Luiz Geraldo Mazza ‘‘Juro que não sabia...’’ Tenta-se desqualificar as testemunhas da CPI das Drogas por serem criminosas e a isso é dado tanta eloquência como se bastasse para elidir as denúncias. No entanto, sabe-se que a questão do crime organizado em vários Estados e sob o comando do deputado cassado, Hildebrando Pascoal, dependeu basicamente desse tipo de testemunho. Ninguém conhece melhor a malha da delinquência do que o próprio criminoso. O fato é que, a despeito da presunção que se tinha do contubérnio entre crime e autoridade, jamais se imaginava que alcançasse tamanhas proporções. Esse ar de espanto, nosso e de parte das autoridades, porque algumas delas de tudo sabiam ou ao menos desconfiavam, lembra a eterna desculpa do povo alemão relativamente à ascensão do nazismo – a de que, entorpecido pela massagem de auto-estima, do orgulho nacional ofendido pela humilhante derrota na Primeira Guerra e estimulado pela pregação hitlerista, ignorava o massacre aos judeus nos campos de concentração. ‘‘Juro que não sabia...’’ Por sinal que Goebbels doutrinava: ‘‘Uma boa propaganda salva um mau governo, mas um bom governo não dispensa a propaganda.’’ Qualquer semelhança entre essa reflexão e a nossa realidade é mera coincidência. BIZARRICE Quando revelaram a existência de bombas na Assembléia, local de reunião da CPI, um cidadão fez o alertamento: ‘‘A última vez que anunciaram fogo por aqui, um incêndio liquidou o prédio e os arquivos’’ AXIOMA Impedir o funcionamento da Justiça é crime capitulado em lei. Obstruir o andamento de uma CPI federal, com tiros e ameaças de bombas, o que é? GLOSA Coxas e paranistas, segundo o anarco-sindicalista Elísio Marques, vão, no dia 9, até a Arena da Baixada, torcer pelo ‘‘Emelec’’. Argumento: meleca por meleca, mantém-se o hábito. CURTO CIRCUITO Entre as ‘‘jóias’’ da língua, ditas pelos membros da CPI das Drogas, há algumas comoventes como ‘‘em quatro meis’’ ou ‘‘ali havia menas cocaína’’ o que é uma ‘‘quest㒒 (ou ‘‘questam’’) relevante. Um se referiu ao ‘‘projetíl’’. Aqui, no Paraná, havia um governador com o hábito de dizer ‘‘menas’’. Um secretário o alertava e o cara não se emendava. Achava aquilo de ‘‘menas’’ importância. Em vez de bombas, poderiam lançar uma gramática em alguns dos membros. Atentado por atentado, serviria como remédio extremo. ‘‘Similia similibus curantur’’, tal qual no princípio da homeopatia. CONTRA A LEI Observar a lei não é o forte deste governo: agora, por exemplo, os inativos com mais de 70 anos foram novamente descontados da Previdência, embora a existência de decisão em contrário. Quem está chiando é o sindicato titular da liminar que beneficiava seus associados, o dos fiscais estaduais. Assim, pois, não respeitou decisões judiciais sobre precatórios, abono de férias do funcionalismo, invasões de terras. Tudo isso, porém, é o mínimo diante do que se apura na CPI das Drogas. BÍBLICA Muitos serão os chamados, poucos os escolhidos. Profética a advertência bíblica. Dá para exercitar outra profecia: dos escolhidos, muito poucos serão punidos. A pizza, segundo Elísio Marques, ex-PM e ex-magistrado, será ‘‘meia marinara, meia ‘‘all burro’’, temperada com raspa de chifre de rinoceronte e mandrágora em lugar do orégano.’’ PARANÓIA Por um lapso, o repórter se referiu à CPI das Dragas e alguém, nervoso ao extremo, tascou ‘‘Meu Deus: descobriram o nosso negócio!’’ Como a droga tem o dom da ubiquidade, estar em todos os lugares ao mesmo tempo, os chunchos podem estar nessa também, até onde menos se espera. SPRAY O secretário Cândido Martins de Oliveira, da Segurança, convocado pela CPI, é alegoricamente o governo personalizado no processo. Politicamente, o ônus é pesado, mas é um dos poucos integrantes do oficialismo habilitado a enfrentar uma saia justa dessas. - O constrangimento de ouvir a sugestão de um possível compromisso emocional com o delegado Noronha por causa do atendimento num acidente provocado pela filha é uma prova da coragem do secretário, tão diversa da atitude do diretor da Polícia Civil que fugiu à convocação e obrigou o governo a demití-lo de forma definitiva. - Noronha havia sido acusado de outras situações como a de ter torturado um advogado paulista. Como esse tipo de crime é irremissível, conforme a Carta Cidadã do Doutor Ulysses, era de esperar-se maior seriedade na apuração, o que não houve, apesar de tratar-se de um expediente da OAB-SP. FOLCLORE Londrina vira um estuário das vítimas de 64. O cassado Almir Passo, advogado, está em seu escritório em 1970 e se reúne com Mário Lima, José Joffily, Osmar de Aquino, Francisco Lemos, todos nordestinos como ele e ex-deputados federais cassados. Presente também o paranaense Fernando Gama. Falam das perspectivas da política, Joffily, líder nacionalista, refere-se à Herbitécnica, indústria que criou, quando, inopinadamente, entra para cumprimentar Fernando Gama o então vereador Otássio Pereira. A conversa muda de rumo e Otássio fala sobre os problemas da vereança: ‘‘Os senhores não sabem como é difícil se eleger vereador. Tratar com o povo exige experiência e sabedoria.’’ CROMO Agora me liguei por que o joão-de-barro, com seu canto estridente, apareceu na janela da Rádio CBN: queria o auxílio-moradia, no seu caso uma redundância radical. AFORÍSTICO À cada crise mais prolongada, uma viagem para o exterior: assim foi no caso das jaquetas, da briga entre PMs e delegados, no acampamento do MST e agora nesta da CPI das Drogas. Mediadores de Lerner deveriam ser diligentes para evitar tanto acúmulo de constrangimento. Ademais, a viagem passa e o drama, por aqui, persiste.

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