a pergunta do repórter Leandro Donatti a Lerner sobre a afirmação. O que Lerner fez: pediu que o repórter inquirisse o comandante e é óbvio que um oficial sério, sabendo que ao governador é a quem realmente a corporação deve obediência, saiu-se diplomaticamente afirmando que aquela era a primeira vez que Sua Excelência lá comparecia. Em suma: Lerner, normalmente abúlico, incapaz de tomar decisões, quis uma ‘‘acareação’’, o que jamais fez quando das roubalheiras do Banestado e da barbárie do envolvimento da polícia e o crime organizado, do que já foi alertado, ainda no primeiro ano de mandato em 1995.
O governador não está ausente apenas da PM. Basta lembrar que deu reforço substancial à polícia civil com a nomeação prometida de 900 servidores e à milícia pouco foi concedido quando sofre de carências materiais, inclusive da falta de efetivo adequado. Uma gestão que permite ocorrências como as havidas no Banestado e ainda por cima promove o autor das distorções a secretário de Estado dá bem a idéia do zelo com que administra. Isso sem falar no fato mais grave do contubérnio entre a polícia e o crime. Lerner foi mais vezes a Nova York nesses cinco anos do que a muitas repartições do Paraná como é o caso da PM e da própria secretaria de Segurança.
DESCONTENTAMENTO Oficiais da ativa e da reserva estão, há muito tempo, descontentes com os rumos tomados na área da PM. Pela fraqueza do governador, para certas coisas um refém de políticos, a corporação enfrentou crises com sacrifício dos seus mais acreditados quadros em casos como nos do afastamento do coronel Mainguê e do coronel Bortolini. A assunção do coronel Guaraci, por ser homem de linha doutrinária e técnica, implica em melhora do ambiente, o que deixará, no entanto, de ocorrer se conceder prioridade à polícia civil justamente por estar mais contaminada.
A carta do coronel inativo, Elizeu Furquim, presidente da AMAI, órgão também de representação miliciana, publicada, sábado, nesta ‘‘Folha’’, é documento grave, expungido o excesso emocional e de emulação entre as duas corporações, da situação difícil enfrentada pela Polícia Militar. O governador jogou o Paraná, em vários fronts, num beco sem saída: proibido de fazer acrobacias com antecipações de receita, comprometimentos em níveis jamais registrados, não encontra na solidão do Chapéu Pensador ou no meio da ala escocesa do terceiro andar, como referiu Fábio Campana, a fórmula criativa para imaginar como acertar o pagamento do funcionalismo nos próximos meses; difundiu a pior das imagens de governo até agora projetadas, a despeito dos seus méritos na atração dos investimentos nacionais e estrangeiros; parte, fragilizado, para um embate com São Paulo em torno da guerra fiscal que teria um handicap mais forte, caso não fosse moralmente tão vulnerável com as tatuagens da CPI das Drogas e a novela pouco edificante do pedágio, isso sem falar na quebra do Estado e no leilão dos seus melhores ativos para compensar a fúria de prodigalidade com os R$ 500 milhões em propaganda e o exercício dos Jogos Mundiais da Natureza que vão para a segunda edição sem qualquer balanço da primeira que trouxe mais constrangimentos do que retornos.
FOLCLORE
Se houver a greve dos judiciários e a dos professores estaduais, estará montado um cenário parecido com o do ‘‘Incidente em Antares’’. Só que o cadáver insepulto será o poder público.
BIZARRICE O secretário de Transportes, Heinz Herwig, tentando amaciar os efeitos do pedágio, disse que os fretes, quando muito, chegariam a 5% e nunca a 20%, como foi sugerido pelo MacDonald, do sindicato dos transportadores. Se o cálculo do frete for parecido com o do pedágio, por seu traço esotérico, com planilhas que ninguém decodifica, tudo pode acontecer. Nos dois casos, o povo se lasca diante dos tecnoburocratas.
AXIOMA O Zé Carlos Martinez entrou na onda dos irmãos Álvaro e Osmar de fazer implante de cabelos. Como se vê até capilarmente a aliança entre PSDB e PTB, hoje o maior bloco parlamentar, funciona.
GLOSA Dias passados um jornal tascou manchete, mais ou menos assim: ‘‘Papa Paulo pede perdão por pecados’’. Tanto ‘‘p’’ me lembrou um soneto do Emílio de Menezes em cima de uma negociação de Pepa Ruiz e Pupo de Morais em torno do Mercado do Rio de Janeiro. Título ‘‘Prosopopéia da Pepa ao Pupo’’. Vamos a ela, tudo com o ‘‘p’’ referido: ‘‘Parece peta. A Pepa aporta à praça// E pede ao Pupo que lhe passe o apito.// Pula do palco, pálida, perpassa// Por entre um porco, um pato e um periquito// Após, papando, em pé, pudim com passa,// Depois de peixes, pombos e palmito,// Precípite por entre a populaça,// Passa, picando a ponta de um palito.// Peças compostas por um poeta pulha,// Que a papalvos perplexos empunha,// Prestando apenas para apanhar os paios,// Permuta a Pepa por pastéis, pamonha...// – Que a Pepa apupe o Pupo e à popa ponha// Papas, pipas, pepinos, papagaios!//’’
JUÍZES Vamos examinar uma hipótese: os servidores do Judiciário ganharam, há anos, no STF, direito à reposição de 53,06%, e como se declaram ‘‘enrolados’’ pela cúpula do Tribunal de Justiça e o governo, parecem não ter alternativa que não seja a da greve para a assembléia do dia 3 de abril. Como os juízes vão encarar o ato reivindicatório quando a maioria deles, no andamento da discussão sobre teto salarial, defendeu o direito de fazerem a greve, um absurdo sem dúvida, mas proferido com a imponência de um acórdão?
Aliás, já no governo Requião, os magistrados se acharam no direito de fazer a greve. Como essa matéria – a greve no serviço público – não é autoaplicável e depende de lei complementar aos juízes seria difícil analisar a questão e decidir por sua ilegalidade , uma vez que poderiam até ser alvo de uma suspeição prévia.
CROMO Eu te declino e declamo Rosa-Rosae-Rosa-Rosam-Rosa-Rosa das primeiras aulas de Latim e me lembrando da Rosa gente e não da rosa flor.
AFORÍSTICO Só a covardia inibe o PMDB para a disputa municipal. Nada mais.

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