O governo acuado
Nunca se viu, na história paranaense, uma degradação tão rápida do poder de Estado. O grau de confiabilidade, depois das denúncias da CPI das Drogas, foi praticamente zerado. É inútil o governador Jaime Lerner vir a público para as falas oficiais, por maior esforço de serenidade que pretenda demonstrar. Sua imagem está profundamente desgastada e não apenas por causa do envolvimento da polícia com o crime organizado, que os políticos dissimulam desconhecer como se sequer desconfiassem dessa possibilidade. O governo está acuado, em clinch como o boxeur que, grudado às cordas, espera que o adversário cesse de bater pelo cansaço.
Perdida a capacidade defensiva, o governo caminha para um cronograma de mais intensos desgastes: a adoção das novas tarifas do pedágio vão desencadear cenas inevitáveis de resistência civil, que é ao que pode recorrer a cidadania diante do nível de inércia da autoridade. O sinal de alerta desse quadro foi dado pela pesquisa DataFolha e mostrando que Cássio Taniguchi contaminou-se com os salpicos de lama da CPI das Drogas.
Obviamente, a troca de Cândido Martins de Oliveira por José Tavares, na pasta da Segurança, pela rapidez com que foi desencadeada, deu a impressão de mobilidade, da existência, ainda, de áreas de manobra para o governo. Também as nomeações de ontem, do delegado Leonil Ribeiro para o comando da Polícia Civil, do delegado aposentado e doutrinador Almir Chagas Vilela para ouvidor, e Paulo José Breny para corregedor mostraram habilidade e sinais de disposição para a profilaxia. A doença, no entanto, penetrou fundo na instituição e o tumor não foi lancetado, já que não se tem idéia da extensão da sua malignidade. A sociedade está descrente com a frouxidão do governo, a sua incapacidade para agir, a tolerância com os pequenos e grandes crimes e, sobretudo, a inaceitável delegação de prerrogativas que fez, desde o início do seu mandato, aos deputados, um deles tratado como pró-cônsul, causa primeira de todo o descontrole.



BIZARRICE
Em meio a expectativas criadas com o novo ‘‘status’’ na área de Segurança, faltou combustível em várias unidades da Polícia Civil, ontem. E de onde vão tirar a grana para contratar os 900 policiais num governo que não paga seus fornecedores e parcela o terço das férias do funcionalismo?

AXIOMA A relatividade das coisas, principalmente para os áulicos, é permanente. Os do Palácio Iguaçu acham que não é Lerner quem contamina Cássio, mas o contrário.
GLOSA Depois de amanhã teremos greve de caminhoneiros, que foram excluídos das conversações sobre o pedágio. Seguirão cenas de ocupação de praças de pedágio e, daí para a frente, outros cenários de tensão. Se uma certa autoridade tocasse lira num cenário de fogo, lembraria Nero. Como o original se acredita, antes de tudo, um inspirado.
O DIREITO Mestre Reginaldo Fanchin acha que está havendo partidarização do Ministério Público no caso Pitta e dá as razões: 1) A Lei de Improbidade adota rito próprio, especial, diverso daquele estabelecido à ação civil pública. Sendo o rito princípio de ordem pública, o MP não pode escolher entre as duas ações. 2) A Lei de Improbidade não autoriza o afastamento de prefeito. Aliás, a única hipótese em que o prefeito pode ser afastado figuras no art. 2º, II, do Dec.lei 201/67 – relativo a processo por crime de responsabilidade –, e mesmo assim se for imprescindível à ordem processual. 3) É inconstitucional a Lei da Improbidade, na parte em que preconiza a perda de mandato político. A regência dessa matéria se esgota no seio da Constituição da República. Do contrário, não teria sentido a reserva de foro privilegiado aos titulares de mandato popular. 4) No caso do prefeito de São Paulo, a ação civil pública por improbidade, segundo o noticiário, baseia-se em mera presunção (empréstimo particular tomado a amigo seu), fato que mostra a perigosa partidarização do MP, com risco de envolver o Judiciário.
VEXAME Renato Aragão pede, pelo amor de Deus, que não lhe forneçam notícias do Paraná, que entra em crise ao saber das trapalhadas do governo. Pois Lerner havia convidado o deputado Cesar Seleme para a Secretaria de Justiça e depois recuou. Mais um vexame. A alegação diplomática é que não tinha perfil para o posto e agora urge detalhar a interpretação.
SPRAY Segunda-feira a polícia vai ser mobilizada para garantir o pedágio. Nas 26 praças, o Movimento União Brasil Caminhoneiro pretende tudo bloquear.- Já no dia seguinte, em Curitiba, teremos invasões de terminais, como sempre ocorre, quando os estudantes partirem para a defesa do passe escolar gratuito, velha demagogia que, se atendida, estouraria no ombro da classe trabalhadora.- À medida em que a campanha eleitoral se aproxima, essas ações se intensificarão e com a autoridade esgarçada, tudo é facilitado.- Os 78 anos do Partido Comunista Brasileiro serão comemorados hoje, na sede do Sindijus. O grupo resistente à metamorfose em PPS, pasteurizadíssima e socialite, é minoritário, mas decidido.- Secretaria do Meio Ambiente, de Curitiba, é acusada de extrema tolerância com a poluição sonora de botecos e discotecas. A casa Samba e Pagode Parada Obrigatória (Conselheiro Laurindo, 1010), com 63 decibéis, quando a medida mínima é de 55, vai ser acionada pelo Ministério Público. Esse jogo de empurra entre a Secretaria e a Delegacia de Ordem Social é manjadíssimo. Um juiz do Alçada foi ameaçado por ter protestado contra uma dessas casas no centro, que não lhe permitia o direito mínimo ao sossego. Isso dá uma idéia da audácia dos que se acreditam protegidos por burocratas e políticos.-
FOLCLORE O sindicato dos transportadores (Setcepar) acusa o governo Lerner de maquiar as tabelas do pedágio que seriam mais elevadas do que os números revelados. Não há nada de incoerente nisso porque até hoje os consórcios só fizeram maquiagem nas estradas concedidas.
CROMO O destino está assinalado na palma da mão, mas a cigana se recusa a olhar e decifrar o seu.
AFORÍSTICO E quem vai financiar campanhas eleitorais por ter dinheiro vivo, todos os dias, e à mão?