Luiz Geraldo Mazza
Como ajudar a oposição
Não é preciso ser versado em dialética para perceber que ninguém serve mais à oposição, como destaquei ontem, do que o governo Lerner. Daí a inutilidade essencial no outdoor que o PMDB mandou afixar em alguns pontos de Curitiba com o apelo, justaposto a uma imagem enorme do senador Requião, e a frase ajude a oposição a defender você!
É sabido que o senador peemedebista, inegavelmente a força maior e menos ambivalente da oposição, já que outra seria Alvaro, aquele do acordo branco, está sendo paparicado para sair candidato a prefeito de Curitiba, posição que hesita adotar porque a cautela nele é simétrica à coragem. Para o partido, e até para salvá-lo no Paraná, a escala de Roberto Requião, outra vez, na prefeitura da capital é indispensável.
Descontada a malícia de muitos, que desejam eleger vereadores e prefeitos no interior e acumular energias para se reelegerem como deputados, o raciocínio é correto. Outra coisa: se a pressão persistir, e isso se dá numa certa medida com o apelo do outdoor referido, ficará ruim para o senador a deserção. Dará a impressão que não gosta de correr riscos até porque só se elegeu em cargos executivos acoplado ao governo e isso se repetiu no pleito senatorial. Quando tentou fazê-lo na oposição perdeu de Lerner, mas este ainda estava um tanto quanto vitaminado, o que não acontece hoje, quando se inicia o processo de contaminação do seu fiel discípulo Cassio Taniguchi.
O vulcão da imoralidade pega o governo estadual em cheio: não há como fazer cordão sanitário relativamente aos feitos de Londrina. É claro que Lerner parece um aprendiz desastrado diante do populista Belinati, mas os desvios de recursos, várias vezes referidos em depoimentos, teriam beneficiado também a campanha governamental. O depoimento de Eduardo Alonso ao Ministério Público em Curitiba é claríssimo nesse particular. Por outro lado, a oposição, em especial a do PSDB, guarda um ressentimento selvagem da derrota em Londrina quando Lerner desembarcou a força-tarefa que desequilibraria o segundo turno em favor do candidato palaciano.
Especialmente a manobra que desmontou a CPI, já instalada, para o negócio entre Sercomtel-Copel-Fonte Cindam, deixa muito mal os parlamentares, e isso independentemente do vago informe de que alguns deles teriam recebido R$ 3,5 milhões ou R$ 5 milhões, pois o recuo em si é abominável em termos institucionais. Enfim, apenas desdobramentos de uma só novela.
FOLCLORE
Em holocausto à liberdade, diz o José Carlos Mendes, o Centro Cívico é um campo de concentração. Um ou vários?
PRESSÃO Luas pretas, provavelmente os autores da mensagem do PMDB jogaram com muita categoria e sutileza: o cartaz, embora apenas reafirme a óbvia liderança de Roberto Requião, pode, eventualmente, servir de uma propaganda, por via tortuosa, para que o senador aceite a missão. Requião não teria como desautorizar uma mensagem pouco explícita e se o fizesse daria a impressão de fuga e escapismo.
O efeito nos arraiais situacionistas foi terrível: distonia neurovegetativa, suores nas mãos, palpitações. Com a matéria-prima, boa para adubo da melhor qualidade, que está por aí, dá para imaginar o estrago.
BIZARRICE O petróleo é nosso, Alvaro também!. Já há um teaser para explorar as posições do senador Alvaro Dias relativamente à Petrobrás. Persiste um divisor entre seu staff: Hélio Duque, que tem um histórico de nacionalista atuante, alertou-o, como funcionário e conhecedor da dinâmica interna da Petrobras, de que a venda de ações não coloca em risco a integridade da empresa e ao contrário até a consolida. Já o Carlos Nasser, também assessor, conhecedor de mercado financeiro, acabou levando a melhor no conselho e faz proselitismo em alguns meios de comunicação.
AXIOMA Hobbsbawn, um dos maiores marxistas da atualidade, autor do enciclopédico A Era dos Extremos sobre o fechamento do século (ao qual poderia aditar as transformações dos últimos dois anos) abomina o nacionalismo e o enquadra como ideologia da direita.
GLOSA O que o Brasil paga de juros por causa da Dívida Externa justificaria que se dissesse do expediente que é BO (Bom para Otário).
John Keneth Galbrait, um dos maiores pensadores liberais (o que não se confunde com a calhordice fundamentalista chamada neoliberalismo), em visita ao Brasil, disse, do alto de sua expressão política e acadêmica, que o País não deveria pagar a sua dívida externa.
SPRAY Uma pergunta: algum dos empresários, envolvidos no golpe do Clube dos 60% do ICMS, foi punido? - Se isso não acontecer teremos uma enxurrada de ações contra o Estado (abalo de crédito, lucro cessante, difamação e calúnia) contra o governo estadual, como já ocorre com as tropelias da Leasing, onde um dos beneficiados, por um parcelamento de dívida, está processando o Banestado. - BO não se assenta apenas ao caso do Brasil na Dívida Externa e sim a todos nós com o supercheque cobrando juros anuais de 145,1%. Uma calamidade. - Por essas e por outras é que o Brasil lembra o besouro, cujo vôo acontece, embora a ciência não explique, conforme o ditado popular. - Como o governo está sem recursos, já que ele próprio esvaziou o caixa (R$ 500 milhões em propaganda), vai caber às concessionárias do pedágio, depois da solução judicial, fazer a justificativa institucional sobre a sua eficácia. - Nem propaganda massiva, no estilo da Coca-Cola e das cervejas, evitará a transformação do tema no assunto principal desta campanha eleitoral e da futura. Vai marcar Lerner como tatuagem, a não ser que haja uma reversão na questão das tarifas. - Consta nos meios ligados ao transporte urbano que o ex-deputado José Felinto e João Simões, ex-dirigente do cartel em Curitiba, estariam tocando uma associação de usuários em São Paulo e que defenderia soluções alternativas. - Num momento em que são raras as manifestações de solidariedade aos Belinati, Dona Emília, a vice, ficou comovida com a visita que lhe fez o secretário Heinz Hervig, panzer na defesa do pedágio, mas sensível com os amigos em dificuldades.
CROMO Uma estrela cadente cortou, com sua luminiscência, o infinito, mas meus olhos estavam voltados para Dalva, a Vênus.
AFORÍSTICO O abraço dos estudantes de Arquitetura ao Centro Cívico é suave, terno, afetivo; o do governo, com os alambrados, é confinador, coativo e, sobretudo, covarde. Só falta mangueirão para tratar o povo como gado.





