Luiz Geraldo Mazza Paranaense do contra Se um dia um paranaense ganhar um Nobel de ciência ou arte haverá alguém daqui para dizer que ele fazia troca-troca no tempo de guri. Agora, com essa boa iniciativa da Globo Regional em transmitir o Campeonato Paranaense de Futebol e incrementá-lo, um sujeito do contra da terra foi dizendo: ‘‘Finalmente a ficção científica chegou à televisão no Paranᒒ. Outro azedou e foi bem mais longe, afirmando que isso era uma produção ‘‘trash’’. Há uma efabulação que traduz o paranaense, especialmente o de Curitiba. Um homem humilde achou um anel de grau, um ‘‘chuveiro’’ e foi a um jornal para colocá-lo à disposição do dono. Empolgado com o próprio gesto e por ter saído no jornal, depois cumprimentava todo o mundo na rua. Aí passou numa roda de velhos burgueses da Rua XV e repetiu o ritual, cumprimentando-os com efusão. Um deles perguntou de quem se tratava. Aí veio a resposta: ‘‘Não sei bem, mas parece que está envolvido no caso de um anel de brilhantes!’’ ESPUMA A ‘‘espuminha’’, que tanto incomodou no Carnaval, é fichinha perto da espuma política do momento (CPI das Drogas, escândalo de Londrina, pedágio). Só que aquela agride os olhos e essa outra muito mais. CÂNDIDO De repente uma procura do livro clássico de Voltaire, ‘‘Cândido’’, foi ligada às atribulações do homônimo secretário de Segurança. Como Pangloss, o que vivia no melhor dos mundos, Candinho negava relevância ao crime organizado no Paraná, o que, em coral, a cúpula e o governo repetiam. José Carlos Mendes, frascista ocasional, sugere que há candidez demais. FEIRA Sessenta empresários do Brasil, nenhum do Paraná, estarão presentes em estandes na Feira de Hannover (Alemanha). No momento em que tanto se badala o novo perfil econômico do Estado, estar ausente da mostra é uma contradição. Não há por que esperar que o presidente da Fiep, o Carvalhinho, que acumula Secretaria na gestão estadual, superasse os entraves decorrentes da quebra do caixa estadual ou as resistências de empresários em participar do evento. É um Carvalhinho só para uma floresta amazônica de problemas. PROTESTO No meio de um júri, dizem que no Rio Grande do Sul, o advogado de defesa perguntava, dramático, em estilo shakespeareano: ‘‘Mas quem de nós, senhores juízes de fato, não fez jogos sexuais com amigos no tempo de criança?’’ O juiz bateu o martelo: ‘‘Não me enquadro nessa incrível e leviana generalização de Vossa Excelência’’. Mais veemente, o promotor: ‘‘Projetar para os outros as patologias pessoais é um velho recurso da psicologia, chamado de transferência. Quem se assume vive melhor.’’ Curioso é que a maioria esmagadora das pessoas do sexo masculino admite ter praticado na puberdade esses jogos e quase todos (99%) na condição de ativos, nunca na de passivos. O que é um desafio matemático para um Einstein resolver. BACHARELICES Eu e o Candinho, o Gomes Chagas, fomos votar na eleição da OAB. Voltava da votação um advogado que quis fazer gozação com a dupla. – É o Batman e o Robin! Antes que ficássemos divagando sobre quem era de nós o mocinho e o garoto, o que poderia ter conotações comprometedoras pela maledicência em torno de relações extra-heróicas de ambos, olhei bem o olho do gozador e repliquei: – E você tem todo o jeito do Pinguim! TIPOS POPULARES Rareiam, hoje, em Curitiba, os tipos populares. Muitos deles tiveram sua saga folclorizada na memória do povo. Uma das derradeiras é Maria Marcha-Lenta, mendiga, de ventre inflado. Sumiram Indira Ghandi ou Maria Desenhista que vivia de caricaturas que fazia dos outros e parecia indu com sua túnica branca; Maria do Cavaquinho, até algum tempo num asilo da Lapa, e que nos anos 50 e 60 fechava a Rua XV ao deitar-se no asfalto com apoio da estudantada; Bataclan, um negro atlético, que tinha mais de 8O anos e andava só de calção em pleno inverno em corridas pela cidade, fazendo pregações de caráter cívico. O mais corrosivo, o Esmaga, Alvino Cruz, que tinha o marketing da mordida, morreu há pouco tempo. Hoje apareceu no pedaço o ‘‘Oil Man’’, um jovem que anda de corpo besuntado, de sunga, e pilotando uma bicicleta. Há ainda um portador de delírio ambulatório que a cada dia usa um refrão contra costumes políticos. Consta que um dia o chamaram de Requião por causa da veemência e ele, dirigindo-se a quem assim o tratara, fez a observação: ‘‘Por favor, não exagera’’. A literatura sobre o assunto é rala e dispersa, mas há uma monografia do Rafael Greca sobre personagens mais remotos como a Maria Sete Bundas, feita para os cadernos da Casa Romário Martins. AQUALOUCO Numa exibição de aqualoucos, com roupas de presidiário, na piscina do Colégio Estadual do Paraná, um sujeito inconveniente ao nosso lado fuma um charuto e solta a cinza nas pessoas próximas. À certa altura, como se bêbado estivesse, começa a desafiar o apresentador, afirmando que pularia da última plataforma. O cara imitava o Red Skelton do filmusical ‘‘Escola de Sereias’’ com Esther Willians. Vai lá em cima, arma um escândalo e cai junto com o apresentador na água do ponto mais alto. Tudo uma encenação. Todos juram – e nesse tempo não havia televisão, pelo menos por aqui nos anos 50 – que se tratava do Golias, aquele mesmo de ‘‘A praça é nossa’’. MELANCOLIA Em Paranaguá, a jovem da pequena burguesia foge com um artista do circo que se apresentara na cidade. Polícia e família vão atrás. À noite, vitoriosa, parte da cidade festejava, lotando o pátio da Estação Ferroviária, o retorno da pomba-rola que não pode voar. Os outros ficaram felizes porque ela voltava às raízes a que todos se amarram. CIRCO A melhor de circo é de Antonina: o anão tomou porre no bar do Coralino ligado no convívio com boêmios no dia da estréia e ficou fora de combate. Houve necessidade de improvisar e o disposto a substituí-lo tinha 1,60 metro. Apresentaram-no como o maior anão do mundo, conforme o livro dos recordes. É mais fácil uma dessas do que fazer Carnaval sem escolas de samba.