Luiz Geraldo Mazza Cai ou não cai? A pergunta, ontem, era a seguinte: cai ou não cai? Como poucos admitem que o secretário Cândido Martins de Oliveira, da Segurança, pudesse ignorar o que ocorria, já que esses enlaces entre a Polícia e o crime organizado eram seguidamente referidos, só uma razão de ordem política poderia sustentá-lo no posto, depois desse vendaval: o escrúpulo do governador Jaime Lerner em poupá-lo e de poupar-se de qualquer vínculo, ainda que remoto, com o narcotráfico. Na verdade, se saísse agora ficaria, por analogia, chamuscado pelo vulcão, cujas lavas começam a assentar, da CPI. Embora não seja estranha a falta de determinação do governador, neste caso o benefício da dúvida o favorece, já que seria mais do que falta de cortesia forçá-lo a pedir demissão ou exonerá-lo. Cândido, desde a condição de membro do Tribunal de Contas, já era um aliado de Lerner, apesar da tendência daquele órgão de alinhar-se ao governante de plantão, tanto que votou pela rejeição das contas de Requião e depois deixou o seu posto de conselheiro para que o governador nomeasse o cunhado, Henrique Naigboren. Mesmo que não houvesse tais precedentes, haveria razões para poupar Candinho desse constrangimento. Na continuidade, no entanto, não há como aceitar a permanência. A não ser que haja uma reversão de expectativas e informes factuais que reduzam a presunção de culpa, seja por desídia, incompetência, omissão e até a estranhíssima, mas não impossível, hipótese de ser refém do sistema e de um grupo hegemônico no domínio do poder da Segurança. Remember o atentado sofrido. O governador não é nem autoritário, como o foram Requião e Alvaro Dias, muito menos determinado como um Jaime Canet. É ameno e horroriza-se mais com as coisas da Polícia do que as da política. Leva a frouxidão ao exagero como no cerco dos sem-terra ao Centro Cívico e ao nível de comprometimento como quando ‘‘promoveu’’ a secretário o autor dos desvios da Banestado Leasing. Não é um forte, alguém que efetivamente comanda. E foi essa ausência de comando tanto da parte dele quanto do secretário que gerou a barbárie que tanto nos desmoralizou nacionalmente. Espera-se que com a viagem de Lerner, e a descompressão daí resultante, como as massagens no ego que receberá em Los Angeles por causa dos feitos municipais, seu forte, haja um novo clima no Palácio Iguaçu e a disposição de puncionar o apostema que infestou a Segurança, remover o pus e o carnegão do tecido degradado, cuja obra de assepsia Cândido Martins de Oliveira prometeu ontem iniciar. Cai ou não cai? Não cai, ao menos por enquanto. PARADOXO Pode-se dizer com a máxima firmeza que o narcotráfico, pelo menos aqui no Paraná, está (ou estava) efetivamente sob controle MEMÓRIA Coincidências históricas: o advogado Luis Alberto Machado, que dá atendimento ao João Ricardo Noronha, foi, como promotor público, diretor da Polícia Civil na gestão Paulo Pimentel e autor do cerco militar à Delegacia de Furtos, então comandada por Dorval Simões, e da prisão do delegado. Fez-se, à época, a concessão habitual ao espetáculo e, na sequência, o acusado conseguiu reverter tudo na Justiça. Fique a lição do passado para que haja o máximo rigor em cautelas processuais para que não se frustre o que a população espera, que é um máximo de clareza e de eficiência na aplicação da lei. BIZARRICE E lá vem o senador Requião, em discurso anteontem na Câmara Alta: ‘‘O Paraná privatiza o Estado e estatiza o crime’’. Detalhe: as raízes entre crime e polícia vêm de longe, muito antes do seu governo. O que mudou apenas foi a escala. Naquele tempo, a medida era de botequim e a de hoje é de hipermercado. AXIOMA Não houve em roubos de automóveis qualquer registro de queda com a CPI das Drogas. Quando ao narcotráfico há quem diga que privatizado é mais forte, de acordo até com a mecânica da globalização. GLOSA Piada maldosa de atleticanos: o presidente do Coritiba teria sido convocado para depor na CPI porque era acusado de mandar droga para o México. E que era tão ruim que foi rejeitada (o segundo jogo não houve). EPIGRAMA Ato falho é dizer que só se saberá dos efeitos da CPI das Drogas quando o pó (poeira) baixar. Ou sugerir que houve ‘‘brilho’’ demais na CPI. SPRAY Procuradores de Justiça e promotores foram os que reagiram com a máxima indignação à declaração do secretário de Segurança de que nada sabia dos vínculos do narcotráfico junto à Polícia. - Paulo Kessler, da Promotoria de Investigações Criminais, em entrevista coletiva, desmentiu, categoricamente, Cândido Martins de Oliveira, afirmando que já em 1995, começo da gestão Lerner, um alentado dossiê sobre a conexão com o crime organizado foi enviado ao secretário de Segurança. - Vamos agora – e isso é uma necessidade imperiosa – ver essa documentação e, se possível, outras já referidas e encaminhadas também ao próprio governador. - Quanto aos ‘‘panos quentes’’ na inquirição do secretário, houve negociação e até se trata de procedimento aceitável, se considerarmos que Cândido Martins de Oliveira era a representação do próprio Lerner. - Como na caderneta de poupança, dizia um deputado de oposição, não aceitando a jogada diplomática, o que se acumular agora se dissipará depois. - Essa parada tem que ser assumida especialmente pelo Ministério Público, tanto o estadual quanto o federal. Não dispensa, no entanto, a atuação vigilante da sociedade que, a essa altura, deve fazer uma autocrítica da sua displiscência. - Igualmente, nós da imprensa. Em que lugar ficou o tão badalado jornalismo investigativo? Tudo o que está acontecendo decorre do hábito cultural de acatar a verdade oficial como definitiva, graças à tutela. E isso não se restringe a cobertura policial, quase sempre acrítica. FOLCLORE Rádio CBN tocou à exaustão a composição ‘‘Acorda, amor’’ de Chico Buarque de Holanda (para fugir da censura, atribuída a Julinho da Adelaide), enquanto se noticiava e se debatia todo o processo da CPI. O refrão forte é o ‘‘chamem o ladrão’’. O ladrão supõe-se que seja assumido. CROMO Curitiba, nestes dias, tem a placidez de uma estação de águas. AFORÍSTICO Mais uma sessão da CPI e este governo não prende sequer a atenção.