Curitiba, a mutante
É moda nos aniversários de Curitiba fazer análises sobre o comportamento dos que vivem na cidade, hoje às vésperas dos seus 307 anos. Corre-se sempre o risco de cair na sociologia de botequim ao codificar arquétipos ao longo do tempo, como se a Capital não estivesse modificada pelo ‘‘boom’’ migratório.
Vamos a alguns desses referenciais: o curitibano é um introvertido, coisa inaplicável ao que se verá hoje à tarde durante o Atletiba, embora isso se confirme com toda a força no Carnaval. Cito sempre uma passagem havida com o tipo popular Alvino Guimarães Cruz, o Esmaga, ‘‘mordedor-símbolo’’, na Praça Zacarias. O Lerner havia trazido, no intento de animar o Carnaval, um trio elétrico da Bahia, e o carro, luminoso e barulhento, passava justamente na hora em que eu conversava com o Esmaga. Animei-me com o ritmo, pus a mão no ombro da figura e fiz menção de sairmos acompanhando a fuzarca. O Esmaga parou e fez a profunda autocrítica: ‘‘Será que fica bem para nós?’’
Essa reação partida de uma figura debochada, que fazia da irreverência o meio de comunicação para doutrinar aqueles que ‘‘mordia’’, tem muito dessa pretensiosa reserva do curitibano, a sua resistência às expansões. Daí surge outro estereótipo: o de que, além de evitar soltar a franga, o curitibano se empenha em impedir que outros o façam, botando o seu olhar de Medusa, a mítica que paralisa as pessoas, sobre os que tentem quebrar a regra.
O DEGELO Quando a cidade se caracterizava pela vida universitária e que recebia gente de todo o País, o adventício é que dava o tom de alegria nas mínimas coisas e se constituía numa negação do modelo refratário. Isso acabava contaminando os demais. Desfiles de calouros eram melhores do que os préstitos carnavalescos, olimpíadas universitárias mexiam com a cidade, dividida entre Engenharia, Medicina e Direito. Dos bailes, então, tudo o que se disser é pouco e o principal deles, de todos os domingos, era o Chá de Engenharia, do qual Dalton Trevisan dizia que as mocinhas aprendiam de tudo, menos a tomar chá.
Se os estudantes rompiam a propalada introversão curitiboca, também os tipos populares eram postos a serviço da boa causa: ‘‘degelar’’ as pessoas, botá-las em cheque, provocá-las. ‘‘Gilda’’ – que se dizia de Abreu para lembrar a mulher de Vicente Celestino e não ser confundida com a Rita Hayworth – era um travesti popular, da pesada, e que ia ao extremo de dar beijos na boca de senhores circunspectos e que proporcionava ‘‘shows’’ diários no calçadão. Ainda mais irreverente, a Maria do Cavaquinho, mongolóide, que até outro dia estava num asilo na Lapa, punha as mãos por trás nas partes baixas de figuras sisudas e as apertava como se fosse um selim de bicicleta, já que as pessoas apanhadas nessa situação não tinham alternativa que não a de ‘‘pedalar’’ até para disfarçar a dor. Um presidente do Tribunal de Justiça, com porte de jurista romano, atravessava a XV, na altura da Oliveira Belo, quando foi apanhado nessa constrangedora situação. E assim se fazia com empresários e políticos.
É minimamente leviano tentar descobrir o perfil do ‘‘homo medius’’ de Curitiba, tantas foram as mudanças havidas no ‘‘mix’’ demográfico. Há coisas aqui, em certos círculos, de cidade do interior como o de tocar o sapato das pessoas com um pente (o que se faz amiúde em Irati e Ponta Grossa) ou ainda ‘‘quebrá-las’’ na rua, chamando-as pelas duas sílabas finais. Um crítico de cinema, dos melhores do Brasil, já falecido, Armando Ribeiro Pinto, foi estudar cinema na França e quando passou por uma plataforma ferroviária ouviu o grito ‘‘Ribeiro Pinto de Curitiba’’. Armando faleceu sem saber o autor da molecagem.
A NEVE Durante a última neve em Curitiba, 1975, muitos desses arquétipos foram derrubados. O fenômeno inusitado trouxe uma alegria incomum para todos, quase uma comunhão, em torno daquele maná bíblico que abria a alma das pessoas. Foi o verdadeiro carnaval que a cidade não tem pela participação de todos, o exercício de criatividade, a alegria envolvente, a integração das classes sociais: engraxates e ‘‘flanelinhas’’ da Avenida Luis Xavier, Boca Maldita, lançavam bolas de neve nos executivos do Bamerindus e recebiam outras tantas de troco. Uma espécie de entrudo carnavalesco num folguedo sadio para remover, de uma só vez, toda a generalizada sociologia comportamental. O homem de teatro de bonecos, o Euclides Dadá, ficou tão impressionado que queria que eu fizesse um libreto sobre o tema para seus títeres. Nem no dia em que terminou a guerra (a segunda, na primeira eu não tinha nascido, embora muitos achem que isso é impossível) houve celebração tão rica e espontânea.
A FÚRIA Há momentos de contemplação e suavidade como esse da nevasca. Mas há também os instantes de ira como o havido na Guerra do Pente, em 1959, e também nas inúmeras batalhas contra o aumento das tarifas dos bondes (imaginem se fizessem algo parecido com o pedágio e o nosso governador se exilaria). Era comum nessas perturbações virar bondes. Era explicável: os estudantes de Agronomia, Engenharia Química, Veterinária se valiam dos bondes para dirigir-se ao Juvevê e eram os primeiros a mobilizar-se para a baderna. Como havia a violência extrema do ataque aos açougues no aumento da carne e, em seguida, a batalha campal com a Polícia Militar, embalada, nas ruas.
A Guerra do Pente, até hoje indecifrada, já foi várias vezes referida: uma discussão bem próxima à Praça Tiradentes entre um comerciante árabe e um inativo da PM redundou num verdadeiro Estado de Sítio, só rompido com a intervenção do Exército. Foram três dias de conflagração e na hora em que os carros blindados das Forças Armadas, altamente sucateados, que se deslocaram do Boqueirão para o centro, deu para perceber numa cena ocorrida na esquina da Rua XV com a Marechal Floriano outra suposta característica do curitibano, quando um cidadão, ao ver o tanque imobilizado com as lagartas soltas, pediu ao oficial que o conduzia, delicadamente, licença para ‘‘empurrar’’ a viatura.
O Renê Dotti, imitando narradores de cinejornais, descrevia: ‘‘Estamos a mil metros dessa cidade singela, denominada Curitiba. Ela é habitada por índios, que se alimentam de pinhões e moram em casas iguais às nossas.’’ E descrevia o pagé Ney Braga, então prefeito da cidade, comandando o ritual da tribo.
Para encerrar: quem fala em eidética e dialética e não sabe o que é ‘chunda’, não pode se meter a desvendar os mistérios de Curitiba.