Luiz Geraldo Mazza
Quando mais se torna imperativo o processo de globalização, na verdade mais cosmopolitismo do que universalismo, o senso de autarquia - um dos limites da nossa cultura - ganha uma dimensão bizarra. A bem-intencionada caravana que foi a Brasília para desembaraçar os empréstimos incidiu nessa visão, viciada, da nossa realidade: parecia em tudo a manobra típica dos paranaenses para ser consumida por eles próprios. Algo assim com uma dessas peruas da alta burguesia que vai ao Rio desfilar numa escola de samba e acredita que o mundo inteiro se ligou no seu desempenho.
O Paraná fala demais para dentro, despende uma fortuna com esse exercício e pouco faz no sentido de integrar-se ao resto do Brasil, aproveitando afinal o potencial do governador de maior força supra-regional de sua história. Mas falamos para dentro, quase na perspectiva da visão da galinha de que o mundo começa e termina no galinheiro, em todos os campos, inclusive no cultural. Raros são os que ultrapassam as lindes físicas: Dalton Trevisan e Cristóvão Tezza na Literatura, Wilson Martins na Crítica, Poty nas Artes Plásticas, um Newton Freire-Maia na Ciência, um Fausto Castilho na Filosofia, Egas Muniz de Aragão no Direito.
A caravana a Brasília tem um pouco dessa carga provincial com os jornais fazendo editoriais candentes como se a comitiva e a indignação impressa fossem suficientes e tivessem o condão de mexer com o Brasil e não apenas, como sempre, com os paranaenses. Tudo mal pensado e pior ainda executado: fomos até olhados como mal educados que nem pedimos audiência e levamos a pior, vendo figuras dignas como um Rubens Brustolin, Ardisson Akel e Miguel Salomão sofrendo o constrangimento das agressões histéricas de Requião.
Da mesma forma que os governantes - e isso é outra patologia local - não mudam a realidade de dentro do aquário palaciano, onde transitam as conveniências, nós não temos como contestar o fato de que o Paraná é a expressão fortíssima do desprestígio. A falta de respeito é um corolário natural. O Hospital de Clínicas de Curitiba é o único dos de porte do País que não conta com o bônus do pagamento do pessoal pelo Ministério da Educação. Tivemos, só para lembrar os desatentos, nestes últimos 35 anos, três ministros da área e também não conseguimos federalizar uma só universidade estadual. Tarso Dutra, gaúcho, numa tacada no Ministério, federalizou todas. Também tivemos três ministros da Saúde. Que limite é esse que evidencia tanta introversão?
Obviamente não podemos depender de um governador, sabidamente fraco, para encarar esse tipo de desafio. A sociedade tem de mexer-se e largar mão de fazê-lo apenas para gravitar em torno do poder, outra das nossas deformações. Os governos mudam e essa suposta elite continua a mesma e com os rituais bem conhecidos: seja para saudar a fantasia da Ferroeste, inconclusa, ou qualquer coisa que implique em consumo de coquetéis e canapés. Oba-oba é com ela mesmo.
Faz o discurso da livre iniciativa e não consegue desatar o elo estatal que a sustenta e nutre. Nada como o cartorialismo e o mercado cativo para sustentá-la. E são esses mesmos agentes os beneficiários do investimento público e que aparecerão na sequência como clientela indispensável.
Que carência fatal - aquela ausência das asas no homem, de que tratava Aristóteles - estaria nos condicionando em tão sucessivos episódios? O assunto merece reflexão, mas de saída se percebe que a ausência de um líder, de alguém que galvanize, ainda que reproduzindo a visão bíblica do patriarca, é um dos fatores limitantes. De alguém que fale como Munhoz da Rocha ou Parigot de Souza, o elan de estadista, doutrinador e estrategista, e aja como um Ney Braga, criando fatos consumados.
BIZARRICE Uma figura da política do Paraná vai ao banheiro e se descuida na hora de higiene, voltando do WC a arrastar um rolo de papel higiênico pelo chão. Tão longo que parecia um desses exagerados vestidos de noiva.
ESPETÁCULO Roger Gerard Schwatzenberg escreveu O Estado Espetáculo ampliando as dimensões do estudo anterior de Guy DAbord A Sociedade Espetáculo. Agora a arquiteta e urbanista Fernanda Ester Sánchez Garcia enfocou em livro Cidade Espetáculo voltado à análise do planejamento urbano de Curitiba e o City Marketing. Nesta semana ela participa de um dos seminários da Câmara Municipal sobre o Plano Diretor e deve lançar a sua obra, que está fadada a grande repercussão, por mostrar como se manipula a mente das pessoas em Curitiba há muito tempo; avalia, em cada período, o tom dominante da cidade ecológica e modelo urbano à chegada das montadoras.
Indispensável que se faça algo para tirar o ar de fundamentalismo, que atinge a própria Universidade, onde se cultiva a mitologia, jamais contestada, dos feitos discutíveis e inclusive do futuro que nos ronda em perda de qualidade de vida com a chegada do tal 2º Pólo Automotivo do País. Repetirá aqui o que houve em Belo Horizonte, cidade planejada ao contrário de Curitiba, com a degradação física e humana, embora as distâncias de Betim e Contagem sejam maiores do que a de São José e Campo Largo.
FOLCLORE Perguntado como conseguira fazer passar o empréstimo na CAE em favor do Rio Grande do Sul no mesmo dia em que o Paraná fôra bloqueado, o senador Pedro Simon explicou: Em nosso Estado, a politicagem fica fora do trato dos interesses gerais. Deveríamos ter com os gaúchos mais coisas em comum do que o chimarrão e o arroz carreteiro.





