Luiz Geraldo Mazza Ônibus tipo exportação Nesta semana, Jaime Lerner faz palestra em Los Angeles para ‘‘vender o peixe’’ da qualidade do nosso transporte coletivo, uma de suas griffes. Já o fizera, anteriormente, e com muita festa, em Nova York com os ‘‘ligeirinhos’’ e a estação-tubo, esta realmente com um design bom. Até hoje não se sabe se a metrópole ianque vai ou não adotar a ‘‘novidade’’. Isso pode até, como boa parte das coisas que Lerner faz municipalmente, estimular a nossa auto-estima, mas o ‘‘ligeirinho’’ não é nenhuma Brastemp e dificilmente obteria uma certificação de qualidade, um desses ISO, se bem examinado, até porque a sua vedação é precária e, conforme a chuva, os seus passageiros se molham, não abundantemente, mas pelo menos peitoralmente. Tentativas de colocar o produto no Rio de Janeiro, por duas vezes, não deram certo e não foi por falta de esforço. Numa delas o atual governador ia cometendo um deslize ao tentar vender a ‘‘patente’’ (é sinônimo de privada, WC, mas no caso era pública) do sistema, incluindo os terminais. Inaplicável ao clima carioca as especificações de materiais: acrílico e calor são valores que não sincronizam. Enfim, não emplacou. Todavia não era o noticiário que aparecia por aqui, promocional, bajulatório. O biarticulado andou até pela Turquia (Istambul), e isso na primeira gestão de Lerner como governador, o que revela a persistência com que promove o tema. No caso de Curitiba, o biarticulado, eficiente e até bonito, com a sua coloração Ferrari, como falava Rafael Greca, pode ser uma medida métrica para a escala de Carnaval: num deles cabe a totalidade dos que gostam da festa na capital – todos sentados, é claro. Para espairecer é muito bom que Lerner viaje. Coincidentemente, a cada vez que há uma crise séria ele viaja e quando volta encontra um biarticulado cheio de problemas acumulados: a quadrilha, por exemplo, que vai encontrar não é aquela dança rural, compassada em expressões francesas, mas a da Polícia, se a limpeza não for bem feita. POSSE No retorno dos States, é possível que Lerner tome posse do governo METÁFORA Da suposta, e inaceitável, afirmação de Lerner e Candinho de que não sabiam da extensão e capilaridade da malha do crime organizado na Polícia do Paraná se pode fazer a paródia da fala de Cristo na hora do sacrifício: ‘‘Perdoai-os, Senhor, porque não apenas não sabem o que fazem como não enxergam o que ocorre à sua frente.’ FALARES Fui lecionar a aula inaugural do curso de Letras na Faculdade de Filosofia de Paranaguá e entre tantas lembranças falei do hábito de apelidos, ainda mantido apesar das grandes transformações havidas com a migração. Uma das coisas que me chamaram a atenção – e isso me foi confirmado pelo querido Jamur Júnior, guaratubano, mas frequentador da cidade – está no uso incrível da palavra ‘‘gessi’’ para nominar o formigamento, dormência, espasmo numa determinada área do corpo, hoje menos usada do que no passado. Outra expressão comum é dizer ‘‘alimar’’, originário de alimárias, para referir-se à força, potência. Rivelino tem um alimar de um chute, o Popó um alimar de um soco. Edmundo, o do Vasco, é redundante: um alimar de um ‘‘animal’’. O Ministério Público (Procuradoria de Investigações Criminais) encaminhou dossiê sobre o tema, mostrando as conexões com o crime organizado em 95, portanto logo no início da primeira gestão. Se para afastar os sem terra da frente do Palácio Iguaçu o governador levou meio ano dá para imaginar o cronograma para limpar uma área minada pelo crime. Com a CPI acelerou, mas ainda vai longe. MANCADA Muitas pisadas na bola nas falas dos deputados federais da CPI. Uma delas é piramidal: um deles, ao anunciar a ‘‘acareação’’ de um acusado com a testemunha referiu-se a ‘‘acariciamento’’, o que dizem ter havido especialmente na postura dos inquiridores diante do secretário de Segurança. Um promotor observou que ‘‘até para elegância há limite’’. ANALOGIA Bóris Casoy, anteontem, no jornal da Rede Record sobre a vergonheira da Polícia paranaense comandando o tráfico: ‘‘Se isso não for extirpado, vamos virar uma Colômbia ao cubo’’. Já disse outro dia, diante disso e do caso de Londrina, parodiando Fernando Pessoa: ‘‘Tudo vale a pena quando a lama não é pequena.’ Na linguagem e acrobacias da poesia praxis, lama é o anverso de alma e com ela conota. SUTILEZA Mestres do meu tempo de ginásio eram sutis: Maria de Lourdes Vítola, mestra de Espanhol, muito bonita, alvo de manifestações da rapaziada, foi ao quadro negro e escreveu ‘‘las chanzas de los chicos no me chocam’’. Driblou-os na língua de Cervantes e de Mário Moreno (Cantinflas). Já o professor de Matemática, Lauro Esmanhoto, ao ouvir um pum que escapou numa das primeiras filas: ‘‘Fulano de Tal, você deseja um copo d’água?’ RESPOSTA O boêmio Paula Nei, carioca, estudava Medicina, não saía do lugar e, é claro, caminhava para a jubilação, tal qual se deu com Noel Rosa. Todavia, quando fazia exames orais o anfiteatro enchia para ouvir suas blagues. O mestre colocou a questão: ‘‘Quantos ossos há na cabeça?’. Paula Nei pensou, pensou e arrematou, botando o indicador na testa: ‘‘Olha, professor, eu tenho tudo aqui e não me lembro!’ NOVELA Rui Barbosa é um craque em telenovelas, nas referências documentais, iconográficas, históricas, como se vê em ‘‘Terra Nostra’’. Mesmo, porém, que se leve em conta a dissimulação do vitorianismo, é inaceitável tanta suruba ao mesmo tempo num só grupo familiar: Mateo retorna pra Rosana, Juliana volta aos braços de Marco Antonio, a bruxa Janete vai ser encoxada pelo cocheiro, os velhos como Gumercindo e Francesco mostram que dão no couro. Apesar de alguns exemplos em contrário, o arquétipo da mulher não tinha essa folga. É verdade que o tempo desmistifica: uma senhora da sociedade curitibana foi amante de Getúlio Vargas, uma outra teve um filho com Luís Carlos Prestes e acusava-se os italianos da colônia anarquista de Santa Cecília de serem poligâmicos, o que decorria de uma visão conservadora dos vizinhos de origem polonesa.