Luiz Geraldo Mazza
Sincronia de azares
Embora haja algo nos ares, proximidades do Palácio Iguaçu, que não apenas os aviões da Varig e da TAM, com o garboso gavião peregrino, que fez seu ninho por perto, a impressão que se tem é que um urubu ou qualquer outra ave de mau agouro pintou no Centro Cívico. O calendário o comprova: hoje teremos a retomada das densas e agitadas sessões da Câmara Municipal de Londrina e que atingem, por osmose, o governo central e o início das operações da CPI das Drogas, que também o acabará atingindo.
O que anda ocorrendo, neste período, chega à beira do sufoco, tal qual se dá com o time de futebol muito atacado e quando o desespero se acentua até os que sofrem na defesa chegam ao limite e passam a desejar, como se fosse a catarse ou um impulso de libertação, tomar o gol de uma vez. Nestes últimos dias acelerou-se de tal forma a prensa sobre o Palácio Iguaçu na esteira de assuntos funestos que não há sequer o que ver à frente em paisagem tranquilizadora, já que lá estão as cercas de ferro lembrando um campo de concentração montadas para impedir que o povo diga o que pensa.
A fuga do Presídio do Ahú, com efeitos psicossociais devastadores sobre o já arrasado sentimento de insegurança da população, é prova de que há azar demais e numa acumulação de energia negativa, assustadora. Ela é um contraponto ao delírio virtual das imagens da Penitenciária Industrial de Guarapuava, tão exploradas até nos programas eleitorais, no hábito propagandístico de mostrar a árvore e ocultar a floresta, velha compulsão fascista de toda publicidade, redundantemente enganosa.
A sensação é a de que ninguém chegou mais cedo ao Estado Mínimo: tudo o que era eficiente está programado para o leilão, à exceção do Banestado que sempre foi marotinho porque alvo da manipulação dos políticos na cobertura de seus e dos empréstimos alheios, jamais pagos ou negociados na bacia das almas.
Segurança não existe, Educação e Saúde vão mal, a máquina estatal é autofágica ao arrecadar para apenas atender despesas de custeio, servidores são obrigados ao parcelamento dos seus créditos, a fila de credores é cada vez maior entre direitos antigos (precatórios) e os atuais.
Se continuar tudo nesse diapasão e imaginássemos o Palácio Iguaçu como o palco de um programa de televisão, no qual o auditório pudesse se manifestar, ainda que confinado nas grades de ferro do Centro Cívico, haveria um grito, meio injusto, mas libertador como grito primal: Vai pra casa, Padilha!
BIZARRICE
Quando um assessor do governo viu o Mauro Baruque entrevistando o Washington Lemos, executivo da ABCR, na TV Educativa, comentou, descuidado: A próxima atração deve ser um dos senadores paranaenses.
AXIOMA Do governo paranaense, o que mais trabalhou pela oposição na história recente, se pode dizer, diante de tanto infortúnio, a máxima de Mao-Tse-Tung: É como uma faísca na pradaria!
GLOSA Ao saber que o líder do governo, Valdir Rossoni, havia se referido à distribuição de ambulâncias com o dinheiro liberado do Fundo de Previdência dos servidores no governo Requião, o senador, bem no seu estilo, declarou que o deputado valia, quando muito, um Gol Mil.
As explicações do Ministério Público de que não existem indícios de que houve o racha dos R$ 3,5 milhões não são suficientes. Os deputados teriam que apurar a origem do informe e processar quem o divulgou. Mas tudo ficaria bem mais claro e tudo retornaria à estaca zero se restabelecessem a CPI da Sercomtel-Copel-Banco FonteCindam que, de forma estranhíssima para a praxe parlamentar, desfizeram, depois de instalada.
EPIGRAMA O senador Roberto Requião apoiou o empreiteiro Paulo José de Souza, aquele que se acorrentou para receber haveres na Secretaria de Educação, e que foi levado a um Pronto Socorro Psiquiátrico, o que o paciente forçado considera tortura. Requião poderia argumentar que a turma do situacionismo também o chama de louco desde o início dos anos 80.
Orestes Quércia, hoje seu aliado, quando era por ele atacado, disse: Ele é Maria Louca, às vezes mais louca do que Maria, às vezes mais Maria do que louca. Política é assim; ela, sim, enlouquecida: a injúria de hoje pode ser o bálsamo de amanhã.
QUADRA Surpreendente o uso de um rap de dois minutos e meio pela Kaiser na luta contra a Ambev, soma de Brahma, Antárctica e Skol. Lembra coisas do início do século 20, ainda não concluído, quando se fazia nos bondes e em cartazes o reclame: Veja ilustre passageiro/ o belo tipo faceiro/ que viaja ao seu lado/ No entanto, acredite/ quase morreu de bronquite/ salvou-o o Rhum Creosotado!
O Jota Carlos, que manda versinhos para a CBN, glosou: A Coca-Cola pagando/ uma campanha trovada/ ao mundo vai demonstrando/ que a poesia é danada. A Coca Cola diz que é sócia minoritária.
ECOLOGIA
Está marcada para 22 de março audiência pública para discutir o Relatório do Impacto Ambiental do Terminal Portuário de Itapoá, a praia catarinense mais próxima e que tem 75% de paranaenses. A luta contra a pretensão do grupo madeireiro Batistella (ao qual se suspeita estarem ligados à Tafisa, subsidiária do Sonae, o grupo que desfigurou o atendimento da Rede Mercadorama) é antiga e mobiliza ambientalistas de Santa Catarina e do Paraná. Como se pretende construir o porto em área declarada de preservação permanente (Mata Atlântica, já por demais agredida, como se vê no Paraná) há a reação.
FOLCLORE Os pragmáticos, como sempre, defendem que o porto em Itapoá trará mais progresso à região. O povo simples contesta: São Francisco tem um porto com 438 anos e não é a maior cidade brasileira; Itajaí, que tem um terminal importantíssimo, é o primeiro lugar em Aids no Brasil.
CROMO Cada vez que o horizonte escurece há esperança de chuva de água benta lá para os lados do Palácio Iguaçu.
AFORÍSTICO Vem aí o pedágio entre os cercados do Centro Cívico.





