Luiz Geraldo Mazza Uma flor no caos Três horas e dez minutos, tarde de ontem, no encontro da rua Coronel Dulcídio com avenida Sete de Setembro. Um Mercedes prata pára e um menino de rua, de uns nove a dez anos, dirige-se à senhora loira do banco de trás e pede um ajutório. Ela faz descer o vidro e dá uma nota de dez reais. Ante o sorriso do menino e o ar de imensa satisfação, a dama oferece mais um maço de notas que alcançam cerca de 50 reais. O menino não resiste e beija a mão da senhora. É possível que essa mulher generosa esteja condicionada pela propaganda da Curitiba-modelo e ecológica, tal e qual a maioria, mesmo depois da espantosa revelação sobre a capilaridade aqui alcançada pelo crime organizado no setor institucional. Pouco importa o que tenha ditado o seu gesto e a comunicação havida com um menino de rua. O fato é que aconteceu e só isso reconstitui, pelo menos por um momento, a nossa dilacerada humanidade e já basta para compensar tanto sobressalto. Quantas pessoas em Curitiba ou qualquer das cidades de porte médio do Paraná estariam ‘‘descondicionadas’’ ao ponto de reprisar esse gesto? O ceticismo nas instituições está generalizado não apenas pela sordidez das revelações da CPI das Drogas ou a corrupção desenfreada das autarquias de Londrina, como também pelo cenário nada alentador do país. O fato se deu ontem: o fulgor de uma flor em meio ao caos e à barbárie. AFORÍSTICO Nos próximos três anos teremos ainda muitas viagens do governador ao exterior e, mais do que isso, novas safras de escândalos e espantos. RANKING Uma notícia ruim: o Paraná foi um dos piores classificados pelo IBGE na produção industrial, em janeiro, com uma queda de 13,1%, superior apenas à de Pernambuco, que desabou em 19,8%. ANALOGIA Dá para ver a diferença de estilo entre o Anthony Garotinho e o nosso Jaime Lerner: crises semelhantes (denúncia concreta de vínculo com o crime organizado) levam a atitudes diversas. Garotinho botou gente na rua. Deputados do Paraná, embora façam essa observação regougando, acham que não há clima para a permanência do secretário de Segurança. PITTAR Já tivemos o verbo malufar, agora surgiu o pittar, da mesma forma que se manteve até hoje o collorir. Pois no meio das expectativas de reforma do secretariado de Lerner, um empresário, ao ser consultado por amigos se aceitaria determinada pasta, retrucou dizendo que do jeito que está indo o atual governo paranaense, chegará ao fim bem parecido com o do Pitta. Nem tudo justifica o triunfalismo habitual do governo. Por exemplo: tínhamos a melhor empresa de telecomunicações do Brasil com a Telepar, o que acabou com os seus últimos gestores como estatal, entre eles Álvaro Dias. A queda se reflete no pós-privatização, já que temos apenas 700 mil celulares contra 1 milhão e 300 mil do Rio Grande do Sul, a despeito das aproximações entre os indicadores como PIB per capita, renda interna, infra-estrutura, exportação. BIZARRICE Rubinho Ferreira sugere que Lerner está de tal forma empenhado em defender Rafael Greca que se ele deixar o ministério, será designado para o comando da campanha eleitoral de Cássio Taniguchi. Vá ser de confiança na Casa do Chapéu. Não confundi-lo com o Chapéu Pensador, o de QI baixo. AXIOMA Governo estadual não tem a menor segurança de que o Judiciário acatará, por exemplo, a viabilidade da Paranaprevidência (pagamento dos aposentados tende a cair e a obrigar uma revisão atuarial e o próprio aumento da taxa corre um risco igual) e insiste nessa história dos royalties de Itaipu como saída para capitalizá-la. Ontem, o Órgão Especial do TJ adiou a decisão sobre o assunto em dois mandados de segurança. GLOSA Uma agência de propaganda vem aí com a história de cobrir alguns símbolos da cidade nas comemorações dos 307 anos da Capital, com a pergunta ‘‘como seria Curitiba sem isso e mais aquilo?’ A oposição sugere que se pergunte como seria a cidade sem o crime organizado com timbre oficial. EPIGRAMA Um correntista foi à agência da Caixa Econômica Federal na avenida República Argentina, em Curitiba, e não pôde retirar R$ 2 mil, sob o fundamento de que o saque máximo é de R$ 500. Fica no Edifício Casagrande, mas o nível de inteligência é de senzala. O trocadilho é homenagem ao centenário do Gilberto Freire. Com tudo isso ainda convidam: vem pra Caixa você também! JOGOS A saída do Ney Leprevost da Secretaria do Esporte e Turismo, na qual estava com desempenho acima do comum para a herança de terra arrasada que recebeu, abre caminho para questões ligadas aos Jogos Mundiais da Natureza, que vai receber grana forte do exterior e permitir novas acrobacias como as feitas na primeira versão, jamais examinadas com um mínimo de rigor. Fala-se num investimento externo (Japão) da ordem de R$ 30 milhões. O Estado quebrou, mas o ócio é criativo, como aconselha Domênico De Masi. SPRAY O governo estadual repete o comportamento esquivo dos protocolos na CAE do Senado, dando as informações que convém e negando as hostis: está mesmo sob ameaça a questão dos royalties de Itaipu e bloqueadas autorizações para AROs, Antecipação de Receitas Orçamentárias. O pagamento de abril do funcionalismo pode atrasar. - Foram adiadas ontem a análise no Órgão Especial do Tribunal de Justiça de vários pedidos de intervenção: cinco do Estado, dois de Paranaguá, um de Antonina, um de Paranacity. - Uma apelação cível originária de Londrina e que envolve a Transportes Coletivos Grande Londrina, o município e a mal falada Comurb está empatada e o desempate virá dia 21, com o voto do desembargador Antonio Gomes da Silva. FOLCLORE Até segunda-feira, a Fundação Cultural de Campo Mourão vai receber inscrições para o 7º Concurso Pinóquio, que premia as melhores mentiras e os melhores causos. Vai ser dia 1º de abril. Promessas do governo estão fora do concurso por motivo óbvio: extrapolam por sua agressiva obviedade. CROMO E dá, por acaso, para descobrir no caso paranaense a flor do lodo?