Quando mais se torna imperativo o processo de globalização, na verdade mais cosmopolitismo do que universalismo, o senso de autarquia - um dos limites da nossa cultura - ganha uma dimensão bizarra. A bem-intencionada caravana que foi a Brasília para desembaraçar os empréstimos incidiu nessa visão, viciada, da nossa realidade: parecia em tudo a manobra típica dos paranaenses para ser consumida por eles próprios. Algo assim com uma dessas ‘‘peruas’’ da alta burguesia que vai ao Rio desfilar numa escola de samba e acredita que o mundo inteiro se ligou no seu desempenho.
O Paraná fala demais para dentro, despende uma fortuna com esse exercício e pouco faz no sentido de integrar-se ao resto do Brasil, aproveitando afinal o potencial do governador de maior força supra-regional de sua história. Mas falamos para dentro, quase na perspectiva da visão da galinha de que o mundo começa e termina no galinheiro, em todos os campos, inclusive no cultural. Raros são os que ultrapassam as lindes físicas: Dalton Trevisan e Cristóvão Tezza na Literatura, Wilson Martins na Crítica, Poty nas Artes Plásticas, um Newton Freire-Maia na Ciência, um Fausto Castilho na Filosofia, Egas Muniz de Aragão no Direito.
A caravana a Brasília tem um pouco dessa carga provincial com os jornais fazendo editoriais candentes como se a comitiva e a indignação impressa fossem suficientes e tivessem o condão de mexer com o Brasil e não apenas, como sempre, com os paranaenses. Tudo mal pensado e pior ainda executado: fomos até olhados como mal educados que nem pedimos audiência e levamos a pior, vendo figuras dignas como um Rubens Brustolin, Ardisson Akel e Miguel Salomão sofrendo o constrangimento das agressões histéricas de Requião.
Da mesma forma que os governantes - e isso é outra patologia local - não mudam a realidade de dentro do aquário palaciano, onde transitam as conveniências, nós não temos como contestar o fato de que o Paraná é a expressão fortíssima do desprestígio. A falta de respeito é um corolário natural. O Hospital de Clínicas de Curitiba é o único dos de porte do País que não conta com o bônus do pagamento do pessoal pelo Ministério da Educação. Tivemos, só para lembrar os desatentos, nestes últimos 35 anos, três ministros da área e também não conseguimos federalizar uma só universidade estadual. Tarso Dutra, gaúcho, numa tacada no Ministério, federalizou todas. Também tivemos três ministros da Saúde. Que limite é esse que evidencia tanta introversão?
Obviamente não podemos depender de um governador, sabidamente fraco, para encarar esse tipo de desafio. A sociedade tem de mexer-se e largar mão de fazê-lo apenas para gravitar em torno do poder, outra das nossas deformações. Os governos mudam e essa suposta elite continua a mesma e com os rituais bem conhecidos: seja para saudar a fantasia da Ferroeste, inconclusa, ou qualquer coisa que implique em consumo de coquetéis e canapés. Oba-oba é com ela mesmo.
Faz o discurso da livre iniciativa e não consegue desatar o elo estatal que a sustenta e nutre. Nada como o cartorialismo e o mercado cativo para sustentá-la. E são esses mesmos agentes os beneficiários do investimento público e que aparecerão na sequência como clientela indispensável.
Que carência fatal - aquela ausência das asas no homem, de que tratava Aristóteles - estaria nos condicionando em tão sucessivos episódios? O assunto merece reflexão, mas de saída se percebe que a ausência de um líder, de alguém que galvanize, ainda que reproduzindo a visão bíblica do patriarca, é um dos fatores limitantes. De alguém que fale como Munhoz da Rocha ou Parigot de Souza, o elan de estadista, doutrinador e estrategista, e aja como um Ney Braga, criando fatos consumados.
BIZARRICE Uma figura da política do Paraná vai ao banheiro e se descuida na hora de higiene, voltando do WC a arrastar um rolo de papel higiênico pelo chão. Tão longo que parecia um desses exagerados vestidos de noiva.
ESPETÁCULO Roger Gerard Schwatzenberg escreveu ‘‘O Estado Espetáculo’’ ampliando as dimensões do estudo anterior de Guy D’Abord ‘‘A Sociedade Espetáculo.’’ Agora a arquiteta e urbanista Fernanda Ester Sánchez Garcia enfocou em livro ‘‘Cidade Espetáculo’’ voltado à análise do planejamento urbano de Curitiba e o City Marketing. Nesta semana ela participa de um dos seminários da Câmara Municipal sobre o Plano Diretor e deve lançar a sua obra, que está fadada a grande repercussão, por mostrar como se manipula a mente das pessoas em Curitiba há muito tempo; avalia, em cada período, o tom dominante da cidade ecológica e modelo urbano à chegada das montadoras.
Indispensável que se faça algo para tirar o ar de fundamentalismo, que atinge a própria Universidade, onde se cultiva a mitologia, jamais contestada, dos feitos discutíveis e inclusive do futuro que nos ronda em perda de qualidade de vida com a chegada do tal 2º Pólo Automotivo do País. Repetirá aqui o que houve em Belo Horizonte, cidade planejada ao contrário de Curitiba, com a degradação física e humana, embora as distâncias de Betim e Contagem sejam maiores do que a de São José e Campo Largo.
FOLCLORE Perguntado como conseguira fazer passar o empréstimo na CAE em favor do Rio Grande do Sul no mesmo dia em que o Paraná fôra bloqueado, o senador Pedro Simon explicou: ‘‘Em nosso Estado, a politicagem fica fora do trato dos interesses gerais.’’ Deveríamos ter com os gaúchos mais coisas em comum do que o chimarrão e o arroz carreteiro.

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