Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza A polícia humana A polícia se desumanizou ou foi apenas a escala das coisas que mudou? Tudo se desumaniza, coisifica-se (Marx tem um texto sobre o tema em que lança mão, inclusive, de algumas referências típicas do cristianismo quando trata da convergência entre Pedro e Paulo) e a banalização da violência nos leva a uma espécie de catatonia, como se estivéssemos diante de fatalidades como a apregoada globalização e não pudéssemos sequer, como na tragédia grega, reagir ainda que fosse para ser cumprido o fadário que nos vitimaria. Há até uma forma grotesca de punir a que o delegado de Plantão, o Pedro Darci de Souza, apelidado de Mamão recorria. E não há desaguadouro mais adequado para esse exercício do que a Central de Plantão, heróica, e que ficava na Barão do Rio Branco ao lado, muito ajustado e próprio, da Secretaria de Saúde. Pois um dia pegaram uns estudantes em arruaça, vários deles alunos do CPOR, portanto oficiais da reserva e um sobrinho do governador Lupion. Depois de escrachados e em fila, os estudantes aguardavam a palavra do delegado. Mamão foi avisado da mancada, pois afinal aquele pessoal devia ser entregue à PE, Polícia do Exército, e o fato em si poderia dar em conflito. Havia ainda o adicional do rapaz que poderia entregar o fato ao titio. Dotado de sabedoria e de uma dose inevitável de autoritarismo, o que fez o delegado? Chamou os dois alunos do CPOR para uma conversa mais íntima bem perto da janela baixa do Plantão, e depois de lastimar o equívoco da prisão, lançou-os na calçada com o aviso paternal aproveitem e se arranquem! A clássica do Pedro Darci de Souza é a notícia pelos guardas civis de que um oficial da Aeronáutica transava com uma dona em plena Praça Osório e que se recusava a qualquer advertência porque era imprendível (antecedeu de longe o Rogério Magri com seu imexível) como militar. Mamão ficou excitado, pois aquela era uma experiência que adorava. Rodando o charuto na boca, chegou no local e o milico lá continuava como se estivesse na banheira do Gugu. Pediu os documentos e o oficial, debochando, entregou-lhe a identidade. Mamão precisou se afastar para olhar na luz a carteirinha, pegou um fósforo e queimou-a. Deu a ordem em voz alta para agentes e guardas civis: Pessoal, o homem deu baixa. Pau nele! Nessa época era muito difícil um xerife se ligar ao crime com as facilidades de agora e, ainda por cima, comandá-lo. JUDICIÁRIO O Poder Judiciário é discreto nas informações sobre magistrados que praticam atos de improbidade, mas age. Um deles está para receber o julgamento final do Órgão Especial em denúncia já apurada pelo Conselho da Magistratura e com recomendação do prévio afastamento das funções. IMPRENSA O senador Roberto Requião é terrível quando encarna em alguém ou em alguma instituição. Depois de a revista Veja ter dado aquele destaque à história dos dólares de sua esposa, dona Maristela, Requião baixou com toda força na Editora Abril. Outro dia, num discurso na Câmara Alta, mostrava a seus colegas como a imprensa era cúmplice de absurdos : Num dia o delegado-geral da polícia fugiu para o Paraguai e juízes decretaram as prisão de delegados e policiais em número de 19. Comprei a revista Veja na semana seguinte, porque ela vinha acompanhando a CPI do Narcotráfico. E a Veja nos contemplou com quatro páginas de anúncio colorido do Governo do Paraná. MACABRO O Paraná, como governo especialmente, está sob baixo-astral. Fala-se em dois desmanches: o de carros e o de menores desaparecidos. Em ambos há o comprometimento da polícia, segundo denúncias levadas à CPI das Drogas e repercutidas, inclusive, na tevê e especialmente no programa do Ratinho, que é da terra e que tem muita experiência nesse tipo de noticiário. Que tal fazer um desmanche neste governo e a partir da polícia? Aliás, o desmanche do próprio Estado já se iniciou com venda parcial da Sanepar, a detonada do Banestado e o leilão milionário da Copel. ALAVANCA Raros foram os chefes de polícia ou secretários de segurança que fizeram carreira política. O mais bem-sucedido deles foi Ney Braga, chefe de Polícia do governo Munhoz da Rocha, posto que lhe serviu como alavanca para eleger-se o primeiro prefeito de Curitiba com pleito direto. Votei no pai do Requião, Wallace Thadeu de Mello e Silva, que ficou em segundo lugar. O que decidiu a parada foi o asfalto para Santa Felicidade, a rigor o trecho meio urbano da Estrada do Cerne, que demandava ao Norte. Bento deu ordem para a obra, coordenada pelo Ernani Santiago de Oliveira, presidente da Câmara Municipal, prefeito transitório. Àquele tempo era impensável, pela distância, que um dia teríamos na colônia um bairro gastronômico, dias atrás destacado pelo Luciano do Vale e Rivelino, durante a Libertadores, com elogios especiais à asinha de galinha. Outros que se deram bem foram Ítalo Conti e Agostinho Rodrigues. Entre os que se deram mal Luis Felipe Haj Mussi e Moacir Favetti, delegado de polícia federal, que também não se elegeu. Aquele que disse que entregaria Celina e Beatriz Abagge em praça pública se lhes fosse concedido habeas-corpus. SEQÜELAS Como decorrência do que foi dito e falado, denunciado e publicado, sobre a CPI das Drogas estouram processos na Justiça. Inicialmente, os que tentavam bloquear o delegado Adauto de Oliveira e, na sequência, outros tantos. O ex-secretário de Segurança, o criminalista Rolf Koerner Júnior, foi contratado pelo procurador de Justiça, Paulo Kessler, para agir contra o advogado Antonio Pellizzetti, por declarações apontadas como caluniosas e injuriosas. E também pelo colega criminalista Dálio Zippin, para agir contra Hugo Ramos de Oliveira, igualmente advogado e autor de um dossiê pesadíssimo em que denuncia ligações entre Pellizzetti, o secretário Cândido Martins de Oliveira e o delegado Noronha. MEMÓRIA O doutor Zequinha, estilingue à mão, para tentar derrubar o cavalariano que vem em sua direção, isso em 68, no Centro Politécnico. No desmanche do acampamento sem-terra no Centro Cívico, ele outra vez e só faltava levar o estetoscópio em lugar do bodoque.





